Dia dos Namorados


Véspera da Festa Litúrgica em comemoração a Santo Antônio de Lisboa.


(Fernão de Bulhões, que tomou à religião o nome de Antônio, nasceu numa casa junto da Sé Patriarcal de Lisboa; cresceu, estudou, viveu e entregou-se a Deus em Portugal e levou o seu saber e santidade à Itália e à França.) 

História de sua escolha como Patrono dos Namorados:

Pelos anos de 1450, viviam em Nápoles uma viúva e sua filha única, de rara beleza, virtude e espiritualidade. Originárias de família nobre, caíram na pobreza. A mãe, pensando que é a riqueza que dá aceitação social, e não tendo meios para dotar a filha de modo a permitir-lhe um casamento condigno, insistia em que a filha, usando de sua beleza, se prostituísse aos numerosos pretendentes que a assediavam. Ciosa da sua castidade, e fervorosa devota de Santo Antônio, dirigiu-se à igreja e prostrada diante da imagem do Santo, dolorosamente lhe pediu que lhe valesse. A imagem do Santo curvou-se; em sua mão trazia um papel em que estava escrito: “Dê a esta donzela, portadora deste papel, o peso do mesmo em moedas para constituir seu dote matrimonial”. E à moça, que estava de joelhos a seus pés, disse: “Vai à casa do mercador chamado... e da minha parte entrega-lhe este papel”. A menina obedeceu. Ao ler o escrito, o mercador deu uma risada trocista e mandou vir uma balança; num dos pratos colocou o papel e no outro, uma pequena moeda de mínimo valor. Mas a balança não se moveu. Então acrescentou mais uma outra moeda; e a balança continuou imóvel. E foi colocando moedas e mais moedas até que, atingindo 400 moedas de prata, a balança se equilibrou. Lembrou-se então o mercador que tempos passados prometera doar 400 moedas de prata a Santo Antônio, se conseguisse realizar um negócio em que ganhou muito mais. Esquecera-se da promessa e nunca a cumprira. Santo Antônio veio então pedir-lhe o seu cumprimento. A donzela conseguiu o seu dote e pôde casar honestamente segundo as leis da Santa Madre Igreja. 

Este é um fato. E por que é festejada à véspera? Nos tempos antigos, em que não havia as facilidades que existem nos dias de hoje, as peregrinações aos lugares sagrados eram feitas a pé, ou quando muito, em carroças puxadas a cavalos ou carros de bois. A viagem demorava dias e era calculada de modo a chegar, ao local da festa, na véspera de sua realização. Nessa noite, então, ao redor de uma fogueira, se fazia uma outra festa popular: o arraial. Com comida, bebidas, cantos e danças se trocavam os tradicionais vasinhos com manjericos, com cravo de papel espetado e, em cima, uma quadra. (Manjerico, meu manjericão; Amor da minh’alma, dá-me a tua mão.) Alcachofras se queimavam e se plantavam na terra. Se, no dia seguinte estivesse florido, em breve seria encontrado um marido. (Uma esperança para as solteironas.) E se o Santo não atendesse ao pedido, então a sua imagem era pendurada de cabeça para baixo, no poço do quintal até que atendesse os desejos.

Bons tempos! Em que a religiosidade, a ingenuidade, e a fé andavam de mãos dadas. Disse o Senhor: “Se não vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus”.





Acadêmico José Ruivo da Silva   
Médico

Internet, e-mails e a língua portuguesa

Na introdução do meu livro “Encontro na barca e outras histórias de bahr” incluí alguns dados publicados na Revista Veja daquele ano (2005) reportando que 91% dos alunos da rede pública que terminavam o ensino fundamental simplesmente não conseguiam compreender os textos que liam.
As pesquisas atuais sugerem que nada mudou nestes quinze anos. Talvez tenha até piorado. Temo que não sejam apenas os alunos do ensino fundamental que tenham essa dificuldade. Quando leio alguns textos de estudantes universitários e até de profissionais formados respondendo e comentando artigos publicados nos blogs, portais de notícias e jornais, fico estupefato com as conclusões absurdas que emitem, geralmente fora do contexto principal do tema... sem contar o português pessimamente escrito. São pessoas que aparentam não entender nada de sátira, duplo sentido, escárnio, paródia ou de interpretações pessoais nos textos. São apenas leitores, no sentido literal.
Essa incompreensão tem origem na falta de leitura e nas deficiências do ensino. É por isso que aparecem tantos erros de escrita em e-mails, cartas, opiniões dos leitores, artigos de jornais e portais, comentários nas redes sociais e nos textos dos próprios jornalistas. Concordância, palavras e frases erradas, além de tempos de verbos mal utilizados, surgem com uma frequência assustadora. 
A informalidade na escrita não deveria ser confundida com a liberalidade de se utilizar um linguajar chulo, ofensivo e pleno de erros, como muitos fazem. 
Vários professores universitários com quem conversei já ficaram rubros de raiva em alguma ocasião ao revisarem provas e dissertações dos seus alunos, pois raros são os que conseguem escrever bem. 
A língua é o maior tesouro de uma nação. É a língua bem escrita e bem falada que abre as oportunidades de emprego, convivência, sucesso e realizações das pessoas. 
Espero que não seja a minha intolerância causada pela idade que me impeça de enxergar, talvez, o futuro da comunicação entre as pessoas. Estarei eventualmente ignorando que essa linguagem misturada a hieróglifos, símbolos, sinais, erros e palavrões seja a nova linguagem internacional, o substituto do Esperanto, idioma criado em 1887 pelo filólogo polonês Ludovic Lazarus Zamenhof e que deveria unir todos os povos do mundo? 
Para ilustrar como a ignorância se espalha, seguem algumas frases estapafúrdias escritas por especialistas forenses, que recebi de um amigo por e-mail:

- Laudo descritivo de um perito judicial:
"um barracão com pé direito de 5 metros e pé esquerdo de 4 metros"

- Frase de um termo de encerramento de laudo judicial de processo na Vara Cível do Fórum João Mendes em São Paulo:
"Os anexos seguem em separado". 

- Relatório de um perito do Banco do Brasil:
"Visitamos um açude nos fundos da fazenda e depois de longos e demorados estudos constatamos que o mesmo estava vazio"  

- Avaliação feita por um oficial de justiça:
“Incluir na penhora um crucifixo, em madeira, estilo country - colonial, marca INRI, sem número de série" 

Acadêmico Julio Ernesto Bahr

Nosso site: seis anos de informações


Após o falecimento do nosso fundador, Dr. João Soares Caldas, a Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina viu-se subitamente sem rumo. Afinal, Dr. Caldas esteve na presidência por longos 35 anos, alcançando enormes feitos e realizações culturais na cidade.

O que fazer?

O Prof. Leonardo Prota - que havia sido empossado poucas semanas antes como Vice-Presidente - assumiu o leme, conseguindo montar uma equipe participativa e bastante preocupada em dar prosseguimento à obra do fundador.

Nesta oportunidade, a Academia deu um salto para o Século XXI no que se refere a técnicas de comunicação e de ferramentas ainda não exploradas. Os convites para as reuniões, até então entregues por Correio, passaram a ser enviados via e-mails. Vários novos meios de comunicação vêm sendo utilizados, como as redes sociais, whatsapp, entrevistas a jornais e rádio, além da aproximação com o legislativo, que concedeu à Academia a Medalha Ouro Verde em 2014.

Todas as reuniões mensais, eleições de diretoria e participações da Academia em eventos próprios ou de terceiros, vêm sendo registradas neste site, que agora em junho completa seis anos prestando informações culturais à comunidade londrinense, ao Paraná, ao Brasil e a interessados em vários países, que acompanham estas realizações.

É a Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina divulgando cultura !

Nossas reuniões continuam suspensas

Comunicamos que, em vista da continuidade da pandemia, nossas reuniões presenciais da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina permanecem suspensas.
Em consequência, não haverá a reunião do segundo domingo deste mês de maio, que ocorreria no dia 10.
Assim que a situação estiver normalizada, será emitido novo comunicado.

A Diretoria


Papagaio-da-cara roxa


Aquarela de 2003 - um dos primeiros pássaros 
pintados pela artista.
De qualquer lado que se olhe, parece que está 
sempre olhando para você.



Acadêmica Neusi Berbel
Professora e artista plástica

Perigo: os erros de português na publicidade


(Texto apresentado na Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina em 2010)

Como em qualquer atividade intelectual, o pessoal que cria textos publicitários corre o sério risco de cometer erros – seja na escrita, seja na revisão. 
O problema é que os erros em textos publicitários, principalmente quando impressos, chamam tanto a atenção que acabam sofrendo críticas, chacotas e até processos. 
Como, por exemplo, uma empresa de Listas Telefônicas, que foi condenada a restituir alguns milhares de reais pagos por um colégio, acrescido de multa contratual de 10%, correção monetária e juros moratórios à taxa de 1% ao mês. A empresa sofreu o processo devido à publicação de um anúncio com erro de português. A palavra ensino foi escrita como "insino" no anúncio publicado na lista. Segundo o colégio, o erro foi ainda mais danoso por se tratar de anúncio de instituição cujo produto oferecido era exatamente a educação. 
Para o colégio, o erro colocou em questão a qualidade dos seus serviços e desde a publicação do anúncio recebeu inúmeros telefonemas desabonadores da sua credibilidade. 

No horário eleitoral gratuito em agosto de 2008, enquanto candidatos a vereador em Goiânia apregoavam suas “virtudes”, um doutor em letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp) teve a paciência de ficar caçando erros de português – e os encontrou em nada menos do que 93% das legendas. A maioria dos erros era de pontuação. Porém alguns deles eram verdadeiros atentados à gramática, segundo o especialista. Resta a dúvida: qual foi o percentual de perda de votos desses candidatos por causa dos erros? Isso se o horário eleitoral contou mesmo alguma audiência...

Um filme publicitário do Tribunal Superior Eleitoral em fevereiro de 2008, que fazia parte da campanha "Heróis pela Democracia", trazia o seguinte texto: "Heróis existem. Não desperdice o direito que eles tanto lutaram e conquistaram para você. Vote”. 
Segundo um professor coordenador de redação e interpretação de texto de cursinho no Rio de Janeiro, a frase continha um "erro grave de regência". "Quem luta, luta por alguma coisa. É estranho que uma comunicação oficial do governo tenha um erro desses". De acordo com o professor, uma opção correta seria dizer: "Não desperdice o direito pelo qual eles tanto lutaram e que conquistaram para você".

Agora, uma outra história que foi bastante divulgada. Uma quadrilha que pretendia invadir um condomínio de luxo em São Paulo, se fazendo passar por entregadores de cestas de natal, foi presa por conta de um erro de português.
"Do ponto de vista operacional, eles são muito bons. Mas, do ponto de vista gramatical, são péssimos", disse o delegado titular que os capturou. A ação dos criminosos estava sendo monitorada pela polícia, que ficou surpresa ao ler "impório" em vez de "empório" no veículo que continha as cestas e vinhos a serem entregues em um apartamento. O alvo seria o cofre desse apartamento. A sucessão de trapalhadas foi além. A mesma palavra escrita erroneamente foi bordada em duas camisas que eles usavam para tentar enganar os porteiros. "Ninguém em sã consciência vai manter exposta uma propaganda com um erro tão grosseiro", afirmou o delegado. 

Em Criciúma, as autoridades decidiram começar a multar as agências de propaganda pelos erros gramaticais ou ortográficos nos anúncios publicitários espalhados pelas ruas. Os inúmeros anúncios com erros de português indignaram de tal forma as autoridades da cidade, que estes decidiram aplicar multas de 500 dólares às agências publicitárias responsáveis pelos cartazes. A lei foi aprovada pela Câmara local, e permitia a qualquer cidadão denunciar os erros à autarquia. Caso a empresa responsável não corrigisse os erros, incorreria na multa.

A Universidade Católica de Pelotas atravessou um período difícil por ocasião do Dia das Mães, já que ninguém da agência de propaganda, da reitoria ou da assessoria de comunicação foi capaz de perceber dois erros grosseiros de português num texto impresso de nove palavras. O texto dizia:
“Mãe que ama,
Que proteje,
Que educa,
Simplismente mãe.
Universidade Católica de Pelotas

Distração também deve ter sido a causa de uma derrapada feia da Apple, que publicou um anúncio cuja ilustração do iPod continha a seguinte frase:  “Feito especialmente para voçê”. O problema é que escreveram você, com cê-cedilha. 

De tudo isso se conclui que, se nos colégios e faculdades os erros de português resultam em notas baixas e eventualmente em reprovações nos exames, na publicidade os prejuízos podem ser muito maiores. Desde a perda de eleição até processos, de chacotas a queda de credibilidade, além de críticas nos jornais, sites e em outros meios de comunicação. 

Fica a pergunta: “herrar é umano” (como pichadores estampavam nos muros em São Paulo) ou será falta de aprendizado e de atenção? 




Acadêmico Julio Ernesto Bahr
Publicitário, escritor, blogueiro e designer gráfico

Reminiscências Pascoais

Nessa Páscoa, lembranças fugidias me perpassam na mente como brisas trazidas do passado. Ressurgem em cores esmaecidas a grande mesa posta para o almoço familiar, a tolha branca impecavelmente engomada, o círio pascal ao centro, os pequenos ovos de chocolate disposto em delicados arranjos perto de cada prato. Tudo aquilo formava um espetáculo ao mesmo tempo alegre e grandioso para adultos e crianças, que comemoravam o simbolismo da vitória da vida sobre a morte contido na ressurreição de Cristo.
Não é possível relembrar exatamente o que diziam os convidados, mas o burburinho festivo, o ressoar dos risos, as lembranças que se perdem em tons pastéis como num quadro antigo, sem dúvida foram responsáveis pela construção de um dos redutos mais importantes de minha infância.
Agora surgem na memória, como eco das tradições mineiras em que fui confeccionada a época do colégio Sion de Campanha passada no internato. Naquele interlúdio de minha vida tudo estava em seus lugares disciplinadamente. O futuro era sonhado no recreio enquanto se falava sobre o que cada uma de nós queria ser mais tarde: médica, advogada, bailarina, mãe de família com uma penca de filhos. Ninguém abria mão de se casar com um príncipe encantado e havia a crença generalizada de que podíamos controlar nosso destino.
Na Páscoa, quando a maioria das alunas passava o feriado em casa, eu que era de Belo Horizonte ficava quase só entre as imensidões daqueles corredores e salas vazias. Nem por isso era menos feliz do que as colegas que haviam partido. Ficava com minha grande caixa de ovos de chocolate que sempre chegava pontualmente, com as leituras piedosas que as freiras me indicavam e, especialmente, com minhas reflexões. Foi naqueles confins mineiros que uma semente de compreensão acabou por germinar num pensamento que me acompanhou pela vida afora: sou uma passageira da eternidade em busca de Luz.
Essas enevoadas recordações que emergem de meu remoto ontem misturam-se também às cores dos doces típicos da quaresma: doce de abóbora, doce de batata roxa, doce de cidra. Ecoam ao longe cânticos de procissões e retorna o espanto infantil diante da imagem de Jesus crucificado. Ao mesmo tempo, como era deliciosa a alegria da descoberta dos ovos de páscoa espalhados pelo jardim.
Comparando aqueles tempos com os de hoje posso concluir que sob os pores-do-sol de minha Belo Horizonte os contornos do viver eram mais bem definidos em tradições que hoje se perdem em feriados eminentemente comerciais. Mesmo assim, Pessach ou passagem (para os judeus) ressurreição ou Páscoa (para os cristãos), são comemorações que sempre deixarão subjacentes no coração do humano o desejo de superação do finito, a vontade de renascer de algum modo, a esperança de renovação. Feliz Páscoa para todos.



Acadêmica Maria Lucia Victor Barbosa  
Escritora

As uvas do tio Chiquinho


Escorreita na memória estão as lembranças que afagam e recobram o cheiro da infância. Tenho presente a imagem da minha avó que morava no sítio. Final do ano vinham os parentes de longe. Reuniam-se as filhas, os genros, os netos e as netas da vó Catarina. A casa enchia-se de gente e de alegria. Meu tio, Francisco – o Chiquinho –, sempre chegava acompanhado de algumas caixas de uvas, aquelas caixas de madeira. Todos se deliciavam.

Num daqueles finais de ano, tio Chiquinho, meu pai, vários primos e eu fomos ao sítio do japonês lá Colônia Novo Mundo. Akira, era um ousado empreendedor. Dizia ele, já nos anos 80, que, apesar do calor, era possível cultivar uvas de qualidade na nossa região. Chegando lá, para nossa surpresa, além de um lindo parreiral, cachos generosos e uvas doces, Akira convidou-nos para conhecer sua pequena vinícola. Sim, ele também acreditava na possibilidade de produzir bons vinhos. Abriu a porta de uma velha tulha e lá no fundo, temperatura amena e pouca luz, alguns tonéis convertendo o precioso líquido. Eduardo Galeano conta que um homem dos vinhedos do Uruguai, antes de morrer, sussurrou um segredo aos familiares: “A uva é feita de vinho”.
Passados alguns anos, tio Chiquinho assumiu a boleia de um caminhão e fez da estrada sua morada até a aposentadoria. Percorreu o Brasil, ultrapassou as fronteiras da distância. Quando retornava de suas viagens sempre trazia muitas estórias que ouvíamos atentos ao redor da mesa. Numa dessas odisseias, além das estórias, trouxe também algumas caixas de uvas uruguaias. Disse que havia sido presente de um “camionero”, a quem havia ajudado na estrada. Essas uvas, como as do Akira, ficaram para sempre na minha memória olfativa e afetiva.
Hoje, em sua chácara, tio Chiquinho não consome os dias no merecido descanso que a idade lhe confere. Ao contrário, admirável no cuidado e no cultivo, mantém um parreiral de uvas. Ele sempre soube cultivar uvas e, igualmente, as amizades colhidas no parreiral da vida. Nunca deixou de brindar a família e os amigos com uvas transformadas em vinhos e em boas conversas.
De fato, se as uvas são feitas de vinho, Galeano insiste em dizer que “talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é”. Creio que ele tenha razão. Somos o que carregamos e guardamos em nós, sobretudo os afetos armazenados nos esconderijos da memória e que partilhamos na forma de palavras. Somos como as uvas do tio Chiquinho transmutadas silenciosamente na pequena vinícola do Akira. Somos, ao mesmo tempo, vinho e uva. E depende de nós conferir sabor à vida.





Academico Clodomiro José Bannwart Júnior
Professor Associado do Departamento de Filosofia
Universidade Estadual de Londrina


Cartografia dos Afetos

Trabalho criativo do nosso Acadêmico Marco Antônio Fabiani, médico e escritor
(veja em tela grande)

O internetês e a vida real

BIJINS = BEIJINHOS
BJKAS = BEIJOCAS
BLZ = Beleza
CD, KD = Cadê?
Craro! = Claro!
CTAÍ? = Você está aí?
Eu lovo u = Eu amo você
Kirida = Querida
MIGUIM = AMIGUINHO
NAUM = Não
Pru6 = Para vocês
RULEZ = Maneiro, legal;
SifU que já mifU = Vai que eu já fui
T+ = Até mais, tchau
 Tôka módó... = Estou com muito dó...

Se vocês repararem bem, o internetês, a escrita usada pelas tribos da internet, já saiu do reduto delas (tribos) para se espalhar nas redes sociais, nas mensagens via WhatsApp e inundam comentários nos blogs e portais informativos. Mesmo que os portais ou blogs abordados nem adotem tal idioma.
A maioria dos “escrivinhadores” de internetês é jovem, se diverte com isso e nos faz lembrar da velha “língua do pê”, um código primário que a maioria dos pré-adolescentes utilizava entre si há algumas décadas.
O que preocupa são os dados da incultura linguística brasileira. Sabemos que cada vez mais os estudantes aprendem menos. Os vestibulares nos dão provas da incompetência dos jovens em redigir textos, pois são incapazes de utilizar corretamente o vernáculo.
Ora, se os jovens não conseguem nem aprender a língua portuguesa, revelando-se um fracasso completo na hora de buscar um emprego, naufragando nas entrevistas e nas exposições escritas, o que dizer então dessas tribos que usam o internetês?
A vida real globalizada requer muito mais do que a língua do pê ou o internetês. O mercado profissional não se limita a exigir um português razoavelmente bem escrito e bem falado, mas também ótimos conhecimentos de no mínimo mais um idioma, como inglês, francês, alemão, japonês e agora até chinês e russo.
Na vida real, o internetês não vale nem como primeiro, nem como segundo idioma.


Julio Ernesto Bahr
Publicitário, escritor, designer gráfico
e blogueiro

Fantasias

-Por favor, tem passagem para Sonholindo?
-Não senhor.
-Não tem mais passagem?
-Não, meu senhor. Não tem Sonholindo. Esse lugar não existe. Aqui tem passagem para Água da Mula, para São Pedro do Piquiri, Barrinhos, Redenção...
-Redenção!! Estou querendo passagem para Sonholindo e o senhor me oferece Redenção!!
-Não amigo, não estou oferecendo. Estou dizendo que existem passagens para esses lugares. O senhor compra se quiser. Agora, passagem para Sonholindo não tem.
-Não! Para outro lugar não quero. Eu quero mesmo é ir para Sonholindo. Falaram para mim que não fica longe.
-Mas o senhor sabe mais ou menos onde fica? Quem sabe o outro vendedor possa informar melhor.
-Bom... Sabe como é... as pessoas explicam e nem sempre a gente entende direito. Pelo que me falaram fica ao norte. Logo depois de Canaã a gente deve virar a direita. Assim que chegar em Passárgada, é seguir em frente. Está logo ali. Não parece longe, parece?
-Depende. Lugar que não existe não dá para dizer que é longe. Nem perto.
-Mas, sabe moço, eu não tenho preguiça nenhuma de procurar. Para dizer a verdade, eu estou tentando ir para lá desde sempre.
-Bom, eu já vi gente procurando passagem para cada lugar! Eu estou no ramo de vender passagens faz muito tempo. Mas esse lugar ninguém tinha procurado até hoje. 
-Pois deviam. Não sei por que esse lugar é tão desconhecido. Não era para ser. Só para o senhor saber, lá ninguém precisa trabalhar. Tudo é de graça. Caso você precise de uma casa, é só escolher. E tem mais, lá, pode acreditar, ouro não vale nada, nadinha. Sabe porque? Porque tem ouro brotando no chão. Eu mesmo conheci um que rastelava ouro no fundo do quintal e tentou vender. Ninguém comprou porque todo mundo tinha à vontade. Além disso...
- Mas, Ô meu amigo. Não adianta me contar essas histórias, porque não tenho passagem mesmo. Pode ser um lugar maravilhoso, mas não tenho como levar o senhor até lá.
-Mas, olha, agora assim olho no olho. Você não gostaria de ir até lá?
-Claro! Se de fato for como o senhor fala...
-E é!
-Mas eu duvido. Duvido e faço pouco. Lugar que ouro não vale e não precisa trabalhar... O senhor vai procurar passagem para lá o resto da vida.
-Pois eu digo mais para o senhor. Não só não precisa como é proibido trabalhar. O que você precisa ou sonha é só dar alguns passos e está lá o que se deseja. Para o calor, sombra e água fresquinha jorrando das quedas d’água. Muito frio? Casa aconchegante com lareira e tudo.
-Sei.
-Sonholindo tem o tamanho do seu desejo.
-Sei.
-E daí, vamos?
-Ah! Não posso. Tenho que vender passagens. O emprego não é lá essas coisas, mas garante o fim do mês, né? E se eu não achar esse tal de Sonholindo?
-E daí? Pelo menos a gente procura. Eu mesmo estou procurando faz uma vida e não paro por nada.
-E se não achar?
-O gosto está na procura, rapaz!
-Não é que eu não queira... Esse empreguinho aqui está bem chato... Mas eu nunca gostei de me arriscar, o senhor entende, né?
-Entendo, mas não concordo. O que você está ganhando aqui? Não tem risco, mas também não tem prêmio. Vou te perguntar pela última vez. O que você ganha ficando aqui?
 (Pausa)
-Zézinhooo, vê se assume esse guichê aqui que eu estou tendo de sair.
-!!!!!???!!!
-Como assim, não posso. Tanto posso que já estou de saída. Se alguém perguntar diz que vou procurar passagem para Sonholindo.
-!!!!!?????
-Fui!


Acadêmico Marco Antônio Fabiani
Médico e escritor
Dando continuidade à apresentação de trabalhos realizados por nossos Acadêmicos, veja abaixo a biografia de Assis Chateaubriand, escrita pelo Acadêmico Edilson Elias, aquarela criada pela Acadêmica Neusi Berbel, crônica do Acadêmico Julio Ernesto Bahr e pintura em acrílico da Acadêmica Saide Maruch.
Esta é uma contribuição cultural da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina para a comunidade londrinense e para os leitores deste site, enquanto não forem possíveis as realizações das reuniões presenciais como resultado do isolamento proposto para evitar o Corona Vírus.

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mago da comunicação brasileira


Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand ou Chatô (Umbuzeiro, 4 de outubro de 1892), foi um jornalista, empresário, político e destacou-se como um dos homens públicos mais influentes do Brasil nas décadas de 1940 e 1960. Foi também advogado, professor de direito, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.
Quem aqui não ouviu expressão em fazer nas coxas?
Na Bahia e região era comum moldar telhas de barro nas coxas, por facilitar o contorno e, consequentemente fazer a cobertura. Acredito que muitos dos presentes tenham conhecimento dessa frase. Mas, Assis Chateaubriand não tinha seu tempo ocioso de modo algum. Seus artigos eram contundentes quer enaltecendo o cliente ou destilando seu veneno, quando agredira suas vítimas, pois era detentor de uma pena ácida e convencia com o seu alto poder de persuasão, o fazia “nas coxas”, quer dizer no colo, no próprio avião quando viajava. Chateaubriand foi um magnata das comunicações no Brasil entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1960, dono dos Diários Associados, que foi o maior conglomerado de mídia da América Latina, que em seu auge contou com mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e agência telegráfica.  Também é conhecido como o co-criador e fundador, em 1947, do Museu de Arte de São Paulo (MASP), junto com Pietro Maria Bardi, e ainda como o responsável pela chegada da televisão ao Brasil, inaugurando em 1950 a primeira emissora de TV do país, a TV Tupi. Foi Senador da República entre 1952 e 1957.
A título de elucidação, com informação de nosso confrade Júlio Ernesto Bahr, em 1950, na sede dos Diários Associados à Rua Sete de Abril, iniciou a primeira transmissão de televisão da América Latina, a PRF3 TV Tupi, em preto e branco, precariamente, com aparelhos expostos no saguão do seu edifício. Foi também Chateaubriand o patrono, fundador da Escola de Propaganda de São Paulo (hoje a ESPM), cedendo um conjunto no mesmo prédio dos Diários. Bahr lembrou que pertenceu à turma de 1958 da Escola de Propaganda e, vez por outra cruzava com Chateaubriand, já numa cadeira de rodas.
 Chateaubriand era uma figura polêmica e controversa, odiado e temido, chegou a ser chamado de Cidadão Kane brasileiro, e acusado de falta de ética por chantagear empresas que não anunciavam em seus veículos e por insultar empresários com mentiras, como o industrial Francisco Matarazzo Jr. Seu império teria sido construído com base em interesses e compromissos políticos, incluindo uma proximidade tumultuada, porém rentável com o Presidente Getúlio Vargas.
Foi um dos primeiros a usar a vulgata maquiavélica para se referir à habilidade política de Vargas.
Carreira
Nasceu na Paraíba e formou-se pela Faculdade de Direito do Recife. A estreia no jornalismo aconteceu aos quinze anos, na Gazeta do Norte, escrevendo para o Jornal Pequeno e para o veterano Diário de Pernambuco. Apenas a título de informação, o Diário de Pernambuco é o mais antigo da América Latina, com a mesma linha editorial. Neste matutino, enfrentou uma situação inusitada: teve que dormir na redação do jornal, chegando a pegar em armas, para se defender da multidão que se empoleirava em frente do jornal em protesto contra a vitória do candidato Francisco de Assis Rosa e Silva (proprietário do diário). Em 1917, já no Rio de Janeiro, colaborou para o Correio da Manhã, em cujas páginas publicariam impressões da viagem à Europa que realizou em 1920.
Em 1924, assumiu a direção d’O Jornal – denominado “órgão líder dos Diários Associados” – e, no mesmo ano, consegue comprá-lo graças a recursos financeiros fornecidos por alguns “barões do café” liderados por Carlos Leôncio de Magalhães (Nhonhô Magalhães), e por Percival Farquhar, de quem Chateaubriand, alegadamente, teria recebido honorários advocatícios. Substituiu artigos monótonos por reportagens instigantes e deu certo. A partir de então, começou a constituir um império jornalístico, ao qual foi agregando importantes jornais, como o Diário de Pernambuco, o jornal diário mais antigo da América Latina, e o Jornal do Commercio, o mais antigo do Rio de Janeiro. No ano seguinte, Chatô arrebatou o Diário da Noite, de São Paulo. À altura, já possuía os jornais líderes de mercado das principais capitais brasileiras.
A ascensão do império jornalístico de Assis Chateaubriand deve ser entendida no quadro das transformações políticas do Brasil durante as décadas de 1920 e 1930, quando o consenso político oligárquico e fechado da República Velha, centrado em torno da elite agrária de São Paulo, começou a ser contestado por elites burguesas emergentes da periferia do país; não é uma coincidência que Chateaubriand tenha apoiado o movimento revolucionário de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, assim como, durante toda sua vida, tenha ‘fanfarroneado’ a condição de provinciano que chegou ao centro do poder como uma espécie de bucaneiro político. A ética quase nunca constava da estratégia empresarial: chantageava as empresas que não anunciassem em seus veículos, publicava poesias dos maiores anunciantes nos diários e mentia descaradamente para agredir os inimigos. Farto de ver o nome na lista de insultos, o industrial Francisco Matarazzo ameaçou “resolver a questão à moda napolitana: pé no peito e navalha na garganta”. Chateaubriand devolveu: “Responderei com métodos paraibanos, usando a peixeira para cortar mais embaixo”. Foi também inimigo declarado de Rui Barbosa e de Rubem Braga. Apesar disso, Chatô teve relações cordiais (e sempre movidas a interesses econômicos) com muitas pessoas influentes: Francisco Matarazzo, Rodrigues Alves, Alexander Mackenzie (presidente do poderoso truste canadense de utilidades públicas São Paulo Tramway, Light and Power Company), o empresário americano Percival Farquhar (Farcuer) e Getúlio Vargas.
Durante o Estado Novo, consegue de Getúlio Vargas a promulgação de um decreto que lhe dá direito à guarda de uma filha, após a separação da mulher. Nesse episódio, profere uma frase célebre: “Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei”. Em 1952, é eleito senador pela Paraíba e, em 1955, pelo Maranhão, em duas eleições escandalosamente fraudulentas.
Caracterizou-se, muito embora fosse um representante típico da burguesia nacional emergente da época, pelas posturas pró-capital estrangeiro e pró-imperialismo, primeiro o britânico, depois o americano: além de muito ligado aos interesses da City londrina (a escandalosa embaixada na Inglaterra, na década de 1950, foi a realização de um velho sonho pessoal), conta a anedota que ele teria uma vez dito que o Brasil, perante os EUA, estava na condição de uma “mulata sestrosa” que tinha de aceder às vontades dos seu gigolô. Era temido pelas campanhas jornalísticas que movia, como a em defesa do capital estrangeiro e contra a criação da Petrobrás.
Publicou mais de 11870 artigos assinados nos jornais, dando oportunidades a escritores e artistas desconhecidos que depois virariam grandes nomes da literatura, do jornalismo e da pintura, como: Graça Aranha, Millôr Fernandes, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Cândido Portinari e outros.
Presidiu, entre 1941 e 1943, a Federação Nacional da Imprensa (FENAI - FAIBRA).
Com o tempo, Chateaubriand foi dando menos importância aos jornais e focando em novas empreitadas, como o rádio e a televisão.
Com o suicídio de Getúlio Vargas, assume a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras.
Em fevereiro de 1960 Assis Chateaubriand foi acometido de uma trombose. Morreu em 4 de abril de 1968, em São Paulo, depois da pertinaz doença, a que ele resistiu por longos anos, continuando, mesmo paraplégico e impossibilitado de falar, a escrever seus artigos. Foi velado ao lado de duas pinturas dos grandes mestres: um cardeal de Ticiano e um nu de Renoir, simbolizando, segundo seu protegido, o arquiteto italiano e organizador do acervo do MASP Pietro Maria Bardi, as três coisas que mais amou na vida: O poder, a arte e a mulher pelada. Seu cortejo fúnebre reuniu mais de 60 mil pessoas pelas ruas de São Paulo. Está sepultado no Cemitério do Araçá. Mais detalhes serão mencionados quando do convite para mencionar a respeito do Mago da Comunicação do Brasil em reunião na nossa Academia de Letras de Londrina.




Acadêmico Edilson Elias
Jornalista e Historiador

Imagem em Aquarela Hiperrrealista

Um anfíbio verde nas dobras de uma folha verde

Sobre a técnica utilizada:
A técnica da aquarela constitui uma mistura de pigmento e água sobre o papel.
Na pintura hiperrealista, utiliza-se a fotografia como referência.
O hiperrealismo busca a captação da realidade em seus detalhes, a partir de modelos em movimento ou estáticos. 


Acadêmica Neusi Berbel
Professora e artista plástica

Lá da minha janela


Lá da minha janela...

Eu avistava a torre de microondas instalada na Av. Madre Leônia.
Eu avistava o céu azul e as nuvens formando as mesmas figuras que povoavam meus sonhos de infância.
Eu avistava as revoadas barulhentas de passarinhos no comecinho da manhã e ao pôr do sol.
Eu avistava os descampados verde-claros e as árvores que os pintavam de verde escuro.
Eu avistava os morros e montanhas que delimitavam o infinito.
De repente, assim do nada, quase de frente para a janela começaram a erguer duas torres de mais de vinte andares.
Logo depois, o ruído de máquinas denunciava a preparação de mais um terreno pronto para receber outros dois espigões.
E mais um. E outro. E outro mais.
Simultaneamente, surgiram irritantes ruídos de marteladas, guindastes, caminhões, máquinas, roldanas, carga e descarga.
Agora, da vista pela janela, só restarão lembranças. Estou cercado de torres, espigões e gente por todos os lados.
As construtoras chamam isso de progresso.
A Prefeitura chama isso de aumento de arrecadação.
Os jornais chamam isso de valorização da região.
Os publicitários chamam isso de oportunidade para faturamento.
O Estado chama isso de redução do desemprego.
A União chama isso de aumento de moradias.
Eu mesmo ainda não sei como chamar.



Julio Ernesto Bahr
Crônica apresentada em 2012 na
Academia de Letras de Londrina, 
quando se iniciou o "boom" 
de construções na região 
da Gleba Palhano, Londrina

Pintura da Acadêmica Saide Maruch

"Carnaval em Veneza"
Pintura em acrílico
Tela de 1,00 X 0,80 m

Acadêmica Saide Maruch é artista plástica e leciona artes há mais de 50 anos em seu ateliê. Elaborou capas de livros e participou de exposições, inclusive internacionais. Recebeu várias premiações.

Para a pintura acima, a falecida Acadêmica Maria Aparecida Frigeri criou a seguinte poesia:

CARNAVAL...

Período de festas profanas,
onde as máscaras, silenciosas e ricas,
são lições perenes...
Elas propiciam a felicidade
e o dom de se acercar de alguém,
sem a face da Verdade...

A linguagem das máscaras,
muitas vezes incógnita,
é sempre capaz, na sua
quase total imobilidade,
de interpor-se com os anseios
e projetos internos do Ser...

O mascarado guarda segredos
e transpõe os limites da sua racionalidade.
Máscaras!
Silenciam a personalidade
dando vazão à fantasia
silenciosa, forte e sem medos!...

As máscaras escondem sábios mistérios
do Ser e cuidam de fantasiar
a personificação da beleza,
ou do terror egoificado.

No famoso Carnaval de Veneza
as máscaras falam
de Zeus, o reino do Espírito,
Planetas e Galáxias, 
e, ainda, pelo do Livro do Homem,
dos desígnios do Ser.

Cultura em nosso site

A Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina, cujas atividades presenciais estão suspensas devido ao surto do novo Corona Vírus, inicia aqui a publicação de obras dos nossos Acadêmicos (poesias, crônicas, contos, artigos, produção jurídica, filosófica e científica, além de reproduções de obras artísticas), cumprindo nosso propósito maior, isto é, divulgar cultura.
Esperamos que possamos contribuir cada vez mais com a comunidade londrinense, com o Paraná e com todos aqueles que se interessam por cultura. 
A primeira publicação não poderia deixar de ser especial: um artigo homenageando as mulheres no seu Mês Internacional, preparado por Ludmila Kloczak e Clodomiro Bannwart Jr, respectivamente Presidente e Vice Presidente das Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina - artigo que foi também publicado na Folha de Londrina em 23/03/2020.


Março, mês internacional da Mulheres

“São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração”. Com as palavras de Tom Jobim, recordamos que março, além de encerrar o verão, é também o mês dedicado às mulheres, período para comemorar as conquistas que alcançaram, sobretudo em matéria de direitos, diante de uma realidade quase sempre desfavorável a elas. O momento é igualmente oportuno para refletir as alarmantes estatísticas de agressões e de violências que pesam contra as mulheres, nossas mães, avós, esposas e filhas. 
Há pessoas que fazem do respeito uma relação harmoniosa para com os outros; há, no entanto, aquelas que sequer sabem o significado de uma convivência saudável. Alguns afirmam que nós, homens e mulheres, somos iguais. Não somos. Ainda bem! Seria um tédio! Somos diferentes! E essa diferença intriga-nos mutuamente. Obriga-nos a conviver com aquilo que há de estranho no outro. Somos, sim, um estranho ao outro. Uma possível aproximação advém da tentativa de homogeneizar o outro, reduzindo-o à nossa semelhança. Tarefa impossível de realizar. E tudo aquilo que perturba ou incomoda, quase sempre há o desejo de submeter ou eliminar. Para o homem é mais fácil usar da violência física para atingir este intento. Esse é um ponto desfavorável a mulher, muitas vezes, amedrontada na sua fragilidade física. A cada episódio de violência contra as mulheres, sempre primitivo e selvagem, deparamos com a renúncia de nossa dignidade humana.
Uma maneira de avaliar o grau de desenvolvimento civilizatório de uma nação ou de uma cultura é considerar o modo como as mulheres e as crianças são tratadas. Um retrato triste, porém, foi obtido no nosso quintal. Londrina ocupou recentemente o noticiário ao estampar o ranking de ser uma das cidades mais violentas do Estado no quesito agressão à mulher. Nos dois primeiros meses de 2020 foram registrados a abertura de mais de 450 inquéritos e de 120 pedidos de medidas protetivas na Delegacia da Mulher de nossa cidade. No mês internacional da mulher, infelizmente, temos pouco a comemorar.
Se a dimensão agressiva é um recurso que está em nós e é necessária para a nossa sobrevivência, não podemos desconsiderar que a consciência e o conhecimento deste poder, tanto do seu potencial destrutivo quanto das suas infinitas possibilidades construtivas, é um trabalho permanente e uma conquista diária. Ao modular a força que nos move para a conquista do nosso lugar no mundo, devemos criar condições para o surgimento de relações humanas que reafirmem a dignidade que deve reger a nossa convivência. A contenção de nossa agressividade deve permitir o convívio tolerante, pacífico e, sobretudo, de respeito ao outro.
Não podemos deixar de dar atenção ao universo feminino que nos cerca. Não devemos nos curvar diante da estupidez conscienciosa e despótica que agride as mulheres, psicológica e fisicamente. Esmagamos nossa humanidade todas as vezes que uma mulher é ferida, machucada, humilhada, maltratada e marginalizada. Sempre precisamos nos perguntar o que acontece com os homens que se desumanizam ao coisificar a mulher?  
Mais do que palavras, precisamos firmar posições, com ações e atitudes, que alberguem as mulheres no espaço comum do respeito, do reconhecimento e, acima de tudo, daquele sentimento benfazejo que iguala a todos nós – homens e mulheres – na mesma frequência: o amor. O amor, esse aconchego percebido na alma, é o lócus em que a admiração pelo outro transmuta-se em afeto e eleva a todos nós em estatura, grandeza e dignidade. 
É preciso buscar, todos os dias, a realização plena dos propósitos que marcam a celebração do mês internacional das mulheres. Que a promessa de ter vida no coração, expressa na canção de Tom Jobim, torne-se realidade na vida de todas as mulheres.


Ludmila Kloczak e Clodomiro Bannwart, Presidente e Vice-Presidente da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina