Agende o dia 9 de maio!


Participe conosco de mais uma reunião na modalidade remota da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina. Um agradável mergulho nas áreas do Conhecimentos e da Cultura.

REUNIÃO NA MODALIDADE REMOTA EM 11/04/2021




Ludmila Kloczak
Bem-vindos nossos confrades, confreiras, convidados e visitantes à Academia!
Sentimo-nos confortáveis em acreditar que vivemos em sociedade. Contamos com instituições que nos abrigam, práticas sociais que procuram prever e atender nossas necessidades individuais e coletivas, três instâncias de poder estruturadas de modo a administrar a nação, o estado e o país nos planos político e jurídico. Uma síntese desidratada da complexidade inerente ao viver em sociedade.
Meu olhar pretende enfocar o personagem que faz tudo isso existir. Vivemos em sociedade! Será? Somos indivíduos que precisamos do outro para cuidar de nós enquanto crescemos e nos capacitamos a viver por conta própria. O maior desafio é conviver com o outro. Desde o berço, um dos trabalhos mais exigidos pela mente é o de estabelecer limites com o outro do qual dependemos. Se considerarmos que a experiência primordial da nossa existência é a de sermos unos com tudo que nos cerca, podemos avaliar o custo que representa para o nosso psiquismo renunciar a essa unidade. Constatar que a nossa sobrevivência depende do reconhecimento da existência e independência do outro. Revela-se aí a ambivalência com que nos relacionamos com o outro: gostaríamos que ele não existisse, não impusesse sua presença a nós; entretanto, precisamos garantir sua existência para a nossa sobrevivência.
Somos ambivalentes. A ambivalência é inerente à constituição do Eu. Os impulsos que nos movem, buscam afirmar a vida, mas, também, antes da vida, o psiquismo busca a descarga dos impulsos. Em algum momento é promovida a ligação com algo que pode ser fonte de prazer. Essa descoberta original pode ser o primeiro passo para a aceitação do outro. Vejam, é o outro como fonte de prazer! O outro que é repelido, passa a ser desejado!
Este é um conflito que nos acompanha até o final da existência: construir e destruir, agrupar e separar, amar e odiar. Nós procuramos nos agrupar em organizações estáveis o suficiente para possibilitar um equilíbrio das forças naturalmente instáveis dentro de nós e, assim, garantir um viver criativo. A paz e o bem-estar social, para bem viver em sociedade, depende de oferecer sentidos à ambivalência. Não nos espantemos com a conduta humana em tempos traumáticos. É o melhor que podemos fazer quando nos desorganizamos e a angústia nos impele a buscar soluções, mesmo que em direção à destruição de si e do outro. 
                                        
SOBRE O SIGNIFICADO E A RELEVÂNCIA DA LEITURA PARA O SER HUMANO 
Acadêmico Sergio Alves Gomes*
No momento da “Palavra do Orador”, o Acadêmico SERGIO ALVES GOMES fez breve saudação à Presidente da Academia, aos demais acadêmicos e convidados presentes e apresentou uma exposição sintética da temática de sua comunicação, focada na palavra LEITURA. Segue o texto completo, objeto de sua comunicação, como Orador da ALCAL, contendo inclusive detalhadas referências bibliográficas que servem de base ao desenvolvimento do texto.   

Leitura significa:  ação ou efeito de ler; ato de apreender o conteúdo de um texto escrito; ato de decifrar qualquer notação; o resultado desse ato; decodificação, obtenção de dados de um dispositivo de memória, de um meio de armazenamento ou de outra fonte. (1)
Ler é verbo que provém do latim “legere”, significando, originariamente, escolher, pegar, colher. 
Para LACORDAIRE, célebre conferencista francês, “três coisas são necessárias para tornar a vida feliz: a bênção de Deus, um amigo e boas leituras”. (2)
A leitura corresponde a uma das cinco atividades filológicas básicas do ser humano que são as seguintes: pensar, falar, ouvir, escrever e ler. (3)
Antes da leitura das letras, ensina Paulo Freire, ocorre, para cada indivíduo, a leitura do mundo. Em suas palavras: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele.” (4)
Ler é “acrescentar às experiências da própria vida as experiências dos outros” (BELLENGER,1979, p.16), é também, segundo o mesmo autor, “armar-se para falar, discutir, negociar, lutar”. (5) E mais: “Ler é compreender com os olhos, desejar, apropriar-se de experiências e de informações.” (6)
É fácil aprender a ler? Será que basta juntar letras e palavras que formam frases e concluir, com ingênua certeza, dizendo para si mesmo: “já sei ler”?
Sobre isso, vale lembrar o que disse o genial poeta JOHANN WOLFGANG VON  GOETHE: “As pessoas não sabem o quanto custa em tempo e esforço aprender a ler. Trabalhei nisso durante 80 anos e ainda não posso dizer que tenha conseguido” (apud Bellenger, 1979 p.105).   
Compreende-se a assertiva  de Goethe pelo alcance e possibilidades de diferentes leituras de textos e contextos, em razão de cada leitor trazer consigo, fruto da leitura prévia do mundo, compreensões prévias ou pré-compreensões (7) que interferem nas suas interpretações tanto dos textos quanto dos contextos em que se situa historicamente como leitor e intérprete, isto é, no tempo e no espaço que condicionam, mediante múltiplas circunstâncias, o aprendizado da leitura e o acesso  aos diversos níveis em que esta pode ser  realizada.  
O tema “leitura” se conecta diretamente com o da educação. Pois esta é o caminho único para o pleno desenvolvimento da pessoa, acesso à cidadania   e à qualificação profissional. (8) Não há possibilidade de leitura textual sem a educação. 
Aprender a ler significa compreender signos e enxergar para além destes. As letras do alfabeto são sinais gráficos que não têm um fim em si mesmos. São mediadoras da comunicação entre os humanos. (9) Comunicação de ideias, experiências, ciências, artes, crenças, valores, conhecimentos de todas as áreas e sentimentos das mais diversas matizes. Consequentemente, sem o aprendizado da leitura, tais sinais gráficos tornam-se inacessíveis à compreensão; a comunicação se vê limitada e o acesso à plena participação no convívio social e nos bens dele decorrentes torna-se quase impossível à pessoa analfabeta. O ato de ler pressupõe o fenômeno da linguagem e a linguagem, consoante lembra a antropóloga e pesquisadora francesa MICHÈLE PETIT, “não pode ser reduzida a um código, a uma ferramenta de comunicação, a um simples veículo de informações. A linguagem nos constitui. Quanto mais somos capazes de dar um nome ao que vivemos, às provas que enfrentamos, mais aptos estaremos para viver e tomar certa distância em relação ao que vivemos, e mais aptos estaremos para nos tornarmos sujeitos de nosso próprio destino. Podem nos quebrar, nos mandar embora, nos insultar com palavras e também com silêncios. Outras palavras, porém, nos dão lugar, nos acolhem, nos permitem voltar às fontes, nos devolvem o sentido de nossa vida.  E encontramos nos livros algumas dessas palavras que nos restauram. Em particular em obras cujos autores tentaram transcrever o mais profundo da experiência humana, desempoeirando a língua.  Ter acesso a elas não é um luxo: é um direito, um direito cultural, como o acesso ao saber. Porque talvez não haja sofrimento pior do que ser privado de palavras para dar sentido ao que vivemos”.(10)
As possibilidades do livre desenvolvimento da leitura têm forte dependência dos regimes políticos. Daí as conexões entre leitura e política, conforme se vê nas palavras do célebre escritor argentino ALBERTO MANGUEL, ao afirmar que “os regimes populares exigem que esqueçamos, e portanto classificam os livros como luxos supérfluos; os regimes totalitários exigem que não pensemos e, portanto, proíbem, ameaçam e censuram; ambos, de um modo geral, exigem que nos tornemos estúpidos e que aceitemos nossa degradação docilmente, e portanto estimulam o consumo de mingau. Nessas circunstâncias, os leitores não podem deixar de ser subversivos.” (11)
Ler é ato de emancipação, de independência e de libertação do jugo da ignorância. Ter acesso à leitura possibilita a interpretação e compreensão de si e do mundo, mediante o diálogo universal que produz e comunica conhecimento; conhecimento este que se multiplica e se renova a cada nova descoberta e diante de novas interpretações, explicações e compreensões dos fenômenos tanto naturais quanto humanos.  
Por isso, todo obstáculo à leitura - seja político, econômico ou de qualquer natureza -   é também obstáculo ao progresso humano, à liberdade de aprender, de ensinar, de escrever, de falar, de pensar... Em síntese, de ser e viver como uma pessoa autônoma.  
A história nos mostra que, ao longo de séculos, “enquanto a Europa continuava a desenvolver técnicas de impressão, tendo em vista o objetivo de atingir um público leitor e consumidor cada vez mais vasto nos diferentes continentes, o Brasil, diante dos interditos estipulados pela metrópole portuguesa, salvo exceções, passava ao largo desse processo. Diferentemente do governo espanhol, que autorizava a abertura de estabelecimentos gráficos em suas colônias na América, a metrópole portuguesa, até a vinda da família real, em 1808, proibiu expressamente qualquer tipo de reprodução impressa em todo o território nacional, por temer uma possível propagação de ideias políticas progressistas e revolucionárias. Assim, durante o período colonial, as pessoas que aqui viviam precisavam importar de Portugal os livros que desejavam, enfrentando, com isso, uma série de trâmites burocráticos, os custos do transporte e a censura lusitana, primeiro concentrada nas mãos da Inquisição, depois comandada pelos funcionários da Real Mesa Censória, criada em 1769. Esse sistema de muitas hierarquias evidentemente afastou a grande maioria da população brasileira de um contato mais próximo e rotineiro com o texto impresso.”(12)  Evidentemente que o saldo de tais obstáculos ao aprendizado e à prática da leitura ao longo de séculos  -  somado ao regime de  escravidão oficialmente vigente até 1888 -  concorreu para o atraso  do acesso à educação pela maior parte da população brasileira, chegando-se ao final do século XX com graves desafios a serem superados mediante a democratização do acesso à educação, hoje considerada direito fundamental, dever do Estado e da família, a ser promovida e incentivada com  a colaboração da sociedade. 
E nem poderia ser diferente diante dos compromissos constitucionais assumidos pelo País com o regime democrático.  Sem educação não há condição de possibilidade para a formação de leitores. (13) Sem leitores, os textos escritos não ganham sentido.  Infelizmente, segundo recentes dados do IBGE, o Brasil ainda conta com 11(onze) milhões de pessoas que não sabem ler.  É verdade que com a chegada da Internet, abre-se um leque imenso de acesso à leitura em plataformas digitais.  Todavia, sem o leitor crítico, bem formado e informado, como fazer bom uso da rede mundial de computadores? Como decidir por escolhas construtivas e criteriosas a respeito do que vale a pena ler, no escasso tempo disponível à vida de cada pessoa? Assim, vê-se que o tema leitura apresenta múltiplas dimensões e se entrelaça com vários outros assuntos vizinhos, tais como:  poder, educação, política, políticas públicas, governo... E, principalmente, com o grau de valorização da carreira do magistério e do professor, pois sem este, obviamente, não se aprende a ler nem a se capacitar para qualquer profissão que exija contato com a escrita.  Ademais, leitura exige criação de espaços públicos que incentivem sua prática para todas as faixas etárias, com ênfase nas crianças e jovens, para que desde tenra idade desenvolvam o amor, a paixão, o gosto pela leitura e pelos livros.  Isso pode ser feito não apenas por meio da sempre valiosa e tradicional biblioteca pública, mas, também, em parques, praças, paradas de ônibus, salas de espera (ex. consultórios, rodoviárias, aeroportos...), locais similares e, inclusive, por meio de bibliotecas itinerantes. Há uma diversidade de ambientes que   podem ser aproveitados para o exercício da leitura, desde que se criem estratégias adequadas para tanto.  Tal empenho é indispensável para estimular a leitura e a formação de novos leitores.  
Para concluir, cabe frisar que ler e bem interpretar para compreender são exigências básicas para a construção de uma sociedade democrática, conforme delineada na   Constituição de 1988. Mas, infelizmente, o texto desta ainda é desconhecido por   milhares de brasileiros. Seja pela incapacidade de leitura por aqueles que não sabem ler (analfabetos ou analfabetos funcionais) ou pela falta de interesse de tantos   que já sabem ler, mas, apesar disso, carecem de uma efetiva formação para o exercício da cidadania que os ajude a compreender o valor da Constituição para a realização da Democracia, no convívio político-social.     Por se tratar da Lei Maior, a Carta Magna do País, além de disciplinar o exercício democrático do Poder estatal, estabelece os direitos e deveres fundamentais de toda pessoa. O acesso ao seu texto, a compreensão do seu significado para o povo brasileiro- seu autor originário e titular do poder (14) - também depende e dependerá sempre de sua leitura. É possibilidade e não realidade ainda para milhões de brasileiros. Todavia, poderá concretizar-se na medida em que houver mais empenho da sociedade e de suas instituições em prol da libertação de todos aqueles que ainda vivem na escravidão do analfabetismo. É o que está posto na Constituição de 1988, ao especificar dentre os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil a “erradicação da pobreza e da marginalização”, bem como a “redução das desigualdades sociais e regionais” (art. 3º, III).  Ora, é óbvio que o analfabetismo concorre não apenas a favor da pobreza, mas é protagonista da miséria. Ademais, cabe perguntar: quem mais do que o analfabeto fica à margem do progresso humano? Portanto, urge que o País supere - com o obrigatório empenho de seus governantes, não apenas porque estão eles sob a égide da Constituição Federal, como todos os cidadãos, à qual juraram observância, ao assumirem os cargos públicos e de toda a sociedade - a vergonhosa estatística que ainda revela a existência de milhões de brasileiros excluídos do acesso à educação de boa qualidade e, consequentemente, marginalizados em relação à leitura.  Se bem compreendido o papel da leitura, pode-se afirmar que ela é como uma porta que se abre a todas as formas de conhecimento. Obter conhecimento é direito de toda pessoa (15) por ser básica necessidade humana.  Por isso, a ninguém é conferido o direito de fechar a porta de acesso ao saber e menos ainda de esconder sua chave. E tal chave de acesso ao conhecimento e à civilização chama-se LEITURA. 
Notas: 
(1) HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 1ª reimp. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
(2) CARNEIRO, Marcelo Motta. O Progresso na Arte de Ler: o método dinâmico. Curitiba: Gráfica Vicentina, 1984, p.9.
(3) Idem, ibidem.
(4) FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler, 30ª ed. São Paulo: Cortez, 1995, p.11.
(5) BELLENGER, Lionel. Os Métodos de Leitura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p.16.
(06) Idem, p.105.
(7) Pré-compreensão é um dos conceitos centrais no âmbito da hermenêutica filosófica desenvolvida pelo filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002), a partir de contribuições de Heidegger (1889-1976) sobre o tema. Cf. a tal respeito: GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método: Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis/RJ: Vozes,1997, p.403-404 e 578.
(8) A Constituição da República Federativa do Brasil assim dispõe a respeito da educação, em seu artigo 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. 
(9) Sobre tal assertiva, cabe lembrar o que diz David K. Berlo (1929-1996), teórico americano das comunicações: “na comunicação humana, a mensagem existe em forma física- a tradução de ideias, objetivos e intenções num código, num conjunto sistemático de símbolos. Cf. BERLO, David K. O Processo da Comunicação: Introdução à Teoria e à Prática. São Paulo: Martins Fontes,1999, p.30.
(10) Cf. PETIT, Michèle. LEITURAS: Do Espaço  Íntimo ao Espaço Público. São Paulo: Editora 34, 2013, p.
(11)Cf. Apud MARIA, Luzia.  O Clube do Livro: ser leitor- que diferença faz? São Paulo: Globo, 2009, p. 39. 
(12) Cf. EL FAR, Alessandra.  O Livro e a Leitura no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge  Zahar, 2006 (col. Descobrindo o Brasil), p. 11/12.
(13) Para aprofundamento no estudo do processo de leitura e a formação de leitores, cf. REZENDE, Lucinea Aparecida de. Leitura e Formação de Leitores: vivências teórico-práticas. Londrina: Eduel,2009.  Ao acentuar a relevância da leitura no processo educacional, ressalta a  autora que “se ela [a leitura], matéria-prima no processo de ensino e aprendizagem, estiver bem, tudo o mais terá maior probabilidade de êxito”. (p.137).
(14) Diz a Constituição da República Federativa do Brasil, em seu artigo 1º, parágrafo único: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos, ou diretamente, nos termos desta Constituição.”
(15) Aristóteles, nas primeiras linhas da obra Metafísica, afirma: “ Todos os homens, por natureza, tendem ao saber”. Cf. Aristóteles. Metafísica, vol II, Livro A (primeiro), 980ª. São Paulo: Loyola, 2002, p.3.

* Sergio Alves Gomes é Doutor em Direito: Filosofia do Direito e do Estado, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Professor Associado da Universidade Estadual de Londrina (Departamento de Direito Público), na qual é também Professor colaborador do Programa de Mestrado/Doutorado em Direito Negocial; Magistrado (Juiz de Direito aposentado) e Ocupante da Cadeira 36 (Patrono: Hugo Gutierrez Simas) da Academia de Letras, Ciências e Arte de Londrina.


Violão Clássico
Natanael Fonseca*
Nossa Academia contou com o privilégio de receber Natanael Fonseca e seu violão, brindando-nos com a belíssima apresentação de "Variações sobre um tema de Mozart", de F. Sor (Fernando Sor), que pode ser apreciada no vídeo a seguir:


* Nascido no estado da Bahia, Natanael Fonseca tem a sua trajetória musical dividida entre o violão erudito e a viola de arco. 
É mestre em violão erudito pela Universidade de Aveiro (Portugal), fez licenciatura e especialização em música pela Universidade Estadual de Londrina, onde também lecionou nos anos de 2006 à 2008 nas disciplinas de percepção musical e violão. 
É violista da OSUEL desde 1991 e da Orquestra de Câmara Solistas de Londrina desde sua fundação, com a qual participou da gravação de seus cinco discos além de diversas turnês, destacando o Festival de Verão de Varna/Bulgária em 2010. 
Apresentou-se em recitais de violão em Portugal e Espanha, e como solista nos concertos para violão e orquestra de Mário Castelnuovo Tedesco, Heitor Villa-Lobos e Anton Garcia Abril com a orquestra Sinfônica da UEL e dos concertos de A. Vivaldi e J. L. Krebs com a Solistas de Londrina.


Morte: a estética da finitude
Acadêmico Clodomiro Bannwart*

Jesus foi o cacho perfeito de nossa humanidade, a boa uva que espremida (morto) produziu o bom vinho, o vinho da longevidade.

Antes de dormir, como de costume, contei uma estória e fiz uma breve e rápida oração para Manuela, minha filha. A estória falava de uma fada que realizava desejos. Então, eu perguntei a ela, caso a fada lhe aparecesse, qual seria o seu pedido. De pronto, Manuela, com seus sete aninhos, respondeu-me: “pediria a ela, pai, que as pessoas não morressem”. Essa resposta, vinda de uma criança, revela o quanto o ser humano gosta e aprecia a vida, algo que Ariano Suassuna insistia em dizer: “somos seres para a vida e não para a morte”.
O filósofo Sócrates, pouco antes de tomar cicuta e despedir-se da vida, disse: “Eis a hora de partir: eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses”. Vida e morte compõem uma relação dialética. Não há morte se não houver vida, pois a vida é a única coisa que a morte pode roubar. A morte só está onde existe vida. Para o filósofo Epicuro, não há razão de preocupar-se com a morte, pois, quando vivemos, a morte não está, e quando ela estiver, nós não existiremos mais. É como se a morte e a vida nunca pudessem encontrar-se. Mesmo que o argumento de Epicuro tenha a pretensão de servir de consolo e de amparo, Sêneca, um filósofo estoico, afirmava que o problema não é a morte em si, pois não é da morte que temos medo, mas de pensar nela. Essa é a questão! Talvez o homem seja o único ser na natureza capaz de pensar na morte. Dráuzio Varella traduziu essa angústia ao inferir que é insuportável ao ser humano pensar que, a partir de um determinado momento, estendido por toda a eternidade, ele nunca mais abrirá os olhos.
A morte é, de fato, trágica. E, segundo Theodore Roosevelt, assim ela deve ser porque, do contrário, provaria ser a vida uma tragédia. É justamente o gosto que nutrimos pela vida que torna a morte trágica. Porém, se há algo de positivo na morte é que ela é pedagógica e ensina, segundo o escritor americano Leo Buscaglia, a transitoriedade de todas as coisas. Um dia, numa aula de filosofia, o professor colocou a seguinte indagação: imagine que a morte não exista e que viveremos para sempre essa vida. Será que nós teríamos a mesma percepção da vida tal como temos na condição de mortais? Provavelmente, não! Até porque ambicionamos mais do que simplesmente viver, desejamos uma vida plena, algo que não alcançamos nessa vida tal como a conhecemos, em razão de nossas limitações e de nossas contingências. É a velha máxima de Confúcio: “Para que preocuparmo-nos com a morte, se a vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro”.
A morte é um mistério que desafia permanentemente o conhecimento que temos do mundo e de nós mesmos. É certo que conhecemos muitas coisas, mas negligenciamos o conhecimento que temos a nosso respeito. A ciência pretende, até 2030, alcançar determinado domínio sobre Marte. A viagem, se viabilizadas as condições para isso, consumirá aproximadamente oito meses. Um percurso de milhões de quilômetros. Ainda assim, temos dificuldade de percorrer a estrada mais curta que marca nossa frágil existência, aquela estradinha íngreme, pouco explorada, que conecta mente e coração. Conquistamos o espaço, exploramos as estrelas, mas nos perdemos com frequência nessa estradinha. E é nessa estradinha que vivemos ou morremos. Não há GPS que nos guie em segurança ou avise, com antecedência, os contratempos do percurso. O medo muitas vezes impede de apreciar a vivacidade da travessia. Pouco sabemos das estrelas que habitam o nosso interior, talvez por receio da penumbra que há dentro de nós. Charles Beard dizia que a escuridão profunda é condição indispensável para ver as estrelas. E que triste seria nosso caminhar – parafraseando Mario Quintana –, não fosse a presença das estrelas que, mesmo brilhando distantes, iluminam nossos passos. Se a morte é associada à escuridão, ainda assim precisamos dela para enxergar a claridade e a vivacidade da vida. A religião e a filosofia sempre contribuíram para que o ser humano pudesse encontrar essa luz.
Na concepção dos filósofos gregos, a natureza é portadora de teleologia. Afirmavam que na natureza nada existe destituído de finalidade. Tudo concorre para um determinado fim, para a realização de um fim (telos). À execução do fim a que cada coisa se destina dá-se o nome de Káiros (tempo oportuno, tempo da plenitude). A plenitude do pé de uva, por exemplo, acontece no momento oportuno de colher a uva boa, aquela que será transmutada em vinho, a bebida perfeita dos deuses e preferida dos homens. Porém, não se faz o bom vinho sem esmagar a uva. Na concepção da teologia cristã, devedora da filosofia grega, Jesus foi o cacho perfeito de nossa humanidade, a boa uva que, espremida (morto), produziu o bom vinho, o vinho da longevidade, o vinho da vida festiva na sua mais alta plenitude.
Jesus, sob o prisma da fé, mostra que, dialeticamente, da morte, colhe-se a vida. Paradoxalmente, o Káiros de Jesus foi a morte, porém, uma morte revestida de plenitude e de graça. Por essa ótica, podemos entender que a vida é perpassada pela morte e que na morte está a vida, e vida em abundância. Eis o mistério, talvez o maior, da fé Cristã. Perceber isso não é pouca coisa. Como bem expressou o escritor Flaubert “talvez a morte tenha mais segredos para nos ensinar que a vida”.

O presente texto faz parte do livro "Entre a vida e a morte. O que colhemos no caminho?", organizado por Clodomiro Bannwart, que será lançado em junho de 2021 pela Editora Engenho das Letras, com prefácio assinado pelo filósofo Mario Sergio Cortella.

* Clodomiro José Bannwart Júnior é Professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina e membro efetivo da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina, desde 2014.


"Kant e ‘Lições de Ética’: um relato do itinerário da tradução de um clássico do pensamento ocidental"
Prof. Charles Feldhaus*

Nessa palestra se pretende elucidar alguns aspectos biográficos do pensamento de Immanuel Kant com ênfase na descrição de todo o processo de tradução da obra Lições de ética, publicada pela Editora da Unesp em 2018, e que chegou a finalista do Prêmio Jabuti na categoria traduções em 2019. Será elucidado a natureza do texto traduzido, uma vez que se trata de um material não escrito pelo próprio pensador, mas sim num conjunto de anotações de aula dos alunos que puderem assistir as próprias aulas de filosofia moral na Universidade em que Kant era professor. Como  os tradutores Charles Feldhaus e Bruno Cunha chegaram à ideia de traduzir a respectiva obra, quanto tempo demorou, algumas dificuldades e desafios do processo de tradução, entre outros aspectos. Há também algumas observações sobre o conteúdo da obra.
Veja o vídeo da palestra:


* Charles Feldhaus é professor Associado da Universidade Estadual de Londrina, Doutor em filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Pósdoutor em filosofia pela Martin Luther Universtitaet Halle Wuttenberg. É autor dos livros Direito e moral. Três estudos sobre a filosofia moral de Kant (2007),Natureza Humana, liberdade e Justiça. Um estudo a respeito da posição de Habermas acerca da biotécnica (2011) e Versos à Lira (2019).
_________________________________________

Proteja-se contra o Covid 19. 
Você também estará protegendo 
a sua família e os seus amigos

REUNIÃO NA MODALIDADE REMOTA EM 14/03/2021

ABERTURA

Acadêmica Ludmila Kloczak
Caros acadêmicos, acadêmicas e convidados à reunião ordinária da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina, em 14 de março de 2021. Sejam bem-vindos!
Neste mês comemoramos o Dia da Mulher! É um dia para lembrar o longo processo de conquista de autonomia e independência da mulher para gerir o próprio destino. À medida em que a mulher passa a ser necessária para a organização e funcionamento da sociedade urbana e industrial, importantes mudanças na relação desta com a família, casa e trabalho se tornam necessárias. Para fazer face à dedicação e responsabilidades concernentes ao exercício profissional, a sociedade também se organiza para cuidar dos filhos através de creches, na primeira infância e escolas, de preferência em tempo integral, posteriormente. Não há como evitar a dupla jornada de trabalho para que a vida doméstica funcione o suficiente para manter a família. Aos poucos, os homens estão a ser preparados para partilhar dessas responsabilidades que são do casal. Ambos trabalham e cabe aos dois cuidar da rotina da vida. É uma engrenagem que, na medida do possível, atende a todos e equilibra os espaços do lar e do trabalho. 
Surge inesperado inimigo, invisível e onipotente. Além de infectar as pessoas, produzir sintomas terríveis e sequelas, algumas vezes irreversíveis, pode levar vidas. Para enfrentar a pandemia, a sociedade precisou tomar medidas sanitárias radicais que alteraram o funcionamento ordenado e previsível ao qual os indivíduos, homens, mulheres - crianças, jovens, adultos e idosos - estavam habituados. 
Ao se romper um campo de representações que ordenam e identificam o lugar das pessoas na sociedade, o seu efeito mais importante incide sobre a identidade das pessoas. Como estamos no mês da Mulher, gostaria de comentar este efeito sobre as mulheres. Todos tivemos que nos isolar, permanecer dentro de casa. Entretanto, a escola funcionou on-line. O trabalho, na maioria das modalidades, foi atendido home office, ou seja, de casa na forma virtual. Na maioria das vezes, as mães tiveram que acompanhar os estudos dos filhos, como assistentes da professora. As mulheres tiveram que assumir uma identidade que jamais imaginariam exercer. Ao mesmo tempo, o trabalho chama. É muito difícil aos filhos entender que a mãe está a trabalhar frente ao computador e que nesse horário ela não poderá ser solicitada. Trabalho e vida doméstica se misturam, como um efeito significativo da ruptura destes campos. Seus limites se interpenetram. A mulher que mantem suas identidades, mais ou menos, equilibradas em tempos de estabilidade, se vê lançada numa confusão identitária. Nem é a profissional à qual estava habituada, nem é a mãe que costumava ser para os seus filhos. 
Creio que um dos aspectos ao qual teremos que dispender muita atenção e cuidados após a pandemia, será esta instabilidade identitária a que a mulher foi submetida. Muitas vezes, surge um sentimento de não reconhecimento de si e uma necessidade urgente de se reorganizar internamente. 
Precisamos considerar que, quando esta experiência que sacudiu o mundo for superada, todos nós, e a mulher em particular, seremos outros. Já estamos a viver o luto de quem fomos e não sabemos que novas versões de nós mesmas surgirão de dentro de nós.   
Aproveito a ocasião para ler uma trova enviada pelo acadêmico Jorge Fregadolli, da Academia de Letras de Maringá:
A mulher inteligente,
De visão...capacitada,
Passos firmes, vai em frente:
Conquista a sua jornada.
Muito obrigada e aproveitem a reunião.

DEMOCRACIA E VIVÊNCIA DEMOCRÁTICA

No momento “PALAVRA DO ORADOR”, o Acadêmico e Orador SERGIO ALVES GOMES* fez sua comunicação apresentando o que considera como requisitos  indispensáveis ao significado e prática da Democracia.
No introito de tal temática, lembrou o Orador que, em diversas comunicações expostas em reuniões anteriores, vários temas conexos com o da democracia foram objeto de reflexão, tais como: a maioridade ética e política do indivíduo, o poder, a tolerância, os direitos humanos e fundamentais. A compreensão do significado e relevância de tais temáticas, segundo o Orador, é indispensável para se compreender a democracia como princípio que está na base do Estado Democrático de Direito, instituído pela República Federativa do Brasil, em 05 de outubro de 1988 (CRFB, art. 1º, “caput”).  Segundo Gomes, a vivência democrática (1) caracteriza-se por uma multiplicidade de requisitos. Dentre estes, como indispensáveis os seguintes: consciência das dimensões individual e social, inerentes a todo ser humano; liberdade de pensamento e de expressão; maior participação possível dos interessados – entendendo-se como tais todos aqueles que, de alguma forma, serão atingidos pelas decisões – nas discussões das questões que exigem deliberação; práticas garantidas do livre debate, em torno das questões de interesse individual e social a fim de influenciar positivamente a tomada de decisões razoáveis e justas que interessem ao bem comum; efetiva vontade de quem exerce o poder, em qualquer de suas esferas, de empregá-lo tão-somente em benefício da coletividade, segundo os fins por esta previamente estabelecidos na Constituição e o compromisso ético-jurídico-político de respeitá-la; procedimentos institucionais eficientes para fiscalizar a atuação ou ausência da referida vontade de democracia e “de constituição”; temporariedade dos governantes no poder; equilíbrio entre os poderes político, jurídico e econômico e o indivíduo, de sorte a não se transformar este em objeto nas mãos daqueles mas, sim, em sujeito de direitos fundamentais civis, políticos, econômicos, sociais, culturais, ecológicos... a serem salvaguardados e promovidos pela ordem jurídica nacional e internacional; respeito ao pluralismo de concepções ideológicas, religiosas, políticas e filosóficas em geral; exercício da tolerância; não massificação do sujeito, mediante o reconhecimento de sua individualidade e personalidade, de modo a sentir-se valorizado como pessoa humana e capaz de participar na construção da sociedade democrática; permanente empenho a favor da supressão das desigualdades materiais, superação da pobreza, mediante políticas públicas adequadas e eficientes; eliminação de preconceitos, seja em razão de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação; predisposição embasada no princípio da solidariedade humana para atuar sempre a favor dos menos favorecidos a fim de se tornarem capazes de autopromoção e também de se verem reconhecidos como sujeitos dotados de dignidade e merecedores de consideração e respeito como todos os demais indivíduos.
Após apresentar tais requisitos inerentes à ideia e à realização concreta da democracia, o Orador teceu alguns comentários sobre alguns destes requisitos, para enfatizar sua importância em tal empreitada e agradeceu a todos pela atenção e devolveu a palavra ao cerimonial da reunião. 

(1) O texto referente à “vivência democrática” é um excerto da seguinte obra: GOMES, Sergio Alves. HERMENÊUTICA CONSTITUCIONAL: Um Contributo à Construção do Estado Democrático de Direito. Curitiba: Juruá, 2011, 3ª reimpressão, p.245.

* Sergio Alves Gomes é Doutor em Direito: Filosofia do Direito e do Estado, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Professor Associado da Universidade Estadual de Londrina (Departamento de Direito Público), na qual é também Professor colaborador do Programa de Mestrado/Doutorado em Direito Negocial; Ocupante da Cadeira 36 (Patrono: Hugo Gutierrez Simas) da Academia de Letras, Ciências e Arte de Londrina. 

“Um inefável tributo à força da arte e da presença de Saide Maruch”
Acadêmica Fátima Mandelli

Amiga confreira da nossa Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina.
Nascida na pequena e linda cidade de Congonhinhas em 03/03/1941.
Saide era a primeira filha de Elias Salim Maruch, de descendência libanesa, e Iva Duarte Maruch, de origem brasileira. Na infância cresceu entre os mirris bucólicos de Congonhinhas; na pré-adolescência estudou no internato do colégio São José em Castro, PR e gostava muito da arquitetura das salas de aula onde ali aflorou sua veia artística. Posteriormente estudou no Colégio Imaculada Conceição, onde encontra na irmã Inês Almeida acolhida da figura materna, criando laços de amizade com a mesma. Nos anos 50 a jovem Saide debutava com simpatia, glamour e elegância nos principais salões da casa de chá na capital paranaense, Curitiba. Formou-se em artes e especializou-se em artes plásticas; nos anos 70 lecionava como professora da rede pública estadual e ministrava  aulas de  pintura em seu ateliê, atividade esta que realizou por mais de 36 anos no Ateliê Saide Maruch em Londrina. Casou se na década de 70 e teve três filhos: Isabelli Karime, José Ricardo, Alexandre (in memória) e 5 netos. Deixando seu eterno amor e dedicação aos mesmos. Durante seus 65 anos de profissão deixou sua marca, seu carinho e dedicação por portadores de necessidades especiais e idosos. Outra característica de Saide foi a promoção da cultura e das artes plásticas através de doações de bolsas para pessoas menos favorecidas em seu ateliê. Sua história é pontilhada de grandes lutas, vitórias, carisma pelo reconhecimento nas searas profissionais e pessoais e foi preciso transformar lágrimas de alegria e dor para suas pequenas e delicadas mãos e transformar o preto e branco em colorido. 
Saide pertencia à nossa Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina, ocupando a Cadeira No. 6, cujo patrono é Cândido Portinari, grande artista plástico brasileiro. Saide também era membro atuante do Elos Clube da comunidade lusíada em Londrina. Expôs suas obras em vários salões nacionais e internacionais, sendo premiada com medalhas de ouro, prata e bronze. 
Tendo sempre em suas mãos tintas, pincéis e paleta, Saide Maruch Elias deixa um valioso legado de inúmeras telas espalhadas pelo mundo, numa vasta e admirável criação artística, segundo a crítica de arte portuguesa Anabel Paul: “A arte que se impõe pela leveza dos traços modernos é desenvolvida através de uma formulação estilizada onde a imagem e o sentido plástico e atualizado e de bom gosto definem a sua grande e valiosa qualidade artística”.
Saide faleceu em fevereiro e nos deixa uma imensa saudade. Foi um belo exemplo de mulher, de mãe, avó, professora, artista plástica e a tivemos por décadas na nossa Academia, deixando um legado de luta e valorização.
Mulher que faz a diferença em nossa vida e em nosso país, 
Gratidão, Saide Maruch!


Nosso Momento de Arte contou com o pianista Marcos Gonçalo Rebelato, jovem ainda, mas com qualidades artísticas surpreendentes. Gonçalo brindou os participantes com o "Recital de Piano de Erudito", apresentando músicas clássicas que enriqueceram a reunião da nossa Academia.



Nascido na capital paulista, Gonçalo iniciou seus estudos de piano em 2005, aos seis anos.
Desde 2013, Gonçalo Rebelato tem participado de Masterclasses com nomes importantes da música erudita, tal como Julija Botchkovskaia, Olga Kiun e Horácio Gouveia, em cinco edições do Festival Internacional de Música de Londrina. 
Em 2018, recebeu congratulações dos pianistas Johanna Heutling, professora no “Dr. Hoch’s Konservatorium” (Frankfurt, Alemanha), e Artur Cimirro, compositor e crítico de arte gaúcho, pela execução de duas obras autorais: Seis minuetos e Suíte mirim em Dó Maior.
Em 2018, foi premiado como destaque regional pelo Ciclo dos Saberes pela Folha de Londrina e em 2020, foi um dos 22 selecionados para participar da IV Oficina de Piano da USP na categoria Masterclass.
Atualmente, aos 21 anos, Gonçalo é aluno do segundo ano do curso de Licenciatura em Música com ênfase em arranjo e composição na UEL, estudante de línguas e atua como professor de piano, teoria e composição em escolas de música. Mantém aulas com o professor doutor Jailton Santana da Universidade Estadual de Londrina.

"A expressão sem pressão"
Lu Oliveira *

Um grande desafio é falar para os membros da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina, uma vez que os considero grandes personalidades em nossa cidade. Quantas conquistas cada um tiverem para chegar até aqui, não é? Por isso também o meu respeito e reconhecimento.
E desta forma começo minha explanação: pelas conquistas e lutas. As conquistas e lutas femininas. Aquilo que nós passamos e ainda estamos passando.
Nós mulheres ainda estamos em luta. 
Uma luta sem armas de fogo, mas com armas que temos a nosso favor para a conscientização. Os movimentos que lideramos são revolucionários sim, mas o que seria deste planeta sem as revoluções? Pois a história nos mostra que quando estamos desconfortáveis, lutamos por mudança. E é no debate que estimulamos novas formas de pensar. O Dia Internacional da Mulher e todo o mês de março nos alerta para que continuemos a usar nossa voz mais além, como pelos direitos de todos. Por isso "A EXPRESSÃO, SEM PRESSÃO" é o tema dessa nossa conversa. 
Quem imaginaria que ainda encontraríamos resistência se pudéssemos voltar no tempo da história da nossa luta para sonhar com nosso futuro? O que pensariam as mulheres brasileiras de 1879 que ganharam o direito de cursar uma faculdade naquele ano, se nos encontrassem hoje na data atual? A luta dessas mulheres foi válida para estarmos onde estamos hoje. Conseguem imaginar a felicidade das mulheres em 1932 que ganharam o direito de votar? imagino o que passava em suas mentes quando vislumbravam o futuro que nos pertence agora. Muitas foram as conquistas dos nossos antepassados para que hoje fôssemos do modo que desejamos ser. 
Nossas vitórias marcaram época e modificaram nossos costumes. Como a Lei Maria da Penha de 2006, que combate a violência doméstica e aborda não apenas a violência física, mas também psicológica, sexual e patrimonial. Não é fácil ser mulher. Não é fácil carregar no próprio corpo a marca da opressão e do ódio, como é o caso da Maria da Penha, paraplégica após sofrer agressões do próprio marido por anos. 
Aquilo que oprime merece libertação. E a liberdade pode começar quando nos posicionamos como únicas criadoras da nossa estrada.
Você tem se expressado? Como você tem se expressado? Nossos direitos e liberdades se fortalecem à medida que nos expressamos. 
Hoje vale tudo. Redes sociais, sites, jornais, rádio, tv, teatro, cinema… valem todas as formas de expressão em busca da liberdade coletiva.
Eu tive o privilégio de ter nascido de uma mãe paraibana e de um pai paranaense caminhoneiro. 
Aqui no Paraná ela trabalhou de doméstica, manicure, e ainda faxinava a casa da sogra por obrigação da mesma que não a respeitava por ser nordestina, pobre e estar grávida de meu pai. O bullying social, étnico, intelectual fizeram de minha mãe uma fortaleza. Com apenas metade do ensino fundamental concluído, ela criou duas filhas e ergueu 3 empresas. Presenciei suas vitórias e suas derrotas. Presenciei seu sotaque desaparecendo para sobreviver num mundo de aceitações, e agora, o chamado cancelamento. Mas o que nos torna verdadeiramente únicos é a capacidade que temos de raciocinar, de pensar, de filosofar. E desenvolvemos essa habilidade nos comunicando cada vez mais e mais, conversando cada vez mais e mais, ouvindo cada vez mais e mais.
Fui comunicadora em um programa de TV, com foco no entretenimento por 9 anos. Qual a imagem que fica de uma apresentadora loira em um programa vespertino? Para muitos, a futilidade. Pagamos caro pela cor do cabelo não ser da “cor” da inteligência. Pagamos caro pelo tamanho do quadril ter mais relevância que as considerações sobre política. Pagamos caro quando somos substituídas por termos convicções diferentes das dos homens. Imagine então mulheres negras, pobres, sem estudo, deficientes físicas….
Lembro-me de algumas situações em que precisei falar alto e bater com a mão na mesa para ser ouvida em uma reunião. Eu precisava falar assim? Não, não precisava. Mas eu seria ouvida de outra forma? Não, não seria.
Quando digo que minha trajetória como professora de ginástica e personal trainer por mais de 17 anos resultaram em ministrar cursos de formação para professores na Argentina, na França, e em quase todos os estados brasileiros, a tendência são olhares de cima para baixo e vice-versa. De homens? Não. De mulheres também. Vibrar com as conquistas femininas é mais uma barreira a ser vencida. “Ela não me representa” é a frase mais usada ultimamente. Pra mim, toda mulher que vence qualquer tipo de barreira me representa, representa o meu direito de ir, de vir, de voltar e de ir novamente. Pressão feminina sobre uma mulher é um mal que deve ser combatido. 
Conceitos que vão sendo criados e regados ao longo da vida. Conceitos e mais conceitos que vão invadindo nossa vida feminina, nos reprimindo e enaltecendo o poder machista. “Você vai sair com esta roupa?” “Você não acha que este batom está chamando muita atenção?” “Mulher minha não faz isso…” “Mulher minha tem que ser assim…” E nós, mulheres, crescemos com medo da rejeição. "Será que ele vai me querer se eu usar esmalte vermelho?" "Será que eu sou boa o suficiente pra família dele?" "Será que ele me deixou porque eu não fazia sexo todo dia?" Quantos conceitos criados e reproduzidos ao longo da vida. As mulheres também dizem: “Você viu quem divorciou? O fulano largou dela... mas também né, ela nem maquiagem usava, nem arrumava o cabelo!"
Quanta pressão!
O ano de 2020 foi marcante para muitos. 
Pra mim, além da tristeza por essa pandemia, um ano de incertezas após minha demissão em janeiro até o início da candidatura à vereadora de Londrina aos 45 do segundo tempo. "Será que devo ir?” Esta foi a pergunta sem resposta durante os 4 meses que se passaram após o convite para ingressar na política da cidade. Por lei, os partidos devem destinar 30% das vagas para pessoas do sexo feminino. Mas em um ambiente, historicamente dominado por homens, alguns subestimam a imagem da “loirinha da tv”. Cansa! Cansa ser mulher! Até quando será necessário gritar que sou de gêmeos, com ascendente em escorpião, filha de paraibana e que já capei um boi? Por isso é de se entender que mulheres no poder evitam mostrar os dentes pela necessidade de serem respeitadas. É também de se entender que o respeito vem, nestes casos, com uma fala mais grossa, um apertar de mão firme, palavras duras. Mas aí somos taxadas de chata, de grossa, de sapatão. 
Será que ainda nesta geração iremos presenciar essa mudança de conceitos? Espero que sim. 
Espero que todas nós possamos falar, nos expressar, termos nossas opiniões formadas acerca de tudo e quando não tivermos opiniões, termos o direito de emitir uma resposta com total liberdade de pensamento. 
Que todas, todas nós, tenhamos sempre EXPRESSÃO SEM PRESSÃO!
Muito obrigada à todos da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina e ao professor Clodomiro Bannwart que me incentivou à ingressar na política. 
Meu respeito e alegria por ter participado deste momento com todos vocês.
Um beijo no coração e Tudo que Fizer, Faça com Amor.

*Mestre em Qualidade de Vida na Promoção da Saúde.
É vereadora na Câmara de Vereadores da cidade de Londrina, norte do Estado do Paraná, sul do Brasil.
Presidente da Comissão dos Direitos e Bem-Estar da Pessoa Idosa.
Vice presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Defesa da Cidadania. 
Apresentou programas de televisão e rádio com foco em qualidade de vida por 9 anos em canais abertos de grande alcance nacional.
Durante 18 anos foi treinadora Master da Radical Fitness Brasil (empresa Argentina com sede no Brasil), sendo também responsável técnica pelo programa mundial de aula de ginástica com barras e anilhas, o Power Mix. 
Capacitou milhares de professores para a área fitness e wellness em vários congressos no Brasil, Argentina, França e Suíça. 
Através das redes sociais, inspira pessoas a sempre buscarem formas para se viver bem e feliz.


Proteja-se e proteja sua família, 
seus amigos e todos os que estão 
ao seu redor        

Extratos da nossa reunião de 14/02/2021

 Após mais um mês de janeiro em recesso, como é praxe na Academia desde 1979, o segundo domingo de fevereiro marcou o reinício das reuniões mensais, ainda na modalidade remota, dada a continuidade da pandemia.

Jonas Rodrigues de Matos, nosso Mestre de Cerimônias, deu início à reunião e introduziu cada participante 

O Credo Acadêmico da Academia foi lido pelo Acadêmico Miguel Contani


O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana: uma breve reflexão 
Acadêmico Sergio Alves Gomes

Qual o significado da expressão “dignidade humana” e qual sua relevância jurídica, política e social na contemporaneidade?
Sabe-se que a dignidade de todos os seres humanos nem sempre foi reconhecida pela sociedade e continua a ser vilipendiada de muitas formas. No entanto, para defendê-la criaram-se os direitos e as instituições que lhes dão sustentação. E dentre os mais significativos direitos estão aqueles reconhecidos como direitos fundamentais.(1)
Tais direitos, hodiernamente, estão estabelecidos tanto no âmbito de pactos internacionais quanto em textos constitucionais dos Países que assumem o compromisso de realizar a Democracia, enquanto modo de convivência política, ética e jurídica. Não basta que tais direitos estejam descritos nos textos jurídicos. O grande desafio consiste em concretizá-los na realidade da vida. Daí decorre a gravidade da questão democrática alusiva à escolha dos mandatários do poder político, pois as virtudes e os vícios dos escolhidos, sua efetiva formação, seus reais propósitos e o grau de sinceridade com que assumem os programas de ação que anunciam antes das eleições, em suas campanhas pelo voto popular, têm muito a ver com a efetividade ou morte dos  direitos fundamentais. 
É oportuno lembrar - sobretudo nestes tempos de pandemia, em que o direito fundamental à vida é o mais vilipendiado - que, no âmbito das ações humanas necessárias à transformação da realidade, sem o efetivo querer do poder pouco pode o saber. Todavia, no Estado Democrático de Direito, instituído pela Constituição Federal (CFRB. art. 1º), ficam vinculados, jurídica e moralmente, todos os responsáveis pelos destinos do País e de sua população ao que nela está estabelecido, ao lhe serem delimitadas pela Lei Maior as competências constitucionais.  Dignidade é princípio constitucional fundamental que exige respeito aos direitos fundamentais e sua efetiva concretização.(2) Dentre estes a “vida” figura em primeiro lugar (CFRB. art.5°, “caput”) porque sem ela não existe “pessoa” e sem esta não faz sentido se falar em dignidade e menos ainda em outros direitos. Logo, não há dúvida que sua salvaguarda é dever jurídico e moral prioritário em qualquer situação, seja em tempos de bonança ou de pandemia.  E tal prioridade gera graves consequências jurídicas a quem tem o poder-dever de zelar pela vida e direitos a esta conexos, se vier a menosprezá-los ou omitir-se em sua proteção. Consequências estas decorrentes da simples aplicação pelos órgãos institucionais competentes do que está estabelecido no ordenamento jurídico do Estado Democrático de Direito vigente. 
Todas as modalidades de regimes totalitários transformaram em “coisa descartável” as pessoas que não correspondiam às expectativas dos mandatários do regime, tratando-as com menosprezo e crueldade. O holocausto, praticado nos campos de concentração durante a II Guerra Mundial, é um exemplo emblemático de tal história de aniquilação do “outro”, com base em abomináveis preconceitos, sobretudo - embora não apenas - os de natureza racial.   
Cabe frisar que a utilização do Direito e do Estado contra o indivíduo configura criminosa perversão de finalidade, fruto do mau uso do poder. No âmbito do Estado Democrático de Direito, o Direito e o Estado são colocados a serviço do homem. São meios e não fins em si mesmos. Somente o homem, conforme ensina Kant, em razão de sua dignidade, tem um fim em si mesmo. Para o filósofo de Königsberg, somente “coisas” têm preço, “pessoas” são seres dotados, intrinsecamente, de dignidade.(3) 
Dignidade não é direito a ser postulado. É princípio fundamental(4) já reconhecido, tanto no âmbito jurídico interno quanto na esfera internacional, que serve de principal fundamento aos direitos fundamentais (vida, liberdade, igualdade, propriedade, segurança e os com estes diretamente conectados).
Na ordem jurídica vigente, os princípios constitucionais são os pilares básicos de sua sustentação. São as normas de maior relevância das quais irradiam os comandos para todas as demais que integram o ordenamento jurídico. Nenhuma norma pode contrariar um princípio fundamental, sob pena de ser declarada inconstitucional pelo Poder Judiciário, isto é, sem validade jurídica.(5) 
Na Democracia, as instituições – e dentre estas está o Estado - são construções humanas destinadas a contribuir em prol do desenvolvimento e a realização do ser humano como pessoa.  
A História evidencia que foi principalmente em razão das aberrações praticadas pelo totalitarismo contra o ser humano que o princípio da dignidade da pessoa humana tornou-se fundamento do Estado Democrático de Direito. O Estado totalitário que o antecedeu voltara-se violentamente contra milhões de seres humanos. Enviara, durante a II Guerra Mundial, em torno de 18 milhões de pessoas para os campos de concentração das quais, aproximadamente 11 milhões foram mortas pelo aparato estatal utilizado, planejadamente, para a prática de crimes contra a humanidade. 
Atualmente, o princípio da dignidade da pessoa humana encontra-se positivado na legislação internacional e nos ordenamentos jurídicos de países compromissados com a Democracia. As origens históricas de tal princípio encontram respaldo em múltiplas fontes. Dentre estas merecem destaque especialmente a filosofia estoica, o Cristianismo (abarcando ensinamentos bíblico do Antigo e do Novo Testamento) e o pensamento de KANT. Compreendeu-se também que não bastam textos legais para que se tenham garantidos os direitos fundamentais. 
Depois da trágica “arquitetura da destruição”, acordou-se, finalmente, para uma nova etapa da história e do Direito. Nasceu o Direito Internacional dos Direitos Humanos e as Constituições do pós-II Guerra passaram a positivar o princípio da dignidade da pessoa humana, colocando-o como princípio fundamental do ordenamento jurídico, ao qual as demais normas jurídicas devem se conectar, objetivando efetivar o respeito ao referido princípio. Por isso, é correto afirmar que  os direitos fundamentais, em razão do conteúdo que os caracteriza como tais, têm por função e finalidade salvaguardar a existência e a dignidade da pessoa humana. 
Pode-se indagar: Quais direitos são direitos fundamentais?
A jurista Maria Garcia responde que “o art. 5º, caput, da Constituição especifica cinco direitos fundamentais básicos: vida, liberdade, igualdade, segurança e propriedade, que constituem o fundamento de todos os demais direitos consagrados, quer pelos incisos do art. 5º, quer pelos dispositivos sequenciais, do mesmo Título II, bem como de toda a Constituição – dado que órgãos, bens, direitos, deveres, instituições refluem, todos, para um destinatário único, em especial, o ser humano.” E acrescenta que “[...]Todos os direitos e garantias diretamente vinculados a um dos cinco direitos fundamentais básicos constantes do art. 5º, caput.[...]” são fundamentais.(6)  Em verdade, tais direitos são reciprocamente complementares e atendem dimensões específicas do ser humano. 
A vida é o bem maior que possibilita a existência do próprio ser humano. Este, por natureza, é chamado à vivência da liberdade. Mas esta é exercida na convivência com os demais seres humanos, os quais, também necessitam exercitar suas liberdades. Para conciliá-las há de haver a promoção da igualdade de oportunidades, objetivando superar as desigualdades presentes entre os seres humanos, os quais somente são iguais na essência da dignidade que os identifica como pessoas humanas. Enquanto indivíduos, são diferentes, dotados de unicidade, embora semelhantes. O sentimento de insegurança perturba profundamente a existência humana, roubando-lhe a possibilidade de construir esta com tranquilidade de espírito. Daí a necessidade de segurança. Embora tudo o que o ser humano busque possa ser resumido na aspiração de ser feliz, sabe-se que sem os bens materiais básicos (alimentos, vestuário, moradia...) não lhe será possível viver dignamente, com autonomia, passando à simples sobrevivência dependente da caridade e até mesmo da humilhante mendicância. Destarte, a propriedade configura direito fundamental, à medida que desempenhe sua efetiva função social de garantia da dignidade humana.   
Assim, as instituições (família, Estado, escola, Igrejas, empresas...) encontram sua razão de ser à medida que corroborem para a realização do ser humano. Em todas elas, de alguma forma, está presente o poder, exercido por alguma espécie de autoridade (individual ou grupal), capaz, por um lado, de direcioná-lo em benefício de todos os membros da coletividade, mas, por outro, com a possibilidade de incorrer no abuso de tal poder e transmudar seu exercício em autoritarismo ou mesmo  em despotismo totalitário. 
Só após muita abuso e dominação do homem sobre o homem, foi possível extinguir, oficialmente, leis e costumes que davam apoio inclusive à prática da escravidão, até então considerada como "natural" e muito lucrativa pela cultura dominante. O que não significa que na prática tenham deixado de haver constantes reduções de pessoas à condição de escravos, em desafio ao Direito vigente. 
Por isso, os direitos fundamentais se apresentam como uma espécie de trincheira na salvaguarda da dignidade da pessoa humana. 
O Estado Democrático de Direito é fórmula política que tem em sua base o princípio da dignidade humana a sustentá-lo e, ao mesmo tempo, a orientá-lo no exercício do poder. Cabe a este promover a efetividade dos direitos fundamentais em todas as modalidades que se apresentam (civis, políticos, sociais, econômicos, culturais, ambientais...). 
Em síntese, pode-se dizer que foi o reconhecimento da dignidade humana, em forma de princípio fundamental do Direito Constitucional e do Direito Internacional dos Direitos Humanos, que levou à instituição do Estado Democrático de Direito, de modo a assentar-se este sob as bases daquele princípio. Igualmente, é em atenção ao princípio da dignidade humana que se reconhecem e se garantem direitos fundamentais. 
O processo da democracia é também - tal como o ser humano - complexo e multidimensional. Não se deve jamais dele abdicar e nem esperar que um governo o realize sozinho. Vai ganhando concretização histórica à medida que os diversos quadrantes da sociedade se sentirem tocados, sensibilizados pela chama dos valores democráticos dentre os quais a dignidade humana, que é o principal esteio ético, jurídico e político de sustentação da Democracia.(7)  

Notas: 
(1) Para um amplo estudo do tema cf. ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2008. Sobre o mesmo tema cf. SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamentais, 10ªed (ou mais recente). Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009.   
(2) Cf.  CRFB, art. 1º, inciso III.  
(3) Cf. KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. São Paulo: Abril Cultural, 1980 (coleção “Os Pensadores”, II seção,  p.135. 
(4) Cf. PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos, o Princípio da Dignidade Humana e a Constituição Brasileira de 1988. In: Revista do Instituto de Hermenêutica Jurídica vol. 1, n.2. Porto Alegre: Instituto de Hermenêutica Jurídica, 2004. Sobre o mesmo tema, cf.BAERTSCHI, Bernard. Ensaio Filosófico Sobre a Dignidade. São Paulo: Loyola, 2009; MARTÍNEZ, Gregorio Peces-Barba. La dignidad de la persona desde la Filosofía del Derecho, 2ª ed. Madrid, 2003; SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais na Constituição Federal de 1988, 8ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010; BARROSO, Luis Roberto. A Dignidade da Pessoa Humana no Direito Constitucional Contemporâneo: a construção de um Conceito Jurídico à Luz da Jurisprudência Mundial, 4ªed. Belo Horizonte: Fórum, 2016.  
(5) Para um exame detalhado sobre esse tema cf. BARROSO, Luís Roberto. O Controle de Constitucionalidade no Direito Brasileiro, 8ªed. São Paulo: Saraiva, 2019. 
(6) GARCIA, Maria. Mas, Quais São Os Direitos Fundamentais? In: Revista de Direito Constitucional e Internacional nº 39. São Paulo: Revista dos Tribunais, pp.115/123. 
(7) Sobre a relevância do valor “dignidade” no âmbito da democracia, cf. ROSEN, Michael. Dignidade: sua história e significado. São Leopoldo/RS: Unisinos, 2015 (col. Aldus, 42). Sobre esta obra e o valor da dignidade nela estudado, diz o Prof. Dr.  Vicente de Paulo Barretto, no “Prefácio à Edição Brasileira”: Este livro servirá como um guia, que fornecerá os necessários balizamentos para que se possa adentrar na variada e multiforme utilização deste valor básico das sociedades humanas. Ele situa de forma precisa como esse valor pertence propriamente ao arsenal teórico das democracias e, muitas vezes, é utilizado como uma contrafação no debate político, social e jurídico. Ir às suas raízes e conhecer o significado e o papel da dignidade nas sociedades democráticas contemporânea é a contribuição mais relevante do livro do professor Rosen.

Acadêmica Ludmila Kloczak

Bem-vindos, caros acadêmicos, acadêmicas e convidados à Reunião Ordinária que inicia os trabalhos da ALCAL, neste ano de 2021.
Quando o ano se encerra, há uma tendência a avaliarmos tudo o que passou. Sabemos que um pequeno ciclo se encerra. As lojas realizam seus balanços, os escritórios limpam as gavetas, os indivíduos revisam seus planos, intenções e metas. Avaliam suas realizações e programam  novas etapas. Tudo se baseia na esperança e na certeza de que um novo ano abre caminhos, inicia um novo ciclo. 
Entretanto, o que acontece quando esses limites temporais que nos acompanham e estruturam nossa existência se diluem? Quando o último mês do ano se confunde com o primeiro mês do ano seguinte? Os mesmos cuidados, as mesmas obrigações, nada de missas e outros rituais religiosos que demarcam tão bem o ciclo que encerra e o júbilo pelo ciclo que inicia, nada de deslocamentos, viagens, visitas, festas! Como são necessárias as festas de final de ano! São folclóricas as insatisfações com os encontros em família, com a tácita obrigação de reunir-se e cumprimentar-se. Não nos apercebemos que estes encontros nos ajudam a iniciar os novos ciclos, ano após ano. Ajudam a delimitar o tempo subjetivo de cada indivíduo, o tempo da existência social, o tempo do universo. 
Volta a questão. Como fazer planos quando a rotina da vida é suspensa? Quando sentimos que  os meses seguintes se coagulam, se confundem? Nossos planos, intenções e metas são encobertos por uma sombra de indefinições. Não sabemos o que esperar! 
Hoje estamos alegres porque nos reencontramos. Desviamos dos riscos que nos cercam. Conseguimos construir uma rotina básica de auto-proteção e de trabalho dedicado, que nos proporcionou realizar este encontro.  
Este dia é um marco. Ele nos mostra a vitalidade da Academia. A nossa capacidade institucional de organização e enfrentamento das estranhas dificuldades que nos desafiaram. Nossos planos continuam claros. Investimos no cumprimento das metas às quais nos propusemos atender. Nossas intenções ganham vida. 
Neste ano temos dois propósitos importantes: pretendemos ampliar nosso quadro de membros, através de edital a ser publicado assim que entendermos como encaminhar este tema em meio à pandemia. Convidamos as pessoas aqui presentes, a divulgarem a possibilidade de integrar a Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina.  O outro tema que norteia nossas ações neste ano é, ao final do ano, eleger a nova diretoria que conduzirá os destinos da Academia a partir do próximo ano. 
Mesmo em tempos indefinidos e confusos, não podemos perder de vista nossas metas. Elas são o farol a iluminar nossos percursos.
Aproveitem a reunião! Muito obrigada.  

Daniel Bussi – Zazou Wave *
"Chansons bresiliénnes à la française"
Acompanhado pelo violonista Maurício Fernandes

Daniel Bussi, cantor/compositor francês, que veio ao Brasil há 20 anos e está radicado em Londrina, apresentou várias canções brasileiras vertidas e cantadas para a sua língua pátria - francês - brindando-nos com parte do seu repertório. 
Cantou músicas de Tom Jobim, Chico Buarque e Roberto Carlos, finalizando com uma canção de sua autoria. 
Daniel foi acompanhado pelo violonista Maurício Fernandes. Veja sua performance no vídeo abaixo: 

(Ligue o som e assista em tela cheia)

* Participou como cantor da comédia musical sobre a vida da Edith Piaf (1992) em Bourgoin Jallieu (França)
Participou da banda de blues “Blackstairs” de 1998 ate 2001 (vocalista)
Participação do festival de blues (blues Gresivaudan) em Le Touvet (França) com a banda ‟Blackstairs‟
Apresentou desde 1992 vários shows de músicas inglesas e francesas (acústicos), de blues com a banda ‟Blackstairs‟ Locutor de radio em programa de informações humorísticas na Radio Belledonne FM (França – Grenoble)
Criação da banda Zazou Bluz em Londrina desde 2001
Participação ao FILO em 2001 em Londrina  com Kiko Jozzolino (show de Blues)
Trabalho de música francesa com Rodrigo Munhoz desde novembro 2002 em Londrina (Brasil/PR), formação da banda ‟Côté Scène‟
Produz letras de músicas próprias (inglês e francês) e poesias
Adaptou músicas brasileiras em inglês (2003) pelo estúdio WWS (Londrina)
Gravou um CD de musicas francesas e composições próprias em agosto de 2004 em Londrina (produção independente)
Gravação do cd do Tomate Seco “Rock e blues” (2008) – 3 composiçôes, com a banda Zazou Bluz
CD ‟ON THE BLUES WAY‟ 2010 (Zazou Bluz) : 10 faixas – som próprio
EP ‟running after my life‟ 2014 (Zazou Wave) 5 faixas – som próprio
CD ‟one blues night‟ 2015 (Zazou Wave Trio) 12 faixas – releituras
CD ‟donne moi la main‟ 2016 (12 faixas autorais
Clipe ‟donne moi la main‟ 2016 (Muvk produção) + 5 clipes auto produzidos
EP 2017 Virtuel (3 faixas – digital – Zazou Wave
EP 2019 Le soleil se lève (3 faixas) – digital – Zazou Wave
Ep 2020 Rêveur de papier (5 faixas) – digital – Zazou Wave



"Publicidade: história de desenho animado produzido em 1957"
Acadêmico Julio E. Bahr

O Acadêmico, cuja atuação profissional foi como publicitário desde 1957, apresentou um depoimento gravado no início do ano a convite do Youtuber Hugo Kochenborger da Rosa, que criou o canal Dr. Fonocaptor, do Rio Grande do Sul, sobre o comercial do Leitesol, produzido como desenho animado. No depoimento, o Acadêmico conta como se produziam os desenhos animados naquela época, antes da tevê a cores, da informática, dos computadores, do vídeo-tape - utilizando-se recursos que são inimagináveis nesta segunda década do Século XXI.
Ouça o depoimento no vídeo abaixo.
(Ligue o som e assista em tela cheia)



A importância da fotografia na recuperação e preservação da memória e da história
Prof. Paulo César Boni *

O livro A História de Londrina contada por imagens 2001-2020 é uma das formas de prestação de contas do encerramento do projeto de documentação fotográfica de título homônimo, desenvolvido pelo Curso de Especialização em Fotografia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) entre 2001 e 2020.
A ferramenta de captação e alimentação do banco de imagens do projeto era um concurso fotográfico bienal, realizado nos anos ímpares, intitulado Maratona Fotográfica Clic o Seu Amor por Londrina. Em 2001, quando foi realizada a primeira maratona, o principal objetivo do projeto era que o londrinense declarasse o seu amor por Londrina por meio de fotografias. 
A organização esperava cerca de 100 inscrições, mas o número de inscritos na maratona foi praticamente o dobro: 197. Quase 600 fotografias foram a julgamento e a Comissão Julgadora de imediato percebeu o potencial do projeto também para a documentação fotográfica das transformações paisagísticas urbanas e rurais de Londrina ao longo de duas décadas. 
Assim, a partir da segunda maratona, realizada em 2003, os organizadores já passaram a alertar os fotógrafos participantes para o registro de paisagens que seriam ou estavam sendo transformadas, como a abertura de rodovias, duplicação de avenidas, construção de prédios e conjuntos habitacionais, reforma ou revitalização de hospitais, escolas e praças e outras transformações visíveis no dia a dia da cidade.
A transformação paisagística mais fotografada pelos maratonistas – e por maratonas seguidas – foi a rápida urbanização da Gleba Palhano, na zona sul. Em pouco mais de 15 anos, dado ao número de prédios construídos e a oferta de serviços, inclusive de educação e saúde, a gleba transformou-se em uma “cidade” dentro de Londrina.
Outras áreas com importantes transformações urbanas também chamaram a atenção – e o foco – dos maratonistas, como construções e obras de revitalização no centro (demolição do Hotel Berlim para a construção da Havan, construção da Praça Tomi Nakagawa, troca de piso do Calçadão e outras) e na zona norte, principalmente em razão da construção do Residencial Vista Bela, o maior canteiro de obras do projeto Minha Casa, Minha Vida no Brasil.
A zona leste também chamou a atenção dos maratonistas, em dois momentos. No primeiro, com a implantação do Complexo Marco Zero, próximo ao Terminal Rodoviário, inclusive com a recente inauguração do viaduto da Avenida Dez de Dezembro, e, no segundo, com a instalação da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) no prolongamento da Estrada dos Pioneiros (hoje Avenida dos Pioneiros). Em pouco mais de três anos, a construção de dezenas de condomínios horizontais e verticais no entorno da universidade, modificaram completamente a paisagem da região.
Apesar de os e as maratonistas registrarem as transformações paisagísticas, em nenhuma das maratonas, deixaram de declarar o seu amor por Londrina, produzindo imagens belíssimas de lugares de pertencimento e dos principais cartões postais da cidade. Ao longo dos 20 anos de duração, o projeto de documentação fotográfica A História de Londrina contada por imagens reuniu fotografias documentais, estéticas, históricas, jornalísticas, plásticas e simbólicas de Londrina, parte delas de forte apelo identitário e emocional. 
O livro A História de Londrina contada por imagens 2001-2020 reproduz, em suas 204 páginas, fotografias que materializam a emoção dos londrinenses em relação a sua cidade, constituindo verdadeiras declarações de amor a Londrina. Além disso, o livro é um importante documento histórico, por registrar as transformações paisagísticas urbanas e rurais do município ao longo de duas décadas, por coincidência, as duas décadas que marcaram a migração do analógico para o digital – com mudanças, inclusive, na estética das tomadas fotográficas –, revolucionaram os processos e as plataformas comunicacionais, aceleraram o desenvolvimento econômico e consolidaram novas propostas urbanísticas. 
É um livro com a “cara” e o “jeito” de Londrina, publicado com o intuito de circulação dirigida para os maratonistas e pessoas que trabalharam no projeto, bibliotecas, museus e estudiosos de Londrina. Não está à venda em bancas ou livrarias. 
Veja como foi a palestra:
(Ligue o som e assista em tela cheia)

* Formado em Jornalismo pela UEL em 1982. Fotógrafo autodidata e professor da UEL de 1982 a 2019, quando se aposentou. Atualmente atua como professor sênior (colaborador, sem vínculo institucional e sem remuneração) no Programa de Pós-Graduação Stricto sensu da instituição.
Doutor e pós-doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Criou e coordenou,
de 1996 a 2015, o Curso de Especialização em Fotografia da UEL, a primeira pós-graduação Lato sensu do Brasil em fotografia. 
Criou e editou, de 2005 a 2014, a revista Discursos Fotográficos, que se tornou o mais importante periódico de visualidades do Brasil. 
Foi um dos criadores do Mestrado em Comunicação da UEL, curso que coordenou de 2008 a 2012, a primeira pós-graduação Stricto sensu em visualidades do Brasil, com ênfase voltada à fotografia. 
Venceu duas vezes o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia. 
Publicou, como autor e organizador, sete livros sobre fotografia.
Foi agraciado com o Prêmio José Marques de Melo de maturidade acadêmica. 
Publicou,como autor e organizador, nove livros sobre a história de Londrina. 
Em 2001, criou a Maratona Fotográfica Clic o Seu Amor por Londrina e iniciou o projeto de documentação fotográfica "A História de Londrina contada por imagens", que visava
registrar o amor dos londrinenses por sua cidade por meio de fotografias, e documentar as transformações paisagísticas urbanas e rurais de Londrina por 20 anos, de 2001 a 2020.
____________________________________________________

Proteja-se e proteja sua família, 
seus amigos e todos os que estão 
ao seu redor