Extratos da nossa reunião virtual de 09/08/2020

A Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina não poderia deixar de realizar seus encontros culturais mensais. Assim, foi realizada a primeira reunião na modalidade remota. O anfitrião (coordenador do programa virtual) da reunião foi o Acadêmico Miguel Contani. O resultado foi uma experiência muito gratificante para os participantes!

Vista parcial dos participantes

CREDO ACADÊMICO
 O Acadêmico Clodomiro Bannwart Jr, Vice-Presidente da Academia, procedeu à leitura do Credo Acadêmico e conduziu a reunião 

VÍDEO: A HISTÓRIA DA ACADEMIA


Foi exibido um breve vídeo, contando a História da nossa Academia, com criação e produção do Acadêmico Julio Bahr, adaptando textos históricos parciais da Acadêmica Leonilda Yvonneti Spina

PALAVRA DA PRESIDENTE
Acadêmica Ludmila Kloczak

Caros acadêmicos e visitantes que nos honram com a sua presença nesta primeira reunião virtual. 
Os livros de história relatam a história da peste negra que assolou a Europa na Idade Média. A peste teve o seu início no antigo porto de Kerson, fundado pelos gregos, na Criméia. Para se livrar dos corpos infectados, seus habitantes os jogavam por cima dos muros da cidade. Marinheiros que circulavam pelo movimentado porto comercial contaminaram-se e levaram a Peste à Europa. O mundo global da época incluía os países banhados pelo mar Mediterrâneo, Europa, Oriente Médio. Outros países mais distantes, mesmo que tivessem contato comercial com estes povos, estavam longe demais. As caravanas e os navios lentos demais para os contaminarem. Houve significativas perdas materiais, desestruturação social, mudanças de rumo políticas e perdas significativas de vidas. Tanto tempo se passou e, no entanto, esta experiência humana é sempre recordada. Se não houvesse vidas perdidas, sua ocorrência seria registrada em poucos parágrafos. Entretanto, até hoje ecoam os sons das vozes daqueles que viveram, sofreram, perderam ou sobreviveram ao impacto traumático da Peste. Os eventos históricos se perpetuam no imaginário humano pela intensidade e pela amplitude dos seus efeitos sobre o ser humano. Século XXI. Ano 2020. À medida em que o vírus Sars-Cov-2 se espraiava pelos continentes a dizimar milhares de pessoas através da patologia Covid-19, uma das primeiras referências retrospectivas associou à calamidade gerada pela Peste. Em seguida, foi lembrada a gripe espanhola.  Buscávamos entender em qual experiência estávamos mergulhados. Se tínhamos algo a aprender para evitar a fatalidade da contaminação. Acima de tudo, estávamos e estamos a tentar compreender que experiência é essa que nos surpreende, retira nosso conforto rotineiro e nos obriga a criar novas formas de existência com o intuito precípuo de sobreviver. Estamos a nos referir ao trauma. Há algo específico na natureza do trauma. A repentina modificação das nossas vidas produz um impacto mental. Nossas mentes necessitam de muitos recursos e muito esforço mental para absorver, quer dizer, dar um sentido ao choque vivido. A supressão da nossa rotina nos desorganiza emocionalmente, porque a rotina é necessária para a nossa estabilidade interior, para a nossa economia afetiva. A situação traumática encontra cada ser humano num momento específico de sua história. Ela se torna um ingrediente a mais ou o ingrediente principal a determinar a reorganização da vida. Algo não programado e não esperado. Num primeiro momento, o trauma é desorganizador da mente. Cada um de nós sofrerá seus efeitos conforme sua estrutura psíquica. Não há fórmula, não há padrão. O trabalho mental não se limitará ao período da pandemia. Nosso esforço atual é o de sobreviver emocionalmente. Só mais tarde, quando os perigos da contaminação tiverem passado, nosso psiquismo buscará significar este momento, incorporá-lo à nossa vida mental. Ou seja, encontrar um lugar interno que possibilite conviver com a experiência traumática que, de fato, nunca nos abandonará. Daí porque os efeitos das grandes catástrofes humanas ecoam ao longo dos séculos. Passam a fazer parte do nosso imaginário. Passam a integrar a experiência humana. A memória dos que sucumbem é registrada pelo testemunho daqueles que sobrevivem. O processo de elaboração atravessa gerações e os séculos. Mais do que sacrifícios materiais, o esforço humano em sobreviver e compreender a dimensão traumática dos eventos inesperados que nos acometem em nossa existência, perdura e demarca a história da comunidade e da humanidade. É um processo singular. Cada um de nós conta com a sua própria subjetividade para ressignificar o sentido deste fenômeno traumático.  O que importa, ao final, é que possamos contar com a nossa capacidade de nos transformar e de investir na vida.

DESTAQUES ACADÊMICOS
Acadêmica Fátima Mandelli 
(Homenagem ao Dia dos Pais)

PAI

Sentimento guardado, por muitos manifestado
Palavra sonora, suave pandora
Pai, parte de nós, jamais algoz.

Caminhos tortuosos motor 
Estradas largas, sinuosas, vigor
Minas, morros bucólicos, saudades.

Partidas, despedidas, celeiro
Portas abertas, idas e vindas, tentativas
Confiança serena, abraço apertado
Histórias contadas.

Infância, unidade, saudade
Viagens festivas
Trabalho, ilusões vividas.

Vida marcada, netos, bisnetas
Superação do alcoolismo
Presença constante
Laços de amor, perdão
Sábias provações.

Tecendo o bem, o mau vai para além
União, mocidade
Juventude acumulada.

Os tempos passaram, os pássaros voaram
Em outros ninhos retornaram
Pousaram, mas sempre abastecendo de carinho.

Lembranças, heranças, esperança
Agradeço ao provedor eterno,
Exemplo do Belo,
Pai dos pais.

Misericordioso, bondoso, pai do bem
Que nos deu o nosso pai também
Obrigado, amém!


Autora: Fátima Mandelli
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Lucrécia Welter
Presidente da ALCA - Associação das Academias de Letras do Paraná

A Presidente da ALCA, Lucrecia Welter, fez uma breve intervenção na reunião, falando do projeto apresentado pela presidente da Academia de Letras José de Alencar, Anita Zippin, que consiste em redigirem-se textos sobre o período de quarentena. Textos que retratem a atual conjuntura, sem contemplar os males causados pelo SARS-COV2. Não são recomendados textos tristes. O objetivo do projeto é compor uma coletânea, tendo cada Academia paranaense o espaço de cinco textos. 
O prazo de entrega do material para a presidente Anita Zippin é dia 01/10/2020. 
MOMENTO DE ARTE



Música
Contamos com a honrosa participação do Prof. Shamir Giuppato, Coordenador da Escola de Música Mãe de Deus, em Londrina, que nos brindou com belíssimas apresentações ao piano.
Ouça alguns trechos abrindo o link da reunião, abaixo.

PALESTRA
Acadêmico Edilson Elias
A história vitoriosa de Assis Chateaubriand

    Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand ou Chatô nascido em Umbuzeiro, na Paraíba, a 4 de outubro de 1892. 
    Filho de Francisco José Bandeira de Melo e de Maria Carmem Guedes Gondim foi batizado Francisco de Assis por ter nascido no dia dedicado ao santo, devido sua mãe ser devota. O nome “Chateaubriand” tem origem na admiração do pai pelo poeta e pensador francês François-René de Chateaubriand, a ponto de comprar uma escola em meados do século XIX, na região de São João do Cariri, dando-lhe o nome do pensador francês. Logo, Francisco José passou a ser conhecido na região como “seu José do Chateaubriand”, que, por corruptela, derivou para “José Chateaubriand”. O nome ficou tão vinculado a Francisco José que ele batizou seus filhos com o sobrenome francês.
    Chateaubriand casou-se uma vez apenas, com Maria Henriqueta Barroso do Amaral, filha do juiz Zózimo Barroso do Amaral. Teve três filhos: Fernando, Gilberto e Teresa. Em 1934 desquitou-se e uniu-se a uma jovem de nome Corita, com quem teve uma filha, Teresa, que decidira deixar Chatô, e levou a filha com ela. Chatô consegue sequestrar a própria filha, assumindo a paternidade e, com o apoio de Getúlio Vargas, obtém o pátrio poder. 
    Suas relações, especialmente com os filhos, sempre foram conturbadas e repletas de grandes conflitos e separações radicais.
    Foi jornalista, empresário, político e mecenas (Mecenas – a título de elucidação – são os indivíduos ou instituições que protegem as letras e as artes, ou que patrocinam e investem
em arte e cultura, e nos eventos culturais), e destacou-se como um dos homens públicos mais influentes do Brasil nas décadas de 1940 e 1960. Foi também advogado, professor de direito, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.
    Quem aqui não ouviu a expressão fazer nas coxas?
    Acredito que muitos dos presentes tenham conhecimento dessa frase.
    Na região norte era comum o trabalho de oleiros que confeccionavam telhas nas coxas para a cobertura de suas casas, mas, essa frase ficou estigmatizada com Chateaubriand, quando escrevia em viagem. Ele não tinha seu tempo ocioso de modo algum.
    Seus artigos eram contundentes quer enaltecendo o cliente ou destilando seu veneno, quando agredira suas vítimas, pois era detentor de uma pena ácida e convencia com o seu alto poder de persuasão, o fazia “nas cochas”, quer dizer no colo, no próprio avião quando viajava.
    Chateaubriand foi um magnata das comunicações no Brasil entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1960, dono dos Diários Associados, que foi o maior conglomerado de mídia da América Latina, que em seu auge contou com mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e agência telegráfica.  Também foi conhecido como o cocriador e fundador, em 1947, do Museu de Arte de São Paulo (MASP), junto com Pietro Maria Bardi, e ainda como o responsável pela chegada da televisão ao Brasil, inaugurando em 1950 a primeira emissora de TV do país, a TV Tupi. Fez doação de 200 aparelhos de TV aos mais chegados, pois não tinha ainda no Brasil. Foi Senador da República entre 1952 e 1957.
A título de elucidação, com informação de nosso confrade Júlio Ernest Bahr, em 1950, na sede dos Diários Associados à Rua Sete de Abril, observou o início da primeira transmissão de televisão da América Latina, a PRF3 TV Tupi, em preto e branco, precariamente, com equipamentos expostos no saguão do seu edifício. Foi também Chateaubriand o patrono, fundador da Escola de Propaganda de São Paulo (hoje a ESPM), cedendo um conjunto no mesmo prédio dos Diários. E Bahr lembrou que pertenceu à turma de 1958 da Escola de Propaganda e, vez por outra cruzava com Chateaubriand – ele já numa cadeira de rodas -, segundo suas informações julgava ser vítima de um (AVC).
    Figura polêmica e controversa, odiado e temido, Chateaubriand já foi chamado de Cidadão Kane brasileiro, e acusado de falta de ética por chantagear empresas que não anunciavam em seus veículos e por insultar empresários com mentiras, como o industrial Francisco Matarazzo Jr. Seu império teria sido construído com base em interesses e compromissos políticos, incluindo uma proximidade tumultuada, porém rentável com o Presidente Getúlio Vargas.
   Foi um dos primeiros a usar a vulgata maquiavélica para se referir à habilidade política de Vargas.
Carreira
    Paraibano formou-se pela Faculdade de Direito do Recife. A estreia no jornalismo aconteceu aos quinze anos, na Gazeta do Norte, escrevendo para o Jornal Pequeno e para o veterano Diário de Pernambuco. Apenas a título de informação, é o mais antigo da América Latina, com a mesma linha editorial, inclusive, com o sistema virtual entre os mais modernos do mundo. Neste matutino, enfrentou uma situação inusitada: teve que dormir na redação do jornal, chegando a pegar em armas, para se defender da multidão que se empoleirava a frente do jornal em protesto contra a vitória do candidato Francisco de Assis Rosa e Silva (proprietário do diário). Em 1917, já no Rio de Janeiro, colaborou para o Correio da Manhã, em cujas páginas publicariam impressões do Diário de Pernambuco viagem à Europa que realizou em 1920.
    Em 1924, assumiu a direção d’O Jornal – denominado “órgão líder dos Diários Associados” – e, no mesmo ano, consegue comprá-lo graças a recursos financeiros fornecidos por alguns “barões do café” liderados por Carlos Leôncio de Magalhães (Nhonhô Magalhães), e por Percival Farquhar, de quem Chateaubriand, alegadamente, teria recebido como honorários advocatícios. Substituiu artigos monótonos por reportagens instigantes e deu certo. A partir de então, começou a constituir um império jornalístico, ao qual foi agregando importantes jornais, como o Diário de Pernambuco e o Jornal do Commercio, o mais antigo do Rio de Janeiro. No ano seguinte, Chatô arrebatou o Diário da Noite, de São Paulo. A essa altura, já possuía os jornais líderes de mercado das principais capitais brasileiras.
    A ascensão do império jornalístico de Assis Chateaubriand deve ser entendida no quadro das transformações políticas do Brasil durante as décadas de 1920 e 1930, quando o consenso político oligárquico e fechado da República Velha era centrado em torno da elite agrária de São Paulo, começou a ser contestado por elites burguesas emergentes da periferia do país; não é uma coincidência que Chateaubriand tenha apoiado o movimento revolucionário de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, assim como, durante toda sua vida, tenha fanfarroneado a condição de provinciano que chegou ao centro do poder como uma espécie de bucaneiro político. Para uma definição da palavra (Os bucaneiros foram piratas originários dos portos do Caribe, que inicialmente atacavam os navios e cidades espanholas no Caribe e na América Central). A ética quase nunca constava da estratégia empresarial: chantageava as empresas que não anunciassem em seus veículos, publicava poesias dos maiores anunciantes nos diários e mentia descaradamente para agredir os inimigos. Farto de ver o nome na lista de insultos, o industrial Francisco Matarazzo ameaçou “resolver a questão à moda napolitana: pé no peito e navalha na garganta”. Chateaubriand devolveu: “Responderei com métodos paraibanos, usando a peixeira para cortar mais embaixo”. Foi também inimigo declarado de Rui Barbosa e de Rubem Braga. Apesar disso, Chatô teve relações cordiais (e sempre movidas a interesses econômicos) com muitas pessoas influentes: Francisco Matarazzo, Rodrigues Alves, Alexander Mackenzie (presidente do poderoso truste canadense de utilidades públicas São Paulo Tramway, Light and Power Company), o empresário americano Percival Farquhar (Farcuer) e Getúlio Vargas.
    Durante o Estado Novo, Getúlio Vargas consegue a promulgação de um decreto que lhe dá direito à guarda de uma filha, após a separação da mulher. Nesse episódio, profere uma frase célebre: “Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei”. Em 1952, é eleito senador pela Paraíba e, em 1955, pelo Maranhão, em duas eleições escandalosamente fraudulentas.
    Caracterizou-se, muito embora fosse um representante típico da burguesia nacional emergente à época, pelas posturas pró-capital estrangeiro e pró-imperialismo, primeiro o britânico, depois o americano: além de muito ligado aos interesses da City londrina (a escandalosa embaixada na Inglaterra, na década de 1950, foi a realização de um velho sonho pessoal), conta a anedota que ele teria uma vez dito que o Brasil, perante os EUA, estava na condição de uma “mulata sestrosa” que tinha de ceder às vontades do seu gigolô. Era temido pelas campanhas jornalísticas que movia, como a em defesa do capital estrangeiro e contra a criação da Petrobras.
    Chateaubriand sempre buscou adquirir novas tecnologias para os Diários Associados. Foi assim com a Multicolor, a mais moderna máquina rotativa da época, sendo o grupo de Chateaubriand o primeiro e único a possuir uma por longo tempo, na América Latina; foi assim também com os serviços fotográficos da Wide World Photo, que possibilitava a transmissão de fotos do exterior com uma rapidez muito maior do que possuía qualquer outro veículo nacional. O mesmo se deu com a publicidade: grandes contratos de exclusividade para lançamento de produtos com a General Electric e para o pó achocolatado Toddy, cujos anúncios estavam sempre nas páginas dos jornais e revistas. A orientação publicitária de Chateaubriand para seus veículos começou a funcionar tão bem que os jornais dos Diários Associados passaram a anunciar os mais diversos produtos e serviços, desde modess a cheques bancários, algo tido como inédito na década de 1930, no Brasil.
    Publicou nada menos que 11870 artigos assinados nos jornais, dando oportunidades a escritores e artistas desconhecidos que depois virariam grandes nomes da literatura, do jornalismo e da pintura, como: Graça Aranha, Millôr Fernandes, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Cândido Portinari e outros.
    Presidiu, entre 1941 e 1943, a Federação Nacional da Imprensa (FENAI - FAIBRA). 
    Com o tempo, Chateaubriand foi dando menos importância aos jornais e focando em novas empreitadas, como o rádio e a televisão. Pioneiro na transmissão de televisão brasileira cria a TV Tupi, em 1950. Na década de 1960, os jornais atolavam-se em dívidas e trocavam as grandes reportagens por matérias pagas. Dois dos veículos de comunicação lançados no início da década de 1960 por Assis Chateaubriand, o jornal Correio Braziliense e a TV Brasília, foram fundados em 21 de abril, no mesmo dia da fundação da capital federal.
    Trabalha até o final da vida, mesmo depois de uma trombose ocorrida em 1960, que o deixa paralisado e capaz de comunicar-se apenas por balbucios e por uma máquina de escrever adaptada. Em 1968, morria Chateaubriand, velado ao lado de duas pinturas dos grandes mestres: um cardeal de Ticiano e um nu de Renoir, simbolizando, segundo o protegido Pietro Maria Bardi, organizador do acervo do MASP (casado com Lina arquiteta do edifício), as três coisas que mais amou na vida: O poder, a arte e a mulher pelada. Morreu também com o império se esfacelando e com o surgimento do reinado de Roberto Marinho que, parece-nos estar ruindo, com a insistência em se manter à esquerda na política brasileira.
    Foi um dos homens mais influentes do Brasil nas décadas de 1940 e de 1950 em vários campos da sociedade brasileira. Assis Chateaubriand criou e dirigiu a maior cadeia de imprensa do país, os Diários Associados: 34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 estações de televisão, uma agência de notícias, uma revista semanal (O Cruzeiro), uma mensal (A Cigarra), várias revistas infantis (iniciada com a publicação da revista em quadrinhos O Guri em 1940), e a editora O Cruzeiro.
    Deixou os Diários Associados para um grupo de vinte e dois funcionários, que foram liderados por Álvaro Teixeira da Costa. O Condomínio Acionário das Emissoras e Diários Associados é, conjuntamente, o terceiro maior grupo de comunicações do país. Tendo como carro chefe cinco jornais em grandes cidades do Brasil, líderes em suas respectivas praças (dos quinze que ainda restaram). 
Projetos culturais
Em 1941, promoveu a Campanha nacional da aviação, com o lema “Deem asas ao Brasil”, na qual foi criada a maioria dos atuais aeroclubes pelo interior do país, juntamente com Joaquim Pedro Salgado Filho, então Ministro da Guerra do governo Vargas. Com o suicídio de Getúlio Vargas, assume a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras.
    Funda o Museu de Arte de São Paulo (MASP) em 1947, com uma coleção particular de pinturas de grandes mestres europeus que ele adquiriu a preços de ocasião na Europa empobrecida do pós-Segunda Guerra Mundial (em aquisições por vezes financiadas à base de chantagem de empresários brasileiros), coleção esta que o presidente Juscelino Kubitschek havia tido o bom senso de, durante seu governo, colocar sob a gestão de uma fundação, em troca de auxílio governamental ao pagamento de parte da astronômica dívida do Condomínio Associado.
    Em 10 de agosto de 1967, Assis Chateaubriand entregou ao reitor da Fundação Universidade Regional do Nordeste (hoje Universidade Estadual da Paraíba – UEPB), Edvaldo de Souza do Ó, o primeiro acervo do Museu Regional de Campina Grande, localizado em Campina Grande, Paraíba. O acervo foi chamado de “Coleção Assis Chateaubriand”, com cento e vinte peças. A partir de então, o museu passou a ser chamado de “Museu de Artes Assis Chateaubriand”. 
Representações na cultura
    Filmes, documentários
   Assis Chateaubriand já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Luiz Ramalho no filme “Chateaubriand, Cabeça de Paraíba” (2000) e por Antonio Calloni em trecho da minissérie “Um Só Coração” (2004).
  Quero destacar ainda de que foi homenageado  no carnaval do Rio de Janeiro, em 1999. Guilherme Fontes adquiriu os direitos de adaptação para o cinema do livro Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais. O projeto começou a ser produzido em 1995, foi interrompido em 1999. O filme Chatô, o Rei do Brasil, lançado em 2015, tem Marco Ricca no papel de Chateaubriand. Em 2006, Fontes foi condenado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) a devolver 15 milhões de reais pela não-entrega da série de 36 documentários 500 Anos de História do Brasil. O Tribunal julgou irregulares as contas da Guilherme Fontes Filmes Ltda. Embora treze episódios tenham sido produzidos e até mesmo exibidos no canal a cabo GNT, a série, um subproduto do projeto Chatô, não havia sido concluída. 
Chateaubriand – Cabeça de Paraíba
    Marcos Manhães Marins escreveu, dirigiu e concluiu o filme "Chateaubriand – Cabeça de Paraíba", em 2000, tendo sido selecionado para quinze festivais e mostras no Brasil e no exterior, sendo uma na Bélgica e outra na França. Foi exibido na TVE e na TV Cultura, na TV Senado, Canal Brasil, TV O Norte na Paraíba, entre outras. 
    No carnaval de 1999, o Acadêmicos do Grande Rio homenageou com o enredo "Ei, ei, ei, Chateau é o nosso rei!" obtendo o 6.º lugar entre as escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro. A Inocentes de Belford Roxo também homenageou com o enredo "Chatô – a fanfarra do homem sério mais engraçado do Brasil", terminando em 2.º lugar entre as escolas de samba do Grupo de Acesso B, quase perto de subir para o Grupo de Acesso A. 
Academia Brasileira de Letras
    Foi o quarto ocupante da cadeira 37, eleito em 30 de dezembro de 1954, na sucessão de Getúlio Vargas, recebido pelo acadêmico Aníbal Freire da Fonseca em 27 de agosto de 1955. 
Morte
    Em fevereiro de 1960 Assis Chateaubriand foi acometido de uma trombose. Morreu em 4 de abril de 1968, em São Paulo, depois da pertinaz doença, a que ele resistiu por longos anos, continuando, mesmo paraplégico e impossibilitado de falar, a escrever seus artigos. Foi velado ao lado de duas pinturas dos grandes mestres: um cardeal de Ticiano e um nu de Renoir, simbolizando, segundo seu protegido, o arquiteto italiano e organizador do acervo do MASP Pietro Maria Bardi, As três coisas que mais amou na vida: O poder, a arte e a mulher pelada. Seu cortejo fúnebre reuniu mais de 60 mil pessoas pelas ruas de São Paulo. Está sepultado no Cemitério do Araçá.

PALAVRA DO ORADOR
Acadêmico Sergio Alves Gomes 
Breve  Elogio à Ciência e à Sensatez em Tempos de Pandemia 

Estamos na Academia, morada das Letras, Ciências e Artes. Este espaço institucional foi criado para o cultivo do conhecimento tecido e entretecido no diálogo desta tríade.  Aqui Letras, Ciências e Artes se encontram para iluminar mentes e corações compromissados com a difusão dos aspectos construtivos da cultura humana, visando à humanização do ser humano e de sua própria cultura. 
Neste momento de simultâneas crises, as Letras e as Artes se unem para homenagear a Ciência. Especialmente, porque percebem que a Ciência vem sendo por demais menosprezada, atacada, agredida, em pleno século XXI.  A humanidade sempre precisou de luz, por não aceitar o mundo como uma escura caverna. A Bíblia, no Gêneses, capítulo 1, 3-5, ao narrar o ato da criação, diz: “E Deus disse: Exista a luz. E a luz existiu. E Deus viu que a luz era boa; e separou a luz das trevas”. Conta-se que o grande poeta alemão JOHANN WOLFGANG GOËTHE, pronunciou, ao expirar, as seguintes palavras: “DEIXEM ENTRAR A LUZ”. Também o iluminismo (sec. XVIII) configurou uma exaltação às “luzes do conhecimento” fundado na razão e na sensibilidade, estimulando o respeito ao valor das ciências. 
Estamos em tempos de sofisticados aparatos científicos e tecnológicos mas, por paradoxal que possa parecer, ainda encontramos pessoas que negam o valor e as constatações da ciência. Isso é espantoso e preocupante porque muitas dessas pessoas ocupam parcelas significativas de poder: poder político, poder bélico, poder econômico... E com suas atitudes negacionistas – visando a manutenção ou o alcance de mais poder, ainda que ao custo de vidas humanas - propiciam situações que culminam na morte de milhares de pessoas, mortes que poderiam ser evitadas se fossem respeitadas em mais alta escala as orientações embasadas na Ciência. Especialmente nas ciências que têm por objeto a saúde. Mas o que é saúde para a população brasileira?    Importa aqui destacar apenas a dimensão jurídica da saúde. Diz  a Constituição Federal (CF), a lei maior do País, em seu artigo 196: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. 
O Estado Democrático de Direito (Cf. CF, art.1º) é  instituição criada  para estruturar, organizar e governar o convívio social, fazendo cumprir o que diz a Constituição, por meio da qual foi instituído (em 05/10/1988). E com base nela seus governantes são, democraticamente, eleitos. Todos juraram e juram, em ato público e solene, antes do exercício do mandato, o cumprimento do que dispõe a Lei Magna.  
Já em 1776, no preâmbulo da Declaração de Independência dos Estados Unidos, estabeleceu-se que todos os homens “são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis; que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Que para assegurar esses direitos, são instituídos entre os homens governos os quais derivam seus justos poderes do consentimento dos governados; (grifo do autor desta comunicação); que, sempre que uma forma de governo se torne destrutiva destes fins, é direito do povo alterá-lo ou aboli-lo e instituir novo governo, fundamentando-o nesses princípios e organizando-lhe os poderes da forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade”.  Portanto, governos se legitimam quando atuam de forma equilibrada e justa, em favor do bem de todos, identificada na Declaração com a palavra “felicidade”. 
 A pergunta necessária a ser feita - neste triste momento em que o Brasil atinge o aterrador índice de mais de 100.000 mortos pelo “Coronavirus” -  é a seguinte: como os governantes do País (em nível  federal, estadual e municipal) têm-se comportado em relação ao dever jurídico, político e social de garantir o acesso “universal (a todos) e igualitário às ações e serviços de saúde, visando à proteger, promover e recuperar a saúde da população brasileira?  É tarefa de todo cidadão, responsável, nas eleições,  pela escolha de seus governantes, colocar tal pergunta e aprofundar sobre ela sua análise e reflexão indispensáveis nestes “tempos pandêmicos”. E como são estes tempos? Multifacetados. 
São tempos solitários, solidários, de saudades, lembranças, ansiedade, tristeza, compaixão, dor, inquietação, horror,  medo e esperança.
Tempos pandêmicos, onde para muitos a vida não continua.  
Tempos de pandemia que já matou milhares e não de uma simples “gripezinha”.
Tempos de destaque da ciência e da luz, em confronto com a acirrada e difusa ignorância que arrasta  para a escuridão,  para o cemitério, e  às  trevas da ignorância.
Tempos pandêmicos são tempos de extremadas posições, eu versus tu, tu versus eu; nós contra eles, eles contra nós.  
Tempos pandêmicos, tempos de entendimentos e de confrontos, de parcerias animadoras e de conluios lucrativos a quem destes participa. 
Tempos pandêmicos, tempos da “cultura do cancelamento”, da vingança anônima, da negação da ciência e de propaganda para impor mentiras como verdades, na proliferação de “fake news”.
Tempos pandêmicos, tempos de anestésica insensibilidade  de quem só mira o poder, de ausência de empatia, compaixão e respeito à dor alheia. A quem assim age, cabe lembrar a canção de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, “a Flor e o Espinho”: “Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”. Tempos em que o sofrimento, o luto e o pranto de milhões a sepultarem seus entes queridos clamam por apoio e solidariedade em lugar da cruel indiferença.
Tempos pandêmicos, tempos em que um corpúsculo invisível desafia a humanidade, ceifando vidas humanas em todos os continentes e alcançando velozmente a cifra que supera 100.000 mortos no Brasil. 
Tempos pandêmicos, tempos em que as máscaras de tecido  tomam conta e pedem a retirada das máscaras do poder exigindo-lhe transparência e empenho a serviço de todas as pessoas e, especialmente, em socorro dos mais frágeis e fragilizados, dos mais vulneráveis infectados  pela pandemia que diariamente  imploram por um respirador e não o encontram disponível. Tempos pandêmicos de carência de leitos em hospitais e de expansão das improvisadas covas  nos cemitérios. 
Tempos pandêmicos, tempos que desafiam a inércia, a omissão e que denunciam  todo aquele que devendo e podendo socorrer  uma, dez, cem ou milhares de pessoas, se omite e concorre com sua omissão para a morte, seja de uma,  dez, cem ou de milhares de pessoas.
Tempos pandêmicos, tempo de repensar o papel das instituições políticas, de rever a ideologia que apregoa o Estado mínimo ou a ausência do Estado nas relações sociais. Tempos de repensar sobre o discurso economicista que engendra a omissão de políticas públicas indispensáveis a salvar vidas e a preservar a natureza em escalada destruição. 
Tempos pandêmicos, tempos de explosões catastróficas, incêndios criminosos, cegueira e ganância que destroem florestas, fauna, flora e empesteiam os ares. 
Tempos pandêmicos, de fumaça sufocante, de secas aterradoras, de inundações e terremotos.
Tempos pandêmicos, tempos de acordar para um “novo desconhecido” gerador de incertezas. Tempos pandêmicos, tempos de encontros a distância, de imagens que cruzam os continentes, de união alimentada pela esperança. Esperança de que, apesar destes assustadores e sombrios tempos, a luz da vida, do conhecimento, da fé equilibrada com a razão, do amor e da fraternidade preponderem e vençam estes difíceis tempos. E que Deus tenha piedade do gênero humano, pela estultice daqueles que, visando apenas o gozo egoístico do poder, negam a verdade científica, fruto do saber - desenvolvido pela inteligência humana, reflexo do próprio Criador. É hora de bradar, com o poeta Goëthe: “Deixem entrar a luz!” Que a luz da sensatez faça desaparecerem as trevas do negacionismo científico que conduz à barbárie. Que saibamos manter a luz do amor, da compaixão, da fraternidade, da solidariedade, da empatia, do encontro, do diálogo, do todos juntos no enfrentamento da pandemia. 
E assim, tempos pandêmicos também são tempos de esperança. Fiat lux! Fiat lux! Fiat lux! Deixem entrar a luz, deixem a luz entrar, deixemos entrar a luz. 
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Após a palestra, teceram comentários o jornalista Francismar Lemes, que produz o programa "Apontamentos" na Rádio UEL FM e Cezar Benevides, professor e escritor, que nos honraram com sua participação


Haicai da poça d'água


José Marins*


Em reunião semanal de leitura de livros de haicai lemos 33 autores. Percebemos várias vezes a repetição do haicai da poça d'água. Alguns se mostraram interessantes, outros caíram no lugar comum. Haveria algum haicai que teria começado esse tipo de registro?


Afrânio Peixoto, pioneiro do haicai brasileiro, publicou em 1931:

Na poça de lama
Como no divino céu,
Também passa a lua.  

O poema não chamou a atenção o suficiente para ser imitado em publicações posteriores.

É provável que tenha sido um haicai de Millôr Fernandes que estimulou a realização de haicais da poça d'água, com ou sem lua e outros reflexos:

Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.

Este haicai saiu em 1968 no livro do Millôr, Hai-Kais, pela editora Senzala. E se manteve nas edições posteriores (Nórdica, 1986 e L&PM 1997). Com certeza a notoriedade e a constância dos poemas, textos e desenhos do autor ao longo dos anos em O Cruzeiro, Veja e livros, ajudaram a fazer a fama do haicai da poça d'água.

Recebi outro dia da poeta Rose Mendes a foto de uma poça de chuva na qual aparece pousado um pássaro com a sombra refletida. A configuração é, por si só, uma ótima imagem de haicai. Rose tentou fazê-lo mas desistiu. Ela fez outro anteriormente, com inovação e graça, publicado no seu livro Nas Ondas do Haicai:

Depois do aguaceiro
brincam os passarinhos
na poça d’água

Resolvi convidar alguns poetas de haicai para a brincadeira: tomar a foto como referência e realizarem o poema. Comento a seguir algumas colaborações que gentilmente me foram
enviadas, e que, penso, têm um foco na cena retratada naquela foto: 

A. A. de Assis:

Pássaro na poça.
Nem só de canto ele vive,
mas também de insetos.

– A sugestão do poema é a de que o pássaro só está na poça em razão de caçar para sobreviver. Portanto, nada de reflexos, mas a luta do dia a dia.

Carlos Bueno:

a poça d’água
reflete o pássaro, sua
única companhia

– Aqui temos uma inusitada imagem para o reflexo na poça: a solidão do pássaro.

Edu Hoffman:

pássaro na poça
faz lembrar minha infância
meu olhar adoça

– Um haicai guilhermino no qual pássaro e poça remetem à lembrança, mas sobretudo a um momento de ternura.

José Marins:

da chuva a poça – 
do pássaro o pouso
para uma foto

– Um haicai livre que brinca com os verbos pousar e posar.

Suzana Lyra Strapasson:

A terra molhada
Sustenta na poça o
Pássaro cantante.

– Outro haicai ligado a canto e sustento. A sugestão faz uma delicada ligação entre poça e canto, beleza e humildade.

Teresa Cristina Cerqueira:

A água da poça –
Sabe-se feliz o pássaro
Que vive na roça

– Se vive na roça, basta uma poça para ser feliz? Talvez o pássaro é que sabe.

Van Zimerman:

tarde fria – 
nas cores da poça d'água
o pássaro

– Um haicai livre com uma bela sugestão: ao invés do reflexo são as cores que trazem o pássaro.

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Curitiba, outono de 2017

Fernandes, Millôr. Hai-Kais. Rio de Janeiro: Senzala, 1968.
Mendes, Rose. Nas ondas do haicai. Jundiaí: In House, 2014.
Peixoto, Afrânio. Miçangas. São Paulo: Editora Nacional, 1931.


* José Marins é poeta. 
Publicou, entre outros livros, as coletâneas de 
haicais Poezen (1985) e Pinhapinhão, 
pinhão-pinheiro (2004) e os minicontos de 
A brisa é você (2010). 
Vive em Curitiba (PR).

A Metologia da Problematização

A Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina apresenta vídeo da Acadêmica Neusi Berbel, como uma contribuição ao mestres do ensino:


(Clique no quadro para iniciar)

Rememorando os tempos da censura

Matéria censurada no jornal O Estado de São Paulo substituída por versos de Camões 

“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. 
Como não sou judeu, não me incomodei. 
No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. 
Como não sou comunista, não me incomodei. 
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. 
Como não sou católico, não me incomodei. 
No quarto dia, vieram e me levaram; 
já não havia mais ninguém para reclamar...”

Por Martin Niemöller, pastor luterano que recebeu o
Prêmio Lênin da Paz em 1966

A censura brasileira foi bastante atuante nos tempos do regime militar e nem todos os brasileiros se deram conta do alcance de tal aberração. Nos jornais O Estado de São Paulo e seu filhote Jornal da Tarde quase diariamente matérias eram cortadas pelos censores, substituídas por versos de Camões e receitas culinárias exatamente nos espaços censurados. A censura agiu com mão forte também no reacionário jornal Pasquim, no teatro, no cinema, na música, em outros jornais e revistas brasileiros. 
O Pasquim sofreu intensamente com a censura: seus jornalistas, escritores e colaboradores chegaram a ser presos, mas como não se intimidaram, as autoridades da época ameaçaram os donos de bancas de jornais: se continuassem com a distribuição do Pasquim, as bancas seriam destruídas. Foi o fim do jornal. 
Os artistas provavelmente foram os que mais sentiram na carne a mão forte da censura: peças de teatro e letras de músicas eram sistematicamente vetadas por “infringirem” a linha limítrofe entre entretenimento e eventuais mensagens políticas inseridas em seus contextos. A criatividade foi inteiramente cerceada. 
Naquela época, a publicidade também foi muito visada: todos os materiais que nós, publicitários, enviávamos para publicações no Exterior, passavam obrigatoriamente pela Polícia Federal. Em 1973 eu estive pessoalmente frente a censores em escritório da PF, à Rua Xavier de Toledo São Paulo, para liberar anúncios desenvolvidos pela minha agência de propaganda. Os anúncios foram criados para um cliente, se destinavam a publicações na Holanda e Bélgica por ocasião da primeira Feira Brazil-Export no Exterior, em Bruxelas, e foram meticulosamente examinados pelos censores antes da aprovação. O pacote para a remessa era lacrado, autenticado e só então poderia ser enviado ao Exterior.
Aqueles que minimamente tomaram conhecimento dos horrores provocados pelo nazismo, certamente já assistiram ou leram sobre a técnica nazista que consistia em promover pessoas de baixo nível social e intelectual para postos importantes nas tropas das famigeradas “SS”, que eram as “Tropas de Proteção” ligadas ao partido nazista e comandadas por Himmler. Assim, o ex-carteiro, o ex-alfaiate, o ex-açougueiro e até o ex-inútil da aldeia, subitamente se viam uniformizados e guindados à posição de carrascos daqueles judeus, ciganos, padres, pederastas, negros e outros grupos étnicos minoritários aos quais até então serviam. Aproveitavam a oportunidade para destilar suas frustrações, seu sadismo, sua raiva e sua incompetência infligindo-lhes torturas, castigos e até a morte.
Pois a censura não difere muito destes métodos. Ou seria possível alguém acreditar que na época do regime militar no Brasil os censores fossem professores-doutores, mestres em literatura ou pessoas dotadas de um grau mínimo de intelectualidade para censurar com olhar profissional e competente os materiais a eles apresentados? Espalhados por todas as cidades brasileiras? Os diálogos foram ásperos, primitivos e ai de quem ousasse tecer qualquer comentário a respeito: a “otoridade” se faria valer!
Censura caminha sempre de braços dados com o autoritarismo. Uma não pode viver sem o outro. E a História está recheada de exemplos. Pena que sejam esquecidos.
(Acadêmico Julio Ernesto Bahr)

Mais uma obra de Neusi Berbel

Brincos de Princesa.  Um pouco de cor para nossos olhos!





Acadêmica Neusi Berbel
Professora, artista plástica

Orgulho de ser imigrante

Navegando o vasto oceano,
via ao longe se afastando
as imagens derradeiras
de minha Terra Natal...

Algumas liras nas algibeiras...
Braços fortes, determinação!
Vibrando n’alma o grande ideal
de prosperar nesta Nação.

Tão comovente fora nossa partida...
Tangendo no peito saudade dorida!
Eis que aporto, enfim, em terras brasileiras,
paraíso de pássaros, palmeiras!

Aqui, aos poucos fui fincando raízes,
tão profundas, que não guardo cicatrizes
de algum descaso dos primeiros anos,
quando nos chamavam de carcamanos...

Quantos segredos escondidos nas terras
lavradas com enxadas forjadas na fé!
Viçosas lavouras contornando as serras
com imensos rosários de pés de café.

As cerejas maduras, no véu da saudade,
traziam-me lembranças da feliz mocidade
na Itália distante, de alegres tarantelas...
As ragazze dançando, tão jovens, tão belas!
Brasil!... Berço que me embalou com carinho!
Solo abençoado, que me deu um lar, um ninho,
onde criei os filhos, me vi envelhecer...
E onde, em meu sono infinito irei adormecer!

De sol a sol, ombro a ombro, lutamos.
Persistentes um espaço conquistamos.
Somos exemplos de audazes imigrantes,
com a garra e a coragem dos bandeirantes.

O sangue italiano pulsa na indústria,
lavoura, comércio, no cafezal.
Na voz dos padres em sagrada messe.
Na herança ancestral de piedosa prece!

Nessa labuta por um ideal,
nossa presença ficou na comida:
- No risoto, polenta, pizza, vinho...
Na lida do gado, no parreiral.

Vejam as roças, videiras mil!
Mesas fartas, macarronadas...
Gerações bonitas mescladas
com traços de Itália e Brasil!

O medo de desventura ou engano
perdeu-se no passado distante,
pois, no peito de cada italiano
palpita o orgulho de ser Imigrante!



Acadêmica Leonilda Yvonneti Spina
Advogada, escritora, poetisa, trovadora, declamadora

Dia dos Namorados


Véspera da Festa Litúrgica em comemoração a Santo Antônio de Lisboa.


(Fernão de Bulhões, que tomou à religião o nome de Antônio, nasceu numa casa junto da Sé Patriarcal de Lisboa; cresceu, estudou, viveu e entregou-se a Deus em Portugal e levou o seu saber e santidade à Itália e à França.) 

História de sua escolha como Patrono dos Namorados:

Pelos anos de 1450, viviam em Nápoles uma viúva e sua filha única, de rara beleza, virtude e espiritualidade. Originárias de família nobre, caíram na pobreza. A mãe, pensando que é a riqueza que dá aceitação social, e não tendo meios para dotar a filha de modo a permitir-lhe um casamento condigno, insistia em que a filha, usando de sua beleza, se prostituísse aos numerosos pretendentes que a assediavam. Ciosa da sua castidade, e fervorosa devota de Santo Antônio, dirigiu-se à igreja e prostrada diante da imagem do Santo, dolorosamente lhe pediu que lhe valesse. A imagem do Santo curvou-se; em sua mão trazia um papel em que estava escrito: “Dê a esta donzela, portadora deste papel, o peso do mesmo em moedas para constituir seu dote matrimonial”. E à moça, que estava de joelhos a seus pés, disse: “Vai à casa do mercador chamado... e da minha parte entrega-lhe este papel”. A menina obedeceu. Ao ler o escrito, o mercador deu uma risada trocista e mandou vir uma balança; num dos pratos colocou o papel e no outro, uma pequena moeda de mínimo valor. Mas a balança não se moveu. Então acrescentou mais uma outra moeda; e a balança continuou imóvel. E foi colocando moedas e mais moedas até que, atingindo 400 moedas de prata, a balança se equilibrou. Lembrou-se então o mercador que tempos passados prometera doar 400 moedas de prata a Santo Antônio, se conseguisse realizar um negócio em que ganhou muito mais. Esquecera-se da promessa e nunca a cumprira. Santo Antônio veio então pedir-lhe o seu cumprimento. A donzela conseguiu o seu dote e pôde casar honestamente segundo as leis da Santa Madre Igreja. 

Este é um fato. E por que é festejada à véspera? Nos tempos antigos, em que não havia as facilidades que existem nos dias de hoje, as peregrinações aos lugares sagrados eram feitas a pé, ou quando muito, em carroças puxadas a cavalos ou carros de bois. A viagem demorava dias e era calculada de modo a chegar, ao local da festa, na véspera de sua realização. Nessa noite, então, ao redor de uma fogueira, se fazia uma outra festa popular: o arraial. Com comida, bebidas, cantos e danças se trocavam os tradicionais vasinhos com manjericos, com cravo de papel espetado e, em cima, uma quadra. (Manjerico, meu manjericão; Amor da minh’alma, dá-me a tua mão.) Alcachofras se queimavam e se plantavam na terra. Se, no dia seguinte estivesse florido, em breve seria encontrado um marido. (Uma esperança para as solteironas.) E se o Santo não atendesse ao pedido, então a sua imagem era pendurada de cabeça para baixo, no poço do quintal até que atendesse os desejos.

Bons tempos! Em que a religiosidade, a ingenuidade, e a fé andavam de mãos dadas. Disse o Senhor: “Se não vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus”.





Acadêmico José Ruivo da Silva   
Médico

Internet, e-mails e a língua portuguesa

Na introdução do meu livro “Encontro na barca e outras histórias de bahr” incluí alguns dados publicados na Revista Veja daquele ano (2005) reportando que 91% dos alunos da rede pública que terminavam o ensino fundamental simplesmente não conseguiam compreender os textos que liam.
As pesquisas atuais sugerem que nada mudou nestes quinze anos. Talvez tenha até piorado. Temo que não sejam apenas os alunos do ensino fundamental que tenham essa dificuldade. Quando leio alguns textos de estudantes universitários e até de profissionais formados respondendo e comentando artigos publicados nos blogs, portais de notícias e jornais, fico estupefato com as conclusões absurdas que emitem, geralmente fora do contexto principal do tema... sem contar o português pessimamente escrito. São pessoas que aparentam não entender nada de sátira, duplo sentido, escárnio, paródia ou de interpretações pessoais nos textos. São apenas leitores, no sentido literal.
Essa incompreensão tem origem na falta de leitura e nas deficiências do ensino. É por isso que aparecem tantos erros de escrita em e-mails, cartas, opiniões dos leitores, artigos de jornais e portais, comentários nas redes sociais e nos textos dos próprios jornalistas. Concordância, palavras e frases erradas, além de tempos de verbos mal utilizados, surgem com uma frequência assustadora. 
A informalidade na escrita não deveria ser confundida com a liberalidade de se utilizar um linguajar chulo, ofensivo e pleno de erros, como muitos fazem. 
Vários professores universitários com quem conversei já ficaram rubros de raiva em alguma ocasião ao revisarem provas e dissertações dos seus alunos, pois raros são os que conseguem escrever bem. 
A língua é o maior tesouro de uma nação. É a língua bem escrita e bem falada que abre as oportunidades de emprego, convivência, sucesso e realizações das pessoas. 
Espero que não seja a minha intolerância causada pela idade que me impeça de enxergar, talvez, o futuro da comunicação entre as pessoas. Estarei eventualmente ignorando que essa linguagem misturada a hieróglifos, símbolos, sinais, erros e palavrões seja a nova linguagem internacional, o substituto do Esperanto, idioma criado em 1887 pelo filólogo polonês Ludovic Lazarus Zamenhof e que deveria unir todos os povos do mundo? 
Para ilustrar como a ignorância se espalha, seguem algumas frases estapafúrdias escritas por especialistas forenses, que recebi de um amigo por e-mail:

- Laudo descritivo de um perito judicial:
"um barracão com pé direito de 5 metros e pé esquerdo de 4 metros"

- Frase de um termo de encerramento de laudo judicial de processo na Vara Cível do Fórum João Mendes em São Paulo:
"Os anexos seguem em separado". 

- Relatório de um perito do Banco do Brasil:
"Visitamos um açude nos fundos da fazenda e depois de longos e demorados estudos constatamos que o mesmo estava vazio"  

- Avaliação feita por um oficial de justiça:
“Incluir na penhora um crucifixo, em madeira, estilo country - colonial, marca INRI, sem número de série" 

Acadêmico Julio Ernesto Bahr

Nosso site: seis anos de informações


Após o falecimento do nosso fundador, Dr. João Soares Caldas, a Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina viu-se subitamente sem rumo. Afinal, Dr. Caldas esteve na presidência por longos 35 anos, alcançando enormes feitos e realizações culturais na cidade.

O que fazer?

O Prof. Leonardo Prota - que havia sido empossado poucas semanas antes como Vice-Presidente - assumiu o leme, conseguindo montar uma equipe participativa e bastante preocupada em dar prosseguimento à obra do fundador.

Nesta oportunidade, a Academia deu um salto para o Século XXI no que se refere a técnicas de comunicação e de ferramentas ainda não exploradas. Os convites para as reuniões, até então entregues por Correio, passaram a ser enviados via e-mails. Vários novos meios de comunicação vêm sendo utilizados, como as redes sociais, whatsapp, entrevistas a jornais e rádio, além da aproximação com o legislativo, que concedeu à Academia a Medalha Ouro Verde em 2014.

Todas as reuniões mensais, eleições de diretoria e participações da Academia em eventos próprios ou de terceiros, vêm sendo registradas neste site, que agora em junho completa seis anos prestando informações culturais à comunidade londrinense, ao Paraná, ao Brasil e a interessados em vários países, que acompanham estas realizações.

É a Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina divulgando cultura !

Nossas reuniões continuam suspensas

Comunicamos que, em vista da continuidade da pandemia, nossas reuniões presenciais da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina permanecem suspensas.
Em consequência, não haverá a reunião do segundo domingo deste mês de maio, que ocorreria no dia 10.
Assim que a situação estiver normalizada, será emitido novo comunicado.

A Diretoria


Papagaio-da-cara roxa


Aquarela de 2003 - um dos primeiros pássaros 
pintados pela artista.
De qualquer lado que se olhe, parece que está 
sempre olhando para você.



Acadêmica Neusi Berbel
Professora e artista plástica

Perigo: os erros de português na publicidade


(Texto apresentado na Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina em 2010)

Como em qualquer atividade intelectual, o pessoal que cria textos publicitários corre o sério risco de cometer erros – seja na escrita, seja na revisão. 
O problema é que os erros em textos publicitários, principalmente quando impressos, chamam tanto a atenção que acabam sofrendo críticas, chacotas e até processos. 
Como, por exemplo, uma empresa de Listas Telefônicas, que foi condenada a restituir alguns milhares de reais pagos por um colégio, acrescido de multa contratual de 10%, correção monetária e juros moratórios à taxa de 1% ao mês. A empresa sofreu o processo devido à publicação de um anúncio com erro de português. A palavra ensino foi escrita como "insino" no anúncio publicado na lista. Segundo o colégio, o erro foi ainda mais danoso por se tratar de anúncio de instituição cujo produto oferecido era exatamente a educação. 
Para o colégio, o erro colocou em questão a qualidade dos seus serviços e desde a publicação do anúncio recebeu inúmeros telefonemas desabonadores da sua credibilidade. 

No horário eleitoral gratuito em agosto de 2008, enquanto candidatos a vereador em Goiânia apregoavam suas “virtudes”, um doutor em letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp) teve a paciência de ficar caçando erros de português – e os encontrou em nada menos do que 93% das legendas. A maioria dos erros era de pontuação. Porém alguns deles eram verdadeiros atentados à gramática, segundo o especialista. Resta a dúvida: qual foi o percentual de perda de votos desses candidatos por causa dos erros? Isso se o horário eleitoral contou mesmo alguma audiência...

Um filme publicitário do Tribunal Superior Eleitoral em fevereiro de 2008, que fazia parte da campanha "Heróis pela Democracia", trazia o seguinte texto: "Heróis existem. Não desperdice o direito que eles tanto lutaram e conquistaram para você. Vote”. 
Segundo um professor coordenador de redação e interpretação de texto de cursinho no Rio de Janeiro, a frase continha um "erro grave de regência". "Quem luta, luta por alguma coisa. É estranho que uma comunicação oficial do governo tenha um erro desses". De acordo com o professor, uma opção correta seria dizer: "Não desperdice o direito pelo qual eles tanto lutaram e que conquistaram para você".

Agora, uma outra história que foi bastante divulgada. Uma quadrilha que pretendia invadir um condomínio de luxo em São Paulo, se fazendo passar por entregadores de cestas de natal, foi presa por conta de um erro de português.
"Do ponto de vista operacional, eles são muito bons. Mas, do ponto de vista gramatical, são péssimos", disse o delegado titular que os capturou. A ação dos criminosos estava sendo monitorada pela polícia, que ficou surpresa ao ler "impório" em vez de "empório" no veículo que continha as cestas e vinhos a serem entregues em um apartamento. O alvo seria o cofre desse apartamento. A sucessão de trapalhadas foi além. A mesma palavra escrita erroneamente foi bordada em duas camisas que eles usavam para tentar enganar os porteiros. "Ninguém em sã consciência vai manter exposta uma propaganda com um erro tão grosseiro", afirmou o delegado. 

Em Criciúma, as autoridades decidiram começar a multar as agências de propaganda pelos erros gramaticais ou ortográficos nos anúncios publicitários espalhados pelas ruas. Os inúmeros anúncios com erros de português indignaram de tal forma as autoridades da cidade, que estes decidiram aplicar multas de 500 dólares às agências publicitárias responsáveis pelos cartazes. A lei foi aprovada pela Câmara local, e permitia a qualquer cidadão denunciar os erros à autarquia. Caso a empresa responsável não corrigisse os erros, incorreria na multa.

A Universidade Católica de Pelotas atravessou um período difícil por ocasião do Dia das Mães, já que ninguém da agência de propaganda, da reitoria ou da assessoria de comunicação foi capaz de perceber dois erros grosseiros de português num texto impresso de nove palavras. O texto dizia:
“Mãe que ama,
Que proteje,
Que educa,
Simplismente mãe.
Universidade Católica de Pelotas

Distração também deve ter sido a causa de uma derrapada feia da Apple, que publicou um anúncio cuja ilustração do iPod continha a seguinte frase:  “Feito especialmente para voçê”. O problema é que escreveram você, com cê-cedilha. 

De tudo isso se conclui que, se nos colégios e faculdades os erros de português resultam em notas baixas e eventualmente em reprovações nos exames, na publicidade os prejuízos podem ser muito maiores. Desde a perda de eleição até processos, de chacotas a queda de credibilidade, além de críticas nos jornais, sites e em outros meios de comunicação. 

Fica a pergunta: “herrar é umano” (como pichadores estampavam nos muros em São Paulo) ou será falta de aprendizado e de atenção? 




Acadêmico Julio Ernesto Bahr
Publicitário, escritor, blogueiro e designer gráfico