Haicai da poça d'água


José Marins*


Em reunião semanal de leitura de livros de haicai lemos 33 autores. Percebemos várias vezes a repetição do haicai da poça d'água. Alguns se mostraram interessantes, outros caíram no lugar comum. Haveria algum haicai que teria começado esse tipo de registro?


Afrânio Peixoto, pioneiro do haicai brasileiro, publicou em 1931:

Na poça de lama
Como no divino céu,
Também passa a lua.  

O poema não chamou a atenção o suficiente para ser imitado em publicações posteriores.

É provável que tenha sido um haicai de Millôr Fernandes que estimulou a realização de haicais da poça d'água, com ou sem lua e outros reflexos:

Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.

Este haicai saiu em 1968 no livro do Millôr, Hai-Kais, pela editora Senzala. E se manteve nas edições posteriores (Nórdica, 1986 e L&PM 1997). Com certeza a notoriedade e a constância dos poemas, textos e desenhos do autor ao longo dos anos em O Cruzeiro, Veja e livros, ajudaram a fazer a fama do haicai da poça d'água.

Recebi outro dia da poeta Rose Mendes a foto de uma poça de chuva na qual aparece pousado um pássaro com a sombra refletida. A configuração é, por si só, uma ótima imagem de haicai. Rose tentou fazê-lo mas desistiu. Ela fez outro anteriormente, com inovação e graça, publicado no seu livro Nas Ondas do Haicai:

Depois do aguaceiro
brincam os passarinhos
na poça d’água

Resolvi convidar alguns poetas de haicai para a brincadeira: tomar a foto como referência e realizarem o poema. Comento a seguir algumas colaborações que gentilmente me foram
enviadas, e que, penso, têm um foco na cena retratada naquela foto: 

A. A. de Assis:

Pássaro na poça.
Nem só de canto ele vive,
mas também de insetos.

– A sugestão do poema é a de que o pássaro só está na poça em razão de caçar para sobreviver. Portanto, nada de reflexos, mas a luta do dia a dia.

Carlos Bueno:

a poça d’água
reflete o pássaro, sua
única companhia

– Aqui temos uma inusitada imagem para o reflexo na poça: a solidão do pássaro.

Edu Hoffman:

pássaro na poça
faz lembrar minha infância
meu olhar adoça

– Um haicai guilhermino no qual pássaro e poça remetem à lembrança, mas sobretudo a um momento de ternura.

José Marins:

da chuva a poça – 
do pássaro o pouso
para uma foto

– Um haicai livre que brinca com os verbos pousar e posar.

Suzana Lyra Strapasson:

A terra molhada
Sustenta na poça o
Pássaro cantante.

– Outro haicai ligado a canto e sustento. A sugestão faz uma delicada ligação entre poça e canto, beleza e humildade.

Teresa Cristina Cerqueira:

A água da poça –
Sabe-se feliz o pássaro
Que vive na roça

– Se vive na roça, basta uma poça para ser feliz? Talvez o pássaro é que sabe.

Van Zimerman:

tarde fria – 
nas cores da poça d'água
o pássaro

– Um haicai livre com uma bela sugestão: ao invés do reflexo são as cores que trazem o pássaro.

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Curitiba, outono de 2017

Fernandes, Millôr. Hai-Kais. Rio de Janeiro: Senzala, 1968.
Mendes, Rose. Nas ondas do haicai. Jundiaí: In House, 2014.
Peixoto, Afrânio. Miçangas. São Paulo: Editora Nacional, 1931.


* José Marins é poeta. 
Publicou, entre outros livros, as coletâneas de 
haicais Poezen (1985) e Pinhapinhão, 
pinhão-pinheiro (2004) e os minicontos de 
A brisa é você (2010). 
Vive em Curitiba (PR).

A Metologia da Problematização

A Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina apresenta vídeo da Acadêmica Neusi Berbel, como uma contribuição ao mestres do ensino:


(Clique no quadro para iniciar)

Rememorando os tempos da censura

Matéria censurada no jornal O Estado de São Paulo substituída por versos de Camões 

“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. 
Como não sou judeu, não me incomodei. 
No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. 
Como não sou comunista, não me incomodei. 
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. 
Como não sou católico, não me incomodei. 
No quarto dia, vieram e me levaram; 
já não havia mais ninguém para reclamar...”

Por Martin Niemöller, pastor luterano que recebeu o
Prêmio Lênin da Paz em 1966

A censura brasileira foi bastante atuante nos tempos do regime militar e nem todos os brasileiros se deram conta do alcance de tal aberração. Nos jornais O Estado de São Paulo e seu filhote Jornal da Tarde quase diariamente matérias eram cortadas pelos censores, substituídas por versos de Camões e receitas culinárias exatamente nos espaços censurados. A censura agiu com mão forte também no reacionário jornal Pasquim, no teatro, no cinema, na música, em outros jornais e revistas brasileiros. 
O Pasquim sofreu intensamente com a censura: seus jornalistas, escritores e colaboradores chegaram a ser presos, mas como não se intimidaram, as autoridades da época ameaçaram os donos de bancas de jornais: se continuassem com a distribuição do Pasquim, as bancas seriam destruídas. Foi o fim do jornal. 
Os artistas provavelmente foram os que mais sentiram na carne a mão forte da censura: peças de teatro e letras de músicas eram sistematicamente vetadas por “infringirem” a linha limítrofe entre entretenimento e eventuais mensagens políticas inseridas em seus contextos. A criatividade foi inteiramente cerceada. 
Naquela época, a publicidade também foi muito visada: todos os materiais que nós, publicitários, enviávamos para publicações no Exterior, passavam obrigatoriamente pela Polícia Federal. Em 1973 eu estive pessoalmente frente a censores em escritório da PF, à Rua Xavier de Toledo São Paulo, para liberar anúncios desenvolvidos pela minha agência de propaganda. Os anúncios foram criados para um cliente, se destinavam a publicações na Holanda e Bélgica por ocasião da primeira Feira Brazil-Export no Exterior, em Bruxelas, e foram meticulosamente examinados pelos censores antes da aprovação. O pacote para a remessa era lacrado, autenticado e só então poderia ser enviado ao Exterior.
Aqueles que minimamente tomaram conhecimento dos horrores provocados pelo nazismo, certamente já assistiram ou leram sobre a técnica nazista que consistia em promover pessoas de baixo nível social e intelectual para postos importantes nas tropas das famigeradas “SS”, que eram as “Tropas de Proteção” ligadas ao partido nazista e comandadas por Himmler. Assim, o ex-carteiro, o ex-alfaiate, o ex-açougueiro e até o ex-inútil da aldeia, subitamente se viam uniformizados e guindados à posição de carrascos daqueles judeus, ciganos, padres, pederastas, negros e outros grupos étnicos minoritários aos quais até então serviam. Aproveitavam a oportunidade para destilar suas frustrações, seu sadismo, sua raiva e sua incompetência infligindo-lhes torturas, castigos e até a morte.
Pois a censura não difere muito destes métodos. Ou seria possível alguém acreditar que na época do regime militar no Brasil os censores fossem professores-doutores, mestres em literatura ou pessoas dotadas de um grau mínimo de intelectualidade para censurar com olhar profissional e competente os materiais a eles apresentados? Espalhados por todas as cidades brasileiras? Os diálogos foram ásperos, primitivos e ai de quem ousasse tecer qualquer comentário a respeito: a “otoridade” se faria valer!
Censura caminha sempre de braços dados com o autoritarismo. Uma não pode viver sem o outro. E a História está recheada de exemplos. Pena que sejam esquecidos.
(Acadêmico Julio Ernesto Bahr)

Mais uma obra de Neusi Berbel

Brincos de Princesa.  Um pouco de cor para nossos olhos!





Acadêmica Neusi Berbel
Professora, artista plástica

Orgulho de ser imigrante

Navegando o vasto oceano,
via ao longe se afastando
as imagens derradeiras
de minha Terra Natal...

Algumas liras nas algibeiras...
Braços fortes, determinação!
Vibrando n’alma o grande ideal
de prosperar nesta Nação.

Tão comovente fora nossa partida...
Tangendo no peito saudade dorida!
Eis que aporto, enfim, em terras brasileiras,
paraíso de pássaros, palmeiras!

Aqui, aos poucos fui fincando raízes,
tão profundas, que não guardo cicatrizes
de algum descaso dos primeiros anos,
quando nos chamavam de carcamanos...

Quantos segredos escondidos nas terras
lavradas com enxadas forjadas na fé!
Viçosas lavouras contornando as serras
com imensos rosários de pés de café.

As cerejas maduras, no véu da saudade,
traziam-me lembranças da feliz mocidade
na Itália distante, de alegres tarantelas...
As ragazze dançando, tão jovens, tão belas!
Brasil!... Berço que me embalou com carinho!
Solo abençoado, que me deu um lar, um ninho,
onde criei os filhos, me vi envelhecer...
E onde, em meu sono infinito irei adormecer!

De sol a sol, ombro a ombro, lutamos.
Persistentes um espaço conquistamos.
Somos exemplos de audazes imigrantes,
com a garra e a coragem dos bandeirantes.

O sangue italiano pulsa na indústria,
lavoura, comércio, no cafezal.
Na voz dos padres em sagrada messe.
Na herança ancestral de piedosa prece!

Nessa labuta por um ideal,
nossa presença ficou na comida:
- No risoto, polenta, pizza, vinho...
Na lida do gado, no parreiral.

Vejam as roças, videiras mil!
Mesas fartas, macarronadas...
Gerações bonitas mescladas
com traços de Itália e Brasil!

O medo de desventura ou engano
perdeu-se no passado distante,
pois, no peito de cada italiano
palpita o orgulho de ser Imigrante!



Acadêmica Leonilda Yvonneti Spina
Advogada, escritora, poetisa, trovadora, declamadora

Dia dos Namorados


Véspera da Festa Litúrgica em comemoração a Santo Antônio de Lisboa.


(Fernão de Bulhões, que tomou à religião o nome de Antônio, nasceu numa casa junto da Sé Patriarcal de Lisboa; cresceu, estudou, viveu e entregou-se a Deus em Portugal e levou o seu saber e santidade à Itália e à França.) 

História de sua escolha como Patrono dos Namorados:

Pelos anos de 1450, viviam em Nápoles uma viúva e sua filha única, de rara beleza, virtude e espiritualidade. Originárias de família nobre, caíram na pobreza. A mãe, pensando que é a riqueza que dá aceitação social, e não tendo meios para dotar a filha de modo a permitir-lhe um casamento condigno, insistia em que a filha, usando de sua beleza, se prostituísse aos numerosos pretendentes que a assediavam. Ciosa da sua castidade, e fervorosa devota de Santo Antônio, dirigiu-se à igreja e prostrada diante da imagem do Santo, dolorosamente lhe pediu que lhe valesse. A imagem do Santo curvou-se; em sua mão trazia um papel em que estava escrito: “Dê a esta donzela, portadora deste papel, o peso do mesmo em moedas para constituir seu dote matrimonial”. E à moça, que estava de joelhos a seus pés, disse: “Vai à casa do mercador chamado... e da minha parte entrega-lhe este papel”. A menina obedeceu. Ao ler o escrito, o mercador deu uma risada trocista e mandou vir uma balança; num dos pratos colocou o papel e no outro, uma pequena moeda de mínimo valor. Mas a balança não se moveu. Então acrescentou mais uma outra moeda; e a balança continuou imóvel. E foi colocando moedas e mais moedas até que, atingindo 400 moedas de prata, a balança se equilibrou. Lembrou-se então o mercador que tempos passados prometera doar 400 moedas de prata a Santo Antônio, se conseguisse realizar um negócio em que ganhou muito mais. Esquecera-se da promessa e nunca a cumprira. Santo Antônio veio então pedir-lhe o seu cumprimento. A donzela conseguiu o seu dote e pôde casar honestamente segundo as leis da Santa Madre Igreja. 

Este é um fato. E por que é festejada à véspera? Nos tempos antigos, em que não havia as facilidades que existem nos dias de hoje, as peregrinações aos lugares sagrados eram feitas a pé, ou quando muito, em carroças puxadas a cavalos ou carros de bois. A viagem demorava dias e era calculada de modo a chegar, ao local da festa, na véspera de sua realização. Nessa noite, então, ao redor de uma fogueira, se fazia uma outra festa popular: o arraial. Com comida, bebidas, cantos e danças se trocavam os tradicionais vasinhos com manjericos, com cravo de papel espetado e, em cima, uma quadra. (Manjerico, meu manjericão; Amor da minh’alma, dá-me a tua mão.) Alcachofras se queimavam e se plantavam na terra. Se, no dia seguinte estivesse florido, em breve seria encontrado um marido. (Uma esperança para as solteironas.) E se o Santo não atendesse ao pedido, então a sua imagem era pendurada de cabeça para baixo, no poço do quintal até que atendesse os desejos.

Bons tempos! Em que a religiosidade, a ingenuidade, e a fé andavam de mãos dadas. Disse o Senhor: “Se não vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus”.





Acadêmico José Ruivo da Silva   
Médico

Internet, e-mails e a língua portuguesa

Na introdução do meu livro “Encontro na barca e outras histórias de bahr” incluí alguns dados publicados na Revista Veja daquele ano (2005) reportando que 91% dos alunos da rede pública que terminavam o ensino fundamental simplesmente não conseguiam compreender os textos que liam.
As pesquisas atuais sugerem que nada mudou nestes quinze anos. Talvez tenha até piorado. Temo que não sejam apenas os alunos do ensino fundamental que tenham essa dificuldade. Quando leio alguns textos de estudantes universitários e até de profissionais formados respondendo e comentando artigos publicados nos blogs, portais de notícias e jornais, fico estupefato com as conclusões absurdas que emitem, geralmente fora do contexto principal do tema... sem contar o português pessimamente escrito. São pessoas que aparentam não entender nada de sátira, duplo sentido, escárnio, paródia ou de interpretações pessoais nos textos. São apenas leitores, no sentido literal.
Essa incompreensão tem origem na falta de leitura e nas deficiências do ensino. É por isso que aparecem tantos erros de escrita em e-mails, cartas, opiniões dos leitores, artigos de jornais e portais, comentários nas redes sociais e nos textos dos próprios jornalistas. Concordância, palavras e frases erradas, além de tempos de verbos mal utilizados, surgem com uma frequência assustadora. 
A informalidade na escrita não deveria ser confundida com a liberalidade de se utilizar um linguajar chulo, ofensivo e pleno de erros, como muitos fazem. 
Vários professores universitários com quem conversei já ficaram rubros de raiva em alguma ocasião ao revisarem provas e dissertações dos seus alunos, pois raros são os que conseguem escrever bem. 
A língua é o maior tesouro de uma nação. É a língua bem escrita e bem falada que abre as oportunidades de emprego, convivência, sucesso e realizações das pessoas. 
Espero que não seja a minha intolerância causada pela idade que me impeça de enxergar, talvez, o futuro da comunicação entre as pessoas. Estarei eventualmente ignorando que essa linguagem misturada a hieróglifos, símbolos, sinais, erros e palavrões seja a nova linguagem internacional, o substituto do Esperanto, idioma criado em 1887 pelo filólogo polonês Ludovic Lazarus Zamenhof e que deveria unir todos os povos do mundo? 
Para ilustrar como a ignorância se espalha, seguem algumas frases estapafúrdias escritas por especialistas forenses, que recebi de um amigo por e-mail:

- Laudo descritivo de um perito judicial:
"um barracão com pé direito de 5 metros e pé esquerdo de 4 metros"

- Frase de um termo de encerramento de laudo judicial de processo na Vara Cível do Fórum João Mendes em São Paulo:
"Os anexos seguem em separado". 

- Relatório de um perito do Banco do Brasil:
"Visitamos um açude nos fundos da fazenda e depois de longos e demorados estudos constatamos que o mesmo estava vazio"  

- Avaliação feita por um oficial de justiça:
“Incluir na penhora um crucifixo, em madeira, estilo country - colonial, marca INRI, sem número de série" 

Acadêmico Julio Ernesto Bahr

Nosso site: seis anos de informações


Após o falecimento do nosso fundador, Dr. João Soares Caldas, a Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina viu-se subitamente sem rumo. Afinal, Dr. Caldas esteve na presidência por longos 35 anos, alcançando enormes feitos e realizações culturais na cidade.

O que fazer?

O Prof. Leonardo Prota - que havia sido empossado poucas semanas antes como Vice-Presidente - assumiu o leme, conseguindo montar uma equipe participativa e bastante preocupada em dar prosseguimento à obra do fundador.

Nesta oportunidade, a Academia deu um salto para o Século XXI no que se refere a técnicas de comunicação e de ferramentas ainda não exploradas. Os convites para as reuniões, até então entregues por Correio, passaram a ser enviados via e-mails. Vários novos meios de comunicação vêm sendo utilizados, como as redes sociais, whatsapp, entrevistas a jornais e rádio, além da aproximação com o legislativo, que concedeu à Academia a Medalha Ouro Verde em 2014.

Todas as reuniões mensais, eleições de diretoria e participações da Academia em eventos próprios ou de terceiros, vêm sendo registradas neste site, que agora em junho completa seis anos prestando informações culturais à comunidade londrinense, ao Paraná, ao Brasil e a interessados em vários países, que acompanham estas realizações.

É a Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina divulgando cultura !

Nossas reuniões continuam suspensas

Comunicamos que, em vista da continuidade da pandemia, nossas reuniões presenciais da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina permanecem suspensas.
Em consequência, não haverá a reunião do segundo domingo deste mês de maio, que ocorreria no dia 10.
Assim que a situação estiver normalizada, será emitido novo comunicado.

A Diretoria


Papagaio-da-cara roxa


Aquarela de 2003 - um dos primeiros pássaros 
pintados pela artista.
De qualquer lado que se olhe, parece que está 
sempre olhando para você.



Acadêmica Neusi Berbel
Professora e artista plástica

Perigo: os erros de português na publicidade


(Texto apresentado na Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina em 2010)

Como em qualquer atividade intelectual, o pessoal que cria textos publicitários corre o sério risco de cometer erros – seja na escrita, seja na revisão. 
O problema é que os erros em textos publicitários, principalmente quando impressos, chamam tanto a atenção que acabam sofrendo críticas, chacotas e até processos. 
Como, por exemplo, uma empresa de Listas Telefônicas, que foi condenada a restituir alguns milhares de reais pagos por um colégio, acrescido de multa contratual de 10%, correção monetária e juros moratórios à taxa de 1% ao mês. A empresa sofreu o processo devido à publicação de um anúncio com erro de português. A palavra ensino foi escrita como "insino" no anúncio publicado na lista. Segundo o colégio, o erro foi ainda mais danoso por se tratar de anúncio de instituição cujo produto oferecido era exatamente a educação. 
Para o colégio, o erro colocou em questão a qualidade dos seus serviços e desde a publicação do anúncio recebeu inúmeros telefonemas desabonadores da sua credibilidade. 

No horário eleitoral gratuito em agosto de 2008, enquanto candidatos a vereador em Goiânia apregoavam suas “virtudes”, um doutor em letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp) teve a paciência de ficar caçando erros de português – e os encontrou em nada menos do que 93% das legendas. A maioria dos erros era de pontuação. Porém alguns deles eram verdadeiros atentados à gramática, segundo o especialista. Resta a dúvida: qual foi o percentual de perda de votos desses candidatos por causa dos erros? Isso se o horário eleitoral contou mesmo alguma audiência...

Um filme publicitário do Tribunal Superior Eleitoral em fevereiro de 2008, que fazia parte da campanha "Heróis pela Democracia", trazia o seguinte texto: "Heróis existem. Não desperdice o direito que eles tanto lutaram e conquistaram para você. Vote”. 
Segundo um professor coordenador de redação e interpretação de texto de cursinho no Rio de Janeiro, a frase continha um "erro grave de regência". "Quem luta, luta por alguma coisa. É estranho que uma comunicação oficial do governo tenha um erro desses". De acordo com o professor, uma opção correta seria dizer: "Não desperdice o direito pelo qual eles tanto lutaram e que conquistaram para você".

Agora, uma outra história que foi bastante divulgada. Uma quadrilha que pretendia invadir um condomínio de luxo em São Paulo, se fazendo passar por entregadores de cestas de natal, foi presa por conta de um erro de português.
"Do ponto de vista operacional, eles são muito bons. Mas, do ponto de vista gramatical, são péssimos", disse o delegado titular que os capturou. A ação dos criminosos estava sendo monitorada pela polícia, que ficou surpresa ao ler "impório" em vez de "empório" no veículo que continha as cestas e vinhos a serem entregues em um apartamento. O alvo seria o cofre desse apartamento. A sucessão de trapalhadas foi além. A mesma palavra escrita erroneamente foi bordada em duas camisas que eles usavam para tentar enganar os porteiros. "Ninguém em sã consciência vai manter exposta uma propaganda com um erro tão grosseiro", afirmou o delegado. 

Em Criciúma, as autoridades decidiram começar a multar as agências de propaganda pelos erros gramaticais ou ortográficos nos anúncios publicitários espalhados pelas ruas. Os inúmeros anúncios com erros de português indignaram de tal forma as autoridades da cidade, que estes decidiram aplicar multas de 500 dólares às agências publicitárias responsáveis pelos cartazes. A lei foi aprovada pela Câmara local, e permitia a qualquer cidadão denunciar os erros à autarquia. Caso a empresa responsável não corrigisse os erros, incorreria na multa.

A Universidade Católica de Pelotas atravessou um período difícil por ocasião do Dia das Mães, já que ninguém da agência de propaganda, da reitoria ou da assessoria de comunicação foi capaz de perceber dois erros grosseiros de português num texto impresso de nove palavras. O texto dizia:
“Mãe que ama,
Que proteje,
Que educa,
Simplismente mãe.
Universidade Católica de Pelotas

Distração também deve ter sido a causa de uma derrapada feia da Apple, que publicou um anúncio cuja ilustração do iPod continha a seguinte frase:  “Feito especialmente para voçê”. O problema é que escreveram você, com cê-cedilha. 

De tudo isso se conclui que, se nos colégios e faculdades os erros de português resultam em notas baixas e eventualmente em reprovações nos exames, na publicidade os prejuízos podem ser muito maiores. Desde a perda de eleição até processos, de chacotas a queda de credibilidade, além de críticas nos jornais, sites e em outros meios de comunicação. 

Fica a pergunta: “herrar é umano” (como pichadores estampavam nos muros em São Paulo) ou será falta de aprendizado e de atenção? 




Acadêmico Julio Ernesto Bahr
Publicitário, escritor, blogueiro e designer gráfico

Reminiscências Pascoais

Nessa Páscoa, lembranças fugidias me perpassam na mente como brisas trazidas do passado. Ressurgem em cores esmaecidas a grande mesa posta para o almoço familiar, a tolha branca impecavelmente engomada, o círio pascal ao centro, os pequenos ovos de chocolate disposto em delicados arranjos perto de cada prato. Tudo aquilo formava um espetáculo ao mesmo tempo alegre e grandioso para adultos e crianças, que comemoravam o simbolismo da vitória da vida sobre a morte contido na ressurreição de Cristo.
Não é possível relembrar exatamente o que diziam os convidados, mas o burburinho festivo, o ressoar dos risos, as lembranças que se perdem em tons pastéis como num quadro antigo, sem dúvida foram responsáveis pela construção de um dos redutos mais importantes de minha infância.
Agora surgem na memória, como eco das tradições mineiras em que fui confeccionada a época do colégio Sion de Campanha passada no internato. Naquele interlúdio de minha vida tudo estava em seus lugares disciplinadamente. O futuro era sonhado no recreio enquanto se falava sobre o que cada uma de nós queria ser mais tarde: médica, advogada, bailarina, mãe de família com uma penca de filhos. Ninguém abria mão de se casar com um príncipe encantado e havia a crença generalizada de que podíamos controlar nosso destino.
Na Páscoa, quando a maioria das alunas passava o feriado em casa, eu que era de Belo Horizonte ficava quase só entre as imensidões daqueles corredores e salas vazias. Nem por isso era menos feliz do que as colegas que haviam partido. Ficava com minha grande caixa de ovos de chocolate que sempre chegava pontualmente, com as leituras piedosas que as freiras me indicavam e, especialmente, com minhas reflexões. Foi naqueles confins mineiros que uma semente de compreensão acabou por germinar num pensamento que me acompanhou pela vida afora: sou uma passageira da eternidade em busca de Luz.
Essas enevoadas recordações que emergem de meu remoto ontem misturam-se também às cores dos doces típicos da quaresma: doce de abóbora, doce de batata roxa, doce de cidra. Ecoam ao longe cânticos de procissões e retorna o espanto infantil diante da imagem de Jesus crucificado. Ao mesmo tempo, como era deliciosa a alegria da descoberta dos ovos de páscoa espalhados pelo jardim.
Comparando aqueles tempos com os de hoje posso concluir que sob os pores-do-sol de minha Belo Horizonte os contornos do viver eram mais bem definidos em tradições que hoje se perdem em feriados eminentemente comerciais. Mesmo assim, Pessach ou passagem (para os judeus) ressurreição ou Páscoa (para os cristãos), são comemorações que sempre deixarão subjacentes no coração do humano o desejo de superação do finito, a vontade de renascer de algum modo, a esperança de renovação. Feliz Páscoa para todos.



Acadêmica Maria Lucia Victor Barbosa  
Escritora

As uvas do tio Chiquinho


Escorreita na memória estão as lembranças que afagam e recobram o cheiro da infância. Tenho presente a imagem da minha avó que morava no sítio. Final do ano vinham os parentes de longe. Reuniam-se as filhas, os genros, os netos e as netas da vó Catarina. A casa enchia-se de gente e de alegria. Meu tio, Francisco – o Chiquinho –, sempre chegava acompanhado de algumas caixas de uvas, aquelas caixas de madeira. Todos se deliciavam.

Num daqueles finais de ano, tio Chiquinho, meu pai, vários primos e eu fomos ao sítio do japonês lá Colônia Novo Mundo. Akira, era um ousado empreendedor. Dizia ele, já nos anos 80, que, apesar do calor, era possível cultivar uvas de qualidade na nossa região. Chegando lá, para nossa surpresa, além de um lindo parreiral, cachos generosos e uvas doces, Akira convidou-nos para conhecer sua pequena vinícola. Sim, ele também acreditava na possibilidade de produzir bons vinhos. Abriu a porta de uma velha tulha e lá no fundo, temperatura amena e pouca luz, alguns tonéis convertendo o precioso líquido. Eduardo Galeano conta que um homem dos vinhedos do Uruguai, antes de morrer, sussurrou um segredo aos familiares: “A uva é feita de vinho”.
Passados alguns anos, tio Chiquinho assumiu a boleia de um caminhão e fez da estrada sua morada até a aposentadoria. Percorreu o Brasil, ultrapassou as fronteiras da distância. Quando retornava de suas viagens sempre trazia muitas estórias que ouvíamos atentos ao redor da mesa. Numa dessas odisseias, além das estórias, trouxe também algumas caixas de uvas uruguaias. Disse que havia sido presente de um “camionero”, a quem havia ajudado na estrada. Essas uvas, como as do Akira, ficaram para sempre na minha memória olfativa e afetiva.
Hoje, em sua chácara, tio Chiquinho não consome os dias no merecido descanso que a idade lhe confere. Ao contrário, admirável no cuidado e no cultivo, mantém um parreiral de uvas. Ele sempre soube cultivar uvas e, igualmente, as amizades colhidas no parreiral da vida. Nunca deixou de brindar a família e os amigos com uvas transformadas em vinhos e em boas conversas.
De fato, se as uvas são feitas de vinho, Galeano insiste em dizer que “talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é”. Creio que ele tenha razão. Somos o que carregamos e guardamos em nós, sobretudo os afetos armazenados nos esconderijos da memória e que partilhamos na forma de palavras. Somos como as uvas do tio Chiquinho transmutadas silenciosamente na pequena vinícola do Akira. Somos, ao mesmo tempo, vinho e uva. E depende de nós conferir sabor à vida.





Academico Clodomiro José Bannwart Júnior
Professor Associado do Departamento de Filosofia
Universidade Estadual de Londrina


Cartografia dos Afetos

Trabalho criativo do nosso Acadêmico Marco Antônio Fabiani, médico e escritor
(veja em tela grande)

O internetês e a vida real

BIJINS = BEIJINHOS
BJKAS = BEIJOCAS
BLZ = Beleza
CD, KD = Cadê?
Craro! = Claro!
CTAÍ? = Você está aí?
Eu lovo u = Eu amo você
Kirida = Querida
MIGUIM = AMIGUINHO
NAUM = Não
Pru6 = Para vocês
RULEZ = Maneiro, legal;
SifU que já mifU = Vai que eu já fui
T+ = Até mais, tchau
 Tôka módó... = Estou com muito dó...

Se vocês repararem bem, o internetês, a escrita usada pelas tribos da internet, já saiu do reduto delas (tribos) para se espalhar nas redes sociais, nas mensagens via WhatsApp e inundam comentários nos blogs e portais informativos. Mesmo que os portais ou blogs abordados nem adotem tal idioma.
A maioria dos “escrivinhadores” de internetês é jovem, se diverte com isso e nos faz lembrar da velha “língua do pê”, um código primário que a maioria dos pré-adolescentes utilizava entre si há algumas décadas.
O que preocupa são os dados da incultura linguística brasileira. Sabemos que cada vez mais os estudantes aprendem menos. Os vestibulares nos dão provas da incompetência dos jovens em redigir textos, pois são incapazes de utilizar corretamente o vernáculo.
Ora, se os jovens não conseguem nem aprender a língua portuguesa, revelando-se um fracasso completo na hora de buscar um emprego, naufragando nas entrevistas e nas exposições escritas, o que dizer então dessas tribos que usam o internetês?
A vida real globalizada requer muito mais do que a língua do pê ou o internetês. O mercado profissional não se limita a exigir um português razoavelmente bem escrito e bem falado, mas também ótimos conhecimentos de no mínimo mais um idioma, como inglês, francês, alemão, japonês e agora até chinês e russo.
Na vida real, o internetês não vale nem como primeiro, nem como segundo idioma.


Julio Ernesto Bahr
Publicitário, escritor, designer gráfico
e blogueiro