Extratos da reunião em modalidade remota de 11/10/2020

 


Alguns dos participantes, antes do início da reunião

Nosso Mestre de Cerimônias, Jonas Rodrigues de Matos, conduziu a reunião

O Credo Acadêmico da Academia foi lido pela Acadêmica Fátima Mandelli

Acadêmica Ludmila Kloczak

Caros acadêmicos, convidados e visitantes! Bem-vindos a esta reunião virtual da nossa Academia!
Em outubro, nossa cidade, Londrina, nos brinda com o amarelo ouro da florada das sibipirunas. O verde respingado de amarelo destas árvores frondosas e os cachos amarelo-brilhantes das acácias reais, enfeitam o mês para várias celebrações.
Para quê o Dia da Criança? Pela obrigação de presenteá-la e alegrá-la? Para aliviar a consciência de não brincar o suficiente durante o ano? E o que é brincar o suficiente?
A existência da criança atende, em primeiro lugar, à conservação da espécie, depois, à continuidade da família e, só então, ao desejo dos indivíduos em serem pais. Ao desejo de oferecer a um novo ser a oportunidade de constituir sua própria existência a partir de uma rede afetiva propiciada pela relação paterno-materna. É a oportunidade para meditar sobre a criança que está dentro de nós, buliçosa, curiosa, frágil, criativa. À medida que este ser se torna adulto, a criança não desaparece, incorpora-se, participa da adultez. É a fonte da leveza, da fantasia, da criatividade com a qual o adulto poderá conduzir sua vida. Meditar sobre o destino da criança em nós quando desprezamos esta fonte, e nos tornamos adultos  insípidos, agressivos, frios, oportunistas, incapazes de fruir a vida.
Neste mês são lembrados os professores. Pela sua vocação em educar, ou seja, extrair de dentro da criança, do jovem e do adulto, a sua potência transformadora, é uma profissão apreciada pela sua abnegação, pelo seu caráter de sacerdócio. Há algo de sagrado no ato de abrir aos alunos a potência da revelação oferecida pelo conhecimento. Gratidão aos professores!
Outubro, há muitos anos, também é rosa. Cor vibrante que lembra o feminino através do qual flui a vida. Os seios que amamentam, podem se transformar em patologia grave. Os mesmos hormônios que estimulam a produção do leite materno, vital para o sustento das crianças, podem facilitar o surgimento de células cancerígenas. Rosa para alertar que, além da estética, a mulher deve a si mesma atenção com a sua saúde.
Este é o mês designado à celebração da Padroeira do Brasil. Para representar o mistério e a sabedoria espiritual, nós, brasileiros, encontramos na pequena imagem de Nossa Senhora negra, delicadamente adornada, a força do Sagrado e o sentido milagroso das nossas lutas cotidianas, dos nossos sonhos, a nossa fé e confiança na proteção divina. Aos que creem e aos que não creem, Nossa Senhora Aparecida rogai por nós!
Muito obrigada!

Acadêmico Sergio Alves Gomes

Ao fazer uso da palavra, o Orador destacou a riqueza e a variedade das temáticas presentes na pauta da reunião, com espaço para reflexões filosóficas, poesia e arte musical a serem  vistas como expressões  de potencialidades e realizações  criativas, no mundo da  cultura, no qual se situa a Academia de Letras, Ciências e Artes. Em seguida, introduziu o termo  “Poder”, como tema para breves considerações reflexivas, relacionando-o com a noção de “bem comum”. Transcreve-se abaixo o inteiro teor do texto exposto, sinteticamente, durante a “Palavra do Orador”. 

O PODER E SEUS EFEITOS NO BEM COMUM

1. Alguns Conceitos de Poder 

Para o sociólogo MAX WEBER (1864-1920), “poder significa toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade”1  
A filósofa HANNAH ARENDT (1906-1975) não vê o poder como “imposição da própria vontade”, mas sim como “habilidade humana não apenas para agir, mas para agir em concerto. O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e permanece em existência apenas na medida em que o grupo conserva-se unido. Quando dizemos que alguém está “no poder”, na realidade nos referimos ao fato de que ele foi empossado por um certo número de pessoas para agir em seu nome. A partir do momento em que o grupo, do qual se origina o poder desde o começo (potestas in populo, sem um povo ou grupo não há poder), desaparece, “seu poder” também se esvanece.”2 
Segundo o pensador MICHEL FOUCAULT (1926-1984), conforme observa o Prof. ROBERTO MACHADO, da UFRJ, “os poderes não estão localizados em nenhum ponto específico da estrutura social. Funcionam como uma rede de dispositivos ou mecanismos a que nada ou ninguém escapa, a que não existe exterior possível, limites ou fronteiras. Daí a importante e polêmica ideia de que o poder não é algo que se detém como uma coisa, como uma propriedade, que se possui ou não. Não existe de um lado os que têm poder e de outro aqueles que se encontram dele alijados. Rigorosamente falando o poder não existe; existem sim práticas ou relações de poder. O que significa dizer que o poder é algo que se exerce, que se efetua, que funciona. E que funciona como uma maquinaria, como uma máquina social que não está situada em um lugar privilegiado ou exclusivo, mas se dissemina por toda a estrutura social. Não é um objeto, uma coisa, mas uma relação (negritamos).3 

2. O Poder e o Bem Comum: exigências éticas e jurídicas em tal relação  

Com base nos conceitos mencionados, resta claro que a manifestação do poder sempre ocorre no âmbito das relações sociais. Sejam estas de natureza política, econômica, jurídica, religiosa, educacional ou outras similares. 
Tecem-se, nesta reflexão, apenas breves considerações sobre alguns dos efeitos - benéficos e maléficos - do poder político e econômico em relação ao “bem comum”.  
O Papa João XXIII, com muita clareza, conceituou “bem comum”, ao dizer que este " consiste no conjunto de todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana".4
A presença ou ausência do “bem comum” na sociedade depende de como se dão as relações de poder. Quando o poder presente em tais relações é exercido de forma equilibrada, sem opressão, tal poder, orientado pelos limites do Direito, compromissado com a promoção do que é justo e razoável, produzirá efeitos benéficos para todos os partícipes das relações em foco. Ao contrário disso, quando o poder trata algum dos partícipes da relação social em foco como uma coisa, um objeto descartável, de consumo, ao invés de considerá-lo como “pessoa”, então tal exercício se torna autoritário, e até mesmo despótico, tirânico e totalitário. Isso ocorre porque no exercício desequilibrado do poder, tem-se a presença da desproporção, da desmedida e até da violência, ou seja, daquilo que os pensadores gregos denominavam “HYBRIS”. Heráclito de Éfeso (aprox. 540-474 a.C) envia um alerta à humanidade que continua a fazer sentido nos tempos atuais, com os seguintes fragmentos: “mais do que o incêndio é necessário apagar a “hybris”. E, em outro trecho proclama: “o povo deve lutar pela lei como pelos muros da cidade”.5
Todas as formas de totalitarismo, autoritarismo, ditadura, enriquecimento ilícito e corrupção expressam exercício do Poder contrário ao “bem comum”, isto é, o “bem de todos”. A Constituição Federal de 05 de outubro de 1988 é fruto da percepção ética, política e jurídica sobre o correto e benéfico exercício do poder em prol do bem comum e sobre os malefícios dos regimes políticos e sistemas econômicos sem freios de qualquer natureza, onde o homem escraviza o homem, abusa do poder, pisa sobre o mais fraco, transforma a relação de poder em opressão. Tal percepção enseja a bandeira da democracia e a instituição do Estado Democrático de Direito, onde a tripartição dos poderes defendida por MONTESQUIEU é adotada exatamente para impedir a opressão e a dominação. É norma constitucional, em forma de “cláusula pétrea”, isto é, mandamento jurídico que não pode ser abolido pelo Congresso Nacional nem mesmo mediante emenda à Constituição. E por que? A resposta está nas palavras do próprio Montesquieu: «Para que não se possa abusar do poder é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder». E mais adiante complementa o célebre pensador, em sua magna obra «Do Espírito das Leis”, publicada em 1748: “Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo, exercesse esses três poderes: o de fazer as leis, o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as divergências dos indivíduos”.6

3. A Ambiguidade do Poder 

Por que tudo estaria perdido? Porque o poder é ambíguo, conforme bem aponta o magistrado português José Maria Rodrigues da Silva, em sua excelente   obra “O Homem e o Poder”. Diz o autor: “o poder é como Jano, o deus de duas caras, essencialmente ambíguo”.7 E tal ambiguidade fica bem caracterizada quando SILVA exemplifica com a presença do poder em duas situações distintas e em atitudes opostas, frisando: “os cidadãos da velha e experimentada democracia britânica veem o Poder à imagem dos seus fortes e simpáticos polícias, os bobbies, que ajudam as crianças e os velhos a atravessar as ruas.  Mas os desgraçados judeus que o Estado nazi internara em Auschwitz e que aguardavam sem esperança que soasse a hora de morrerem nas câmaras de gás, não podiam ver nos seus verdugos os representantes de uma ordem legítima. Para eles, o Poder era a negação do homem; não o seu complemento”.8 Há, pois, poder legítimo e poder ilegítimo. Poder legítimo é exercido por “autoridade” competente e como tal reconhecida e aprovada pelo Direito e pela população. Poder ilegítimo se traduz no exercício violento da força e contraria os fundamentos éticos do Direito.9 É poder destruidor das condições sociais necessárias ao bem comum.  
Nas relações econômicas e, de modo especial naquelas em que capital e trabalho se encontram, o poder também pode libertar ou escravizar. Especialmente se o poder econômico se alia ao poder político. Atualmente, os freios aos seus abusos para a não escravização são estabelecidos pelo Direito, mediante normas constitucionais, pactos internacionais, legislação infraconstitucional e a jurisprudência comprometida com o reconhecimento efetivo dos direitos humanos e fundamentais, especialmente aqueles conectados com a ordem econômica e financeira. Tal ordem, segundo a Constituição Federal (art. 170), está “fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa” e “tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social”. São estímulos e freios. Estímulos à construção de uma convivência equilibrada entre o capital e o trabalho orientada por princípios de justiça que levam em conta a necessidade de proteção dos economicamente mais frágeis. Isto porque, nesta seara, vale lembrar célebre frase de LARCORDAIRE: “Entre o fraco e o forte, a lei liberta e a liberdade escraviza”. Por exemplo, a desregulação ou ausência de normas protetoras  e o afastamento da tutela jurídica ao trabalhador, no âmbito das relações de trabalho,  resultam, frequentemente, em abuso do poder econômico, mascarado mediante a má utilização do conceito de “trabalhador autônomo” para, em verdade, se negarem direitos sociais inerentes à relação trabalhista cujo vínculo entre patrão e empregado  se quer ocultar. 

4.Conclusão 

Conscientes de que o poder “se manifesta em todas as dimensões da vida humana”10 e que, com frequência, usa máscaras11 para impedir a transparência, despi-lo de suas máscaras é um grande desafio à democracia. Esta exige a transparência, respeito à cidadania, solidariedade, cooperação, mútuo respeito, participação e reconhecimento à dignidade inerente a todo ser humano, pelo simples fato de ser ele uma PESSOA e não uma coisa.  
Quando um povo se educa para a convivência democrática, ele, mediante suas leis, retira as máscaras do poder, estabelece freios necessários a evitar abusos  e exige sua atuação  em prol da concretização do bem comum.  Quando isso não ocorre, têm-se a tragédia da perversão do Poder.  A história traz múltiplos exemplos em ambos os sentidos.  Por isso, urge que se preste atenção - antes e na hora de se fazerem as escolhas dos futuros governantes - se o candidato apresenta ou não qualificação moral ilibada e nível educacional compatível com a relevância do cargo.    
Para tanto, é aconselhável colocar-se diante da seguinte cena  imaginária, mas profícua: vê-se do alto de seu eterno púlpito, a PRUDÊNCIA, como virtude indispensável   à realização da  EQUIDADE e da  JUSTIÇA entre os humanos, a conclamar e a aconselhar em alto e bom som a seu auditório universal: cidadãos e cidadãs de todos os quadrantes, prestai muita atenção na hora de concederdes poderes políticos e jurídicos por meio do voto, pois ele, o voto, é a autorização expressa para o exercício do poder político. E tal exercício poderá produzir o “bem comum” ou, em lugar deste, a miséria e insegurança em vosso meio. A escolha está em vossas mãos. Prestai atenção! Prestai muita atenção! Sois responsáveis por vossas escolhas!
Além de se dar ouvido aos conselhos da prudência, é preciso ressaltar que a presença do poder em todos os espaços da sociedade não retira dos seres humanos a possibilidade de se verem como irmãos em um único e mesmo barco da vida , cujo destino pode ser o alcance do “bem comum” ou o naufrágio de toda a humanidade.  Ainda resta esperança de que tal naufrágio possa ser evitado se as relações de poder presentes em tal convívio forem exercidas com sabedoria, senso de justiça e fraternidade, levando-se em conta inclusive as gerações futuras. E é isso que se espera quanto ao exercício do poder, ao se defender sua colocação ao estrito serviço em prol da humanidade e do bem comum. 
1  WEBER, Max. Economia e Sociedade, 4ªed. Brasília,DF: Universidade de Brasília. São Paulo: Imprensa Oficial, 1990, p.33.   
2  ARENDT, Hannah. Sobre a Violência.Rio de Janeiro:Relume-Dumará, 1994, p.36. 
3  MACHADO, Roberto. Introdução. In:FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder, 8ªed. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p.XIV.
4  Papa João XXIII, Pacem in Terris  (Eincíclica, I,58). 
5  CHARLES H. KAHN assim comenta sobre os dois fragmentos heraclitianos citados: “Da mesma forma que um ataque inimigo contra os muros da cidade ameaça todos os seus habitantes, uma casa em chamas ameaça toda a vizinhança de destruição. E assim como a defesa da lei cívica é vista [...]como algo tão vital quanto a defesa dos muros, aqui a supressão da ybris – supressão daquela violência que desconsidera a lei e  ameaça a comunidade – é vista como algo mais urgente do que apagar um fogo em vias de fugir ao controle.”Cf. KAHN, Charles H. A Arte e o Pensamento de Heráclito. São Paulo: Paulus,  2009 (Col. Philosophica), p.375. 
6  MONTESQUIEU, Charles Louis de Secondat, baron de de la Brède et de. Do Espírito das Leis, 2ªed. São Paulo:Abril Cultural, 1979 (col. Os Pensadores), p.148  e 149.
7  SILVA, José Maria Rodrigues da. O Homem e o Poder. Lisboa: Bertrand Editora, 1988, p.36.
8  Idem, p.35.
9  Vicente de Paulo Barretto também nota “a existência de duas faces do poder: uma que se expressa pelo poder nu e que se exerce pela violência; outra que caracteriza a forma de poder qualificada pela autoridade. A distinção entre os dois tipos de poder, o poder dotado de autoridade e o poder ilegítimo, reside no fato de o primeiro expressar um valor moral, do qual se origina. Assim sendo, o exercício do poder em todas as instâncias das relações humanas, no âmbito público, que encontra a sua forma mais elaborada no poder estatal ou no âmbito das relações privadas, tem na autoridade a pedra de toque da sua legitimação. Por conseguinte, a legitimação atestada na autoridade em que se investe de todas as formas de poder é condição para que as suas determinações sejam aceitas e sancionadas, quer no espaço público, quer no espaço privado . Cf. BARRETTO, Vicente de Paulo. As Máscaras do Poder. São Leopoldo, RS: Unisinos, 2012 (coleção Aldus,37), p.77. 
10  BARRETTO, Vicente de Paulo. Op. Cit. p.19.
11  BARRETTO assevera  que “o poder veste muitas máscaras e, assim, encobre a sua verdadeira face. Como as máscaras usadas pelos atores no teatro da Roma clássica, chamadas personas, o poder aparece encoberto por disfarces diversos. Essas máscaras escondem o fato de que o poder veste e procura legitimar a força, que, quando deixada em estado puro, converte as pessoas em coisas, em cadáveres, em pó, como lemos na Bíblia. Entendemos então por que, na longa história da humanidade, processou-se a luta constante entre a força, que se manifesta na sua forma extrema pela violência, e o poder, que procura controlar e regular as suas manifestações. O poder surge, portanto, como uma rede de relações sociais que tem a função principal de impedir que a força, latente na condição humana, se torne instrumento da sua própria autodestruição”. Op. Cit. p.15.


Elimar Plínio Machado e Flautistas
Tetracorde 2020*
Nosso Momento de Arte contou com a apresentação da "Viola da Gamba", com três números musicais. 

TETRACORDE 
1- Tedescha et Saltarello do Il Primo libro de Balli, 1578 - Giorgio Mainerio (~1530/40 - 3 ou 4 de maio/1582) 

2- Recercada Quarta para viola da gamba baixo solo do Tratado de Glosas, 1553 - Diego Ortiz (1510 - ~1576)

TETRACORDE 
3-Ballo Anglese et Saltarello – G. Mainerio.
Giorgio Mainerio nasceu em Parma, Itália, entre 1530 e 40. Acredita-se que seu pai era de origem escocesa, chamada Mayner. Estudou Música e em 1560 como presbítero, procurou trabalho como capelão e altarista na igreja de Santa Maria Annunziata em Udine. Permaneceu 10 anos em Udine e graças a seus conhecimentos musicais anteriores e aulas com os contrapontistas Gabriele Martinengo [Maestro de Capela (1562-67) e Ippolito Chamaterò [Maestro de Capela (1567-70) iniciou sua carreira musical. Após 3 anos em Udine, interessou-se por ocultismo (astrologia, mágica e necromancia) e havia muitos rumores que juntamente com algumas mulheres realizava ritos noturnos. A Inquisição em Aquileia iniciou uma investigação mas o caso foi encerrado por ausência de evidências. Após o episódio, Mainerio teve mais problemas com seus colegas por aspirar uma posição na Basílica Patriarcal de Aquileia, deixou parcialmente o trabalho em Udine, motivando sua decisão por “razões impelentes, mas honestas”. Foi aceito em Aquileia e se mudou para lá vivendo no quieto e isolado patriarcado. Tornou-se, em 1578, Maestro di cappella na S. Chiesa d’Aquilegia. Teve problemas de saúde em seus últimos anos de vida e frequentemente deixava a igreja para viajar a Veneza, Ancona e outros lugares com águas termais. Faleceu em 4 de Maio de 1582.
Escreveu obras de música sacra, embora tenha publicado uma coleção de canções e danças populares – Il primo libro de’ balli – Veneza, 1578
Seu Magnificat octo tonorum ... cum quatuor vocibus contendo um Regina Coeli foi publicado em Veneza, alguns anos antes, 1574.
Mais tarde publica outros 10 Magnificats sob o título de Sacra Cantica Beatrissimae M. Virg. Omnitonum Sex Vocum Parium Canenda, integrando um moteto (a 6 partes) conhecido como O Sacrum Convivium, impressos em Veneza no ano de 1580.
Mainerio serve de inspiração até os dias de hoje seja como compositor ou personagem de uma estória de um popular livro de quadrinhos de terror “DAMPYR”. A estória intitulada “Il musicista stregato” [“O músico enfeitiçado”] publicada no no. 107 da série de 2009, foi escrita por Mauro Boselli em um enredo de Mario Faggella e desenhada por Mario Rossi. Ele reinterpreta aspectos reais da vidad de Mainerio (particularmente seu interesse por ocultismo e magia) em um tom fantástico, combinando-os com alguns mitos do folclore Friulano como Agane, demônios aquáticos femininos semelhantes às Bean-nighes escocesas (mensageiras da morte e do além – personificadas como lavadeiras que lavavam as roupas nos riachos daqueles que estavam prestes a morrer).

GRUPO TETRACORDE - 2020 

Criado através da Monitoria de Flauta Doce, orientada pelo Prof. Hélcio Müller, no ano de 2000, com a experiência de alunos do curso de Lic. em Música coordenando e colaborando com suas respectivas classes. Foi um trabalho de grande repercussão formando assim um quinteto de flautistas da matéria Flauta Doce. Ao final do ano (2000) o grupo sentiu-se motivado a continuar as atividades na forma de quarteto. Em Fevereiro de 2001 iniciam-se os ensaios do grupo que recebeu o nome de TETRACORDE. O conjunto teve atividades ininterruptas até o ano de 2008. Por questões diversas foram interrompidas as atividades e volta neste ano de 2020 com a seguinte formação: 

Gabriel Schmidt – Flautas Doces Soprano e Contralto; Luciana Nishi – Flautas Doces  Contralto e Soprano; Luciana Schmidt - Flautas Doces Baixo e Tenor e Plínio Machado Flautas Doces Tenor, Baixo e Direção Geral.

Plínio Machado – Londrinense, iniciou seus estudos musicais através do piano com Heloiza Branco e através dos Festivais de Música de Londrina teve seus primeiros contatos com a Música Historicamente Informada – conhecida na época como Música Antiga. Foi fundador do Grupo Arabesco e com este conjunto mudou-se a Basiléia – Suíça para estudar o Fagote Barroco, Viola da Gamba e Fiedel, na Schola Cantorum Basiliensis. Retornou ao Brasil e desenvolve na UEL a proposta da Música Histórica desde 1995, que neste ano completa 25 anos de atividades. Apresentou-se em várias cidades da Europa e América do Sul. Estudou Viola da Gamba em Buenos Aires com Juan Manuel Quintana, Ricardo Massun e Hernán Cuadrado, sendo o primeiro aluno a graduar-se no instrumento na única escola de nível superior da América Latina. Participou de várias gravações com música Medieval, Renascentista e Barroca com a Camerata Antiqua de Curitiba - PR, ATEMPO – RJ, Julián Polito y los Lírios del Campo – Argentina, além de concertos de lançamento dos referidos registros. Retornando de seus estudos ampliou as atividades da MHI com os grupos Orquestra Barroca Capriccio Stravagante e o Coro de Ópera Barroca Color Rhetoricus. Além das atividades com os grupos NEUMA (medieval), Tetracorde, desenvolve atividades de consultoria e assessoria especializada na Interpretação e Performance no Brasil, Argentina entre outros países. É membro-fundador da Associação Brasileira de Viola da Gamba criada em 2017.

"Vida" 
Acadêmico Clodomiro Bannwart

Falar a respeito da vida não é assunto dos mais fáceis. Talvez eu tenha de render-me à Clarice Lispector, que afirmava: “Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Oscar Wilde nos ajuda do ponto de vista conceitual quando diz que “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”.
Santo Agostinho, importante teólogo e filósofo do século IV d.C., trabalhava com a hipótese de haver uma hierarquia na natureza. Uma pedra, dizia ele, apenas existe. Um animal e uma planta, além de existirem, possuem vida. O Ser humano, além de existir e de viver, possui a singularidade do pensamento. O pensamento é o que nos fornece a consciência de que existimos e de que vivemos. Por meio do pensamento, temos ciência de que não basta existir como uma pedra ou simplesmente viver como uma planta. O pensamento nos projeta ao bem viver, a uma vida com propósito, sentido e valor. E nisso consiste a nossa riqueza: o pensamento nos leva além do que somos, além de nossas limitações. Leva-nos, segundo Agostinho, a Deus. Há um propósito no existir e no viver.
Para um alpinista, as montanhas não existem apenas para alcançar o topo, mas para curtir a adrenalina da conquista e, sobretudo, para aprender o valor da escalada. Da mesma forma que um chef confere sabor a um prato, também nós, cada qual a seu modo, somos convidados a temperar nossas existências, dando sabor à vida. A questão, no entanto, é que não há receitas e tampouco ingredientes predefinidos a azeitar o sabor que desejamos imprimir às nossas biografias.  
Faz certo tempo que eu espalhei no chão de casa uma porção de peças de lego e fiquei observando a forma curiosa com que minha filha, na época com pouco mais de um ano, olhava para cada pecinha colorida. De imediato, ela começou a tocá-las e prontamente percebeu que as minúsculas peças podiam ajustar-se mutuamente. Então eu comecei a encaixá-las, uma a uma, até formar uma figura que a deixou ainda mais surpresa. O contentamento expresso em seu sorriso aberto, dócil e ingênuo, demonstrava encantamento.
A vida, a cada novo amanhecer, revela um encantamento indescritível. Cercada de experiências e de ensinamentos, de alegrias e de sofrimentos, de esperanças e de desânimos, de amigos e de momentos de reclusão, a vida é semelhante a um lego. Várias são as ocasiões em que, ao depararmo-nos com fatos e acontecimentos corriqueiros do dia a dia, parece que estamos diante de uma peça que tende a encaixar-se com outra. Fica a impressão de que os fatos e as experiências grafados em nossas histórias pessoais concorrem para arquitetar o sentido mais amplo e completo de nossas existências.
A minha filha, tão rápido se encantou com a figura, também a desmontou e chateou-se por não conseguir restituir o sentido que eu, pai, havia lhe conferido. Ela chorou e veio ao meu encontro murmurando com suas palavrinhas embargadas de lágrimas: “Papai faz.... papai faz....”. Ela sabia que eu era capaz de restituir o sentido da imagem que havia tocado seus sentimentos e cativado seus olhinhos brilhantes. 
Assim também parece acontecer na vida. Suplicamos, em oração, o auxílio do Pai na tentativa de compreender melhor os encaixes das peças da vida. Há peças traiçoeiras que parecem desconectadas e sem o menor sentido para nós. Muitas vezes ficamos atônitos, sem saber qual peça nos falta. Em momentos assim, rendemo-nos como crianças que suplicam e imploramos Àquele a quem acreditamos conhecer a configuração plena das peças a ajudar-nos a assimilar, ainda que parcialmente, a imagem desse grande quebra-cabeça, de infinitas peças, que é a vida. E oramos, sim, como crianças. “Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, pois delas é o Reino dos Céus” (Mateus, 19:14).
Parece que na percepção dos encaixes das peças da vida está o pressuposto da fé. Elas tendem a realizar algo maior do que podemos ver ou compreender no momento. As peças minúsculas do dia a dia, ao serem encaixadas com o auxílio das pessoas que cultivamos, ajudam-nos a potencializar a maturidade de uma fé que é construída e sustentada coletivamente.
E quando observamos que somos também as peças desse grande quebra-cabeça, compreendemos que todo o esforço que empreendemos a encaixar o sentido coletivo de cada peça (cada pessoa), estamos, na verdade, contribuindo para a realização do sentido e da plenitude de nós mesmos. É no desdobramento da temporalidade, no correr do tempo que asseguramos sentido à vida e ao que somos. O que aflige em tudo isso é a finitude da vida. A esse respeito, Rubem Alves fixou a seguinte questão: “Resta quanto tempo?” Sua resposta: “Não sei. O relógio da vida não tem ponteiros. Só se ouve o tique-taque. Só posso dizer ‘Carpe Diem’ – colha o dia como um morango vermelho que cresce à beira do abismo. É o que tento fazer”.

“俳諧
HAICAI - Três linhas de Poesia
Lucrecia Welter Ribeiro*

A Acadêmica Lucrecia Welter Ribeiro, presidente da Academia de Letras de Toledo e da Associação das Academias de Letras, Ciências e Artes do Paraná, apresentou sua palestra com o tema “俳諧 HAICAI – TRÊS LINHAS DE POESIA” abordando os seguintes itens:
1) definição do termo Haicai; 2) sua origem e chegada ao Brasil; 3) Quem foi Matsuo Bashô; 4) Características e Regras Clássicas do Haicai; 5) Conselhos práticos.
Definição
Haicai é uma forma poética de origem japonesa, que valoriza a concisão e a objetividade. Em português, é escrito haicai devido à influência francesa, mas encontramos nos modos: haiku, haikai, hai-kai, aicai. 
Haicai é a emoção concentrada na observação da natureza, convertida em poema de três linhas, com dezessete sons, e grande carga poética. Haicai é uma sugestão poética. O haicai não diz tudo o que se quer dizer, mas continua dizendo nas linhas não escritas.
"Haijin ou haicaísta" é o nome que se dá a quem escreve haicais.
O formato tem suas raízes no Tanka (5-7-5 7-7) e no Renga, importante manifestação literária da cultura japonesa que remonta ao século XIII. Os versos eram escritos por vários autores, que respondiam a uma forma de “desafio elegante” entre si ao escrever.
Imigração Japonesa
Em 18 de junho de 1908, o navio Kasato Maru chegou ao Porto de Santos, trazendo a bordo 781 japoneses. O encarregado dos imigrantes, poeta Shûhei Uetsuka “Pai da Imigração Japonesa”, promovia desafios elegantes entre os tripulantes durante os 52 dias de viagem. Ao chegar ao Porto de Santos, vendo a Serra do Mar, escreveu este haicai: 
Karetaki o miagete tsukinu iminsen 
a nau imigrante / chegando: Vê-se lá no alto / a cascata seca
Masuda Goga, em entrevista concedida a Epaminondas Alves, publicada no Jornal do Nikkey (São Paulo) de 06/06/1998 afirma:
Existem mais ou menos três tipos de haicai: 1) O haicai com título, com rima e 17 sílabas rigorosas. 2) O haicai com 17 sílabas, sem rima, sem título, sem kigo.  3) O haicai com 17 sílabas, sem rima, sem título, com kigo, (haicai clássico), que a palestrante segue e divulga nas escolas.
Os grandes mestres haicaístas que da escola clássica: Matsuo Basho (1644-1694), Kyoshi Takahama (1874–1959), Nenpuku Sato (1898-1979), Goga Masuda (1911-2008) e Teruko Oda (1945).
Alguns haicaístas, autores de haicais livres: Helena Kolody, Guilherme Almeida, Paulo Leminski, Millor Fernandes, Mário Quintana, Alice Ruiz.
Foi apresentada uma síntese das características e regras do haicai clássico e os cuidados para com sua composição: 
• Teikei (forma) é composta de 17 sílabas poéticas ou pés métricos (5-7-5). 
• Kire (corte) que o divide em duas partes, com o uso da pontuação ou não. 
• Kigo (palavra da estação, termo de estação ou termo sazonal). Kidai (tema da estação). O kigo/kidai reside na descoberta do transitório e dá profundidade ao haicai. É o eixo do haicai, a sua sustentação.
HAIMI - Aquela sensação poética que nos eleva, o algo mais que se lê entre as linhas, isso é o haimi, a essência da poesia. 
O haicai é uma arte que mostra um caminho de elevação espiritual, um distanciamento contemplativo. Nesse estado zen se revela o haimi (perfume de haikai... ou toque de poesia). No ideograma kanji, haimi significa literalmente: sabor + haicai. 
MAKOTO - Consiste em pôr em nossas ações a máxima da verdade interior, despertando uma conexão entre o ato, o espírito e o universo. Literalmente seria colocarmos nossa “ALMA” naquilo que fazemos.
Finalizou falando das quatro edições do Concurso de Haicai de Toledo – Kenzo Takemori, da fundação do Grêmio Haicai Sakura (fixação da placa do Grêmio com o nome de seus fundadores e plantio de três árvores de Cerejeira do Japão – sakura na Pracinha do Japão em Toledo). Falou também das fontes de consulta do tema abordado.

*Nasceu em Toledo-PR, formação superior na área de Ciências Exatas; Presidente da Associação das Academias de Letras, Ciências e Artes do Paraná; Presidente da Academia de Letras de Toledo-PR; membro do Clube da Poesia de Toledo-PR; coordenadora e fundadora do Grêmio Haicai Sakura de Toledo-PR; Delegada da UBT – União Brasileira de Trovadores em Toledo-PR; Coordenadora Geral da Revista Philos; poeta multipremiada em concursos literários. Tem livros publicados.

Extratos da nossa reunião virtual de 13/09/2020


Nossa Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina promoveu a reunião mensal de setembro novamente na modalidade remota.
O conteúdo foi bastante diversificado e agradou imensamente ao grande número de participantes de Londrina, várias cidades do Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo que nos honraram com suas presenças virtuais.
Nossa diretoria agradece a cada um dos Acadêmicos, visitantes e palestrantes que enriqueceram este encontro e sente-se gratificada ao ver que o interesse pela cultura e por novos conhecimentos continua pulsante em cada um.
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ABERTURA - CREDO ACADÊMICO

O Credo Acadêmico foi lido pela Acadêmica Neusi Berbel

Acadêmica Ludmila Kloczak

Bem-vindos à nossa segunda reunião virtual, queridos confrades, confreiras e convidados
Há algo deste momento histórico do qual somos protagonistas que precisa ser considerado. A ameaça advinda de um vírus mobiliza indivíduos, instituições, entidades governamentais e particulares locais e internacionais a buscar meios de proteção. A primeira e a mais lógica foi a de promover o isolamento, o distanciamento social. Quanto mais longe estivermos uns dos outros, maior a garantia de sobrevivência. 
Foi nos solicitado que demonstrássemos nossa capacidade de contenção, de autocontrole. Espera-se de nós que saibamos aceitar os nossos limites. Espera-se que tenhamos uma noção clara a respeito dos limites da vida. Que a nossa autoconsciência nos forneça suficientes recursos para exercitar nossa capacidade de comedimento. Entretanto, essa expectativa social e política esbarra em uma dimensão interna algo difusa, mas suficiente para nos angustiar quando não está presente, que é a nossa liberdade. 
Precisamos conversar sobre a sensação profunda de ameaça ao exercício da liberdade. Pode ser paradoxal pensarmos em liberdade, quando o que está em jogo é a nossa saúde, a nossa vida e a vida dos outros. Justamente, quando precisamos lidar com o desejo de expressar liberdade e a necessidade do seu cerceamento, em nome de um bem comum, em nome da nossa responsabilidade para conosco e com o outro, torna-se necessário refletir sobre os limites da liberdade. 
Sabemos, ou nem tanto, que para sermos livres, é preciso não nos deixarmos levar pela paixão. Esta é efêmera. Entregar uma vida às paixões pode causar sofrimento a nós e aos outros. Quando se trata de um patógeno concreto, mas invisível, pode levar à expressão de uma liberdade calcada na negação, ou mesmo na recusa de sua existência. A vã e arriscada entrega à paixão resultante da negação, pretende exaltar e afirmar uma liberdade que, longe de ser fruto da consciência de si e do outro, contém a marca da destruição. 
Estamos a viver uma contingência inequívoca da vida, que nos obriga a indagar o que podemos fazer? Até onde podemos ir? A trajetória que se nos apresenta, nos obriga a escolher o que desejamos ser e como exercer nossa liberdade. Não se trata de usar ou deixar de usar máscaras, de aglomerar, de promover festas lotadas. Trata-se de colocar em discussão, de refletir sobre o sentido da liberdade possível, sobre a constituição do conceito de responsabilidade sobre si e sobre o outro. Se este conceito não estiver firmemente estabelecido no íntimo das pessoas, a desobediência será a regra. Ou seja, os indivíduos serão regidos pela paixão, confundida com liberdade. Um efeito previsível será a tomada de medidas coercitivas e autocráticas, pelos governantes. 


"Breve reflexão sobre 
Educação e Maioridade"
Acadêmico Sergio Alves Gomes

O programa da reunião de hoje contém, como de costume, uma variedade de apresentações as quais, pela sua diversidade, pedem uma reflexão capaz de vislumbrar algum sentido de unidade construído pelo fio da multiplicidade. Afinal, na mesma reunião temo a inicial  palavra da  presidente, Acadêmica Ludmila Kloczac, focando ideias e valores fundamentais para a humanização do convívio social  capaz de garantir vida, saúde e liberdade para todos; o “destaque acadêmico”  em  que o confrade  Júlio Bahr nos faz lembrar dos visionários cartunistas “Hanna e Barbera”, criadores de inesquecíveis personagens do desenho animado; momentos de arte, com a atenção hoje voltada à música, graças à presença da  Professora Dra. Juliana Barbosa,  com a temática “mulheres no samba”, para, em seguida, chegarmos ao esperado momento de um brinde simbólico. Mas, atenção, só haverá brinde depois que nosso ilustre Palestrante Luiz Parellada Ruiz nos esclarecer com sua esperada palestra como “A América descobriu o vinho.

Manifestações culturais expressam a criatividade humana. E o humano é capaz de transcender a si mesmo quando se conecta ao transcendente, ao que é divino e misterioso, e se empenha por manter relação dialogal e harmônica com os outros (semelhantes, mas diferentes) e com a natureza da qual também é parte. O diálogo entre Letras, Ciências e Artes e seus cultores é uma constante no âmbito da Academia, conforme comprovam suas reuniões. 
Pois bem, antes de chegarmos ao vinho e sermos instigados a aprender mais sobre a história desta milenar bebida gostaria de propor para uma breve reflexão duas palavras: educação e maioridade. Ambas inspiradoras de múltiplos estudos e tratados em diversas áreas do conhecimento. Inicialmente, cabe perguntar: que relações podemos detectar entre educação e maioridade? 
Sabe-se que a educação - no âmbito de uma sociedade que opta pela democracia e institui o Estado democrático de direito, conforme faz o Brasil (CF, art. 1º, caput) - é um direito fundamental. Assim está posto em nossa Constituição Federal, art. 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Por que tamanha importância deve ser atribuída à educação, à “paideia”, assim referida pelos antigos gregos? Para responder tal questão invoca-se a lição do filósofo JEAN JACQUES ROUSSEAU, em sua obra “O Emílio ou da Educação”(1).
“Nascemos fracos, precisamos de força; nascemos carentes de tudo, precisamos de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo. Tudo o que não temos ao nascer e de que precisamos quando grandes nos é dado pela educação”. 
O filósofo e professor Manfredo de Araújo Oliveira(2), ao refletir sobre o papel da educação, diferencia-a da mera instrução.  Diz ele: “A educação dá um rumo, uma orientação à instrução, pois ela não fornece simplesmente informação a respeito de fenômenos e eventos no mundo, mas é antes a aprendizagem de um relacionamento justo com  o todo da vida humana, uma ajuda para que o homem possa encontrar seu lugar no todo da realidade. Portanto, a primeira preocupação da educação não pode ser com a formação dos funcionários de um sistema vigente, mas com o “ato de personalização” da pessoa, com o processo de libertação da liberdade do homem: trata-se de dar ao homem um quadro referencial básico, onde ele possa situar-se ao agir no mundo. É uma visão básica a respeito da natureza, do homem, da sociedade, da vida humana enquanto tal e um projeto de vida coerente com esta visão. É em função deste quadro de referenciais últimos que se educa alguém, pois sem ele a educação se inverte em instrução”.    
Visto isso sobre o termo educação, cabe considerar o significado de maioridade, para se perquirir pelas eventuais relações entre ambos os conceitos. 
É do conhecimento comum a noção de maioridade jurídica. Sabe-se que, no Brasil atual, ao completar dezoito (18) anos, ressalvadas as exceções legais, “a pessoa fica habilitada à prática de todos os atos da vida civil” (Código Civil, art.5º). E, também, com a mesma idade, torna-se penalmente responsável, isto é, imputável, capaz de responder por eventual prática de crime, ao ver cessada sua inimputabilidade, em razão da idade (Código Penal, art.27). São, portanto, normas que integram o ordenamento jurídico brasileiro que assim determinam. 
Destarte, sob a ótica legal, no Brasil, a maioridade é algo que se reconhece a todo aquele que completa 18 anos, como regra geral. 
Todavia, cabe perguntar: a maioridade é unidimensional, tem apenas a dimensão jurídica - aspecto este que se realiza (salvo algumas exceções legais) pelo mero decurso do tempo (idade) - ou a maioridade apresenta outras dimensões cujo desenvolvimento depende da educação? 
Uma valiosa reflexão sobre esta questão é desenvolvida pelo Professor, filósofo e pesquisador alemão HANS-GEORG FLICKINGER, da Universidade de Kassel (Alemanha) e que durante vários anos foi professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Em seu artigo “Dimensões da maioridade e a educação”(3), diz o Professor Flickinger: “O conceito da maioridade oferece-nos conotações diferentes nos âmbitos jurídico, social-ético e político. No entanto, para a educação, é o conjunto desses seus significados que deveria ser respeitado como fim do esforço pedagógico. A maioridade pensada apenas em termos jurídicos perderia de vista suas outras duas dimensões, pois as restringiria apenas ao âmbito “das obrigações legais”, favorecendo, inclusive a legitimação de uma “comunidade de egoístas”.
Para Flickinger, “na dimensão política, o conceito da maioridade não restringe seu significado aos contextos jurídico e civil; ao contrário, aponta para o que Kant afirma como ‘uso público da razão’. Segundo o filósofo, a maioridade incluiria a coragem de expor as próprias convicções à avaliação do debate público, obrigando-se o indivíduo a defendê-las com base em argumentos racionalmente legitimados”(4). E, adiante, acrescenta:(5) “o estado da maioridade jurídica[...] por si só, não leva a pessoa para além do marco nela delineado. O jogo legal legitima-nos, sim, a fundamentar o nosso ser autônomo, isto é, nossa maioridade, na mera legalidade do agir, ou seja, no respeitado procedimento meramente legal; não questiona, porém, os conteúdos, os efeitos ou os valores ético-morais que subjazem à nossa postura.”[...] Nessa lógica, a pessoa é obrigada a cumprir apenas os deveres sociais determinados pela lei. Em outras palavras, as obrigações ético-morais não ultrapassam os limites marcados pelas obrigações legais.”  E mais:
“Se o objetivo do processo educacional se esgotasse na formação de indivíduos comprometidos somente com as exigências oriundas da ideia jurídica da maioridade, chegaríamos a legitimar uma comunidade de egoístas em busca de suas vantagens às custas dos outros e preocupados, única e exclusivamente, com a legitimação de seu comportamento pelas prescrições do direito. Pois aí, quem conseguisse vincular seu agir ao espaço legal não teria de se responsabilizar pelo possível dano que daí adviesse para outrem.”(6) 
No que concerne à dimensão política da maioridade e o papel da educação neste aspecto, afirma o mesmo autor: “O caminho que deve (a educação) escolher não deixa dúvidas. A formação das novas gerações tem de levar em conta a tarefa de capacitá-las a exercer também a sua maioridade política e, com isso, a participar na construção e reformulação de seu ambiente como um todo. Se pensarmos  nas lutas pelos direitos da cidadania, os únicos candidatos a dar voz aos excluídos são aqueles indivíduos que não apenas conhecem os caminhos legais e compreendem a situação desprivilegiada de partes da sociedade, mas assumem também a postura da coragem civil, ou seja, que se dispõem a articular em público a injustiça social realmente vivida, apontando os caminhos para superá-la.[...] Pois bem, é à educação que cabe levar os jovens a ousar esse “uso público da razão”, dando-lhes não somente a oportunidade de experimentá-lo, mas, antes de tudo, de se dar conta de todas essas implicações contidas no estado de maioridade”(7).  
Levando-se em conta o desafio proposto por KANT em seu texto “Resposta à Pergunta: Que é o Iluminismo?”(8), no qual o filósofo de Königsberg, assevera ser “difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tornou/quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer uma tal tentativa”. E, adiante, acrescenta Kant: “Mas é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. Mais ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for dada a liberdade”.( 9)   
Pois bem, a liberdade(10) é direito fundamental e apresenta também múltiplas dimensões. Só no espaço de liberdade, com mútuo respeito, isto é, reconhecimento da alteridade(11),  pode haver educação e, por meio desta chegar-se à autonomia, à maturidade, isto é, à maioridade plena(12) e não apenas legal. Isso vale para indivíduos e Países. 
Diante disso, afloram várias perguntas: levando-se em conta a realidade dos comportamentos já evidenciados, em que nível de maturação, enquanto País e nação, o Brasil se encontra? Já saiu da sua menoridade, depois de abolir formalmente a escravidão e proclamar-se independente? A educação que o País propicia aos brasileiros é capaz de conduzir crianças, jovens e adultos à maioridade em suas dimensões ético-social e política, além da maioridade jurídica que, como regra geral, ocorre por mero decurso do tempo? Em relação à pandemia provocada pelo “Coronavirus”(Covid-19), como reagem  os governantes e a população brasileira? Somos bom exemplo para o mundo em termos de maioridade ética, social e política, no trato cuidadoso da saúde? Em relação ao meio ambiente, como estamos cuidando de nossas águas (rios, lagos, mares, pantanal...), florestas, fauna, flora, atmosfera e sua biodiversidade? Quanto disso já foi destruído pela ação e omissão humanas, como demonstração prática de menosprezo ao disposto na Constituição Federal, em seu artigo 225, que assim estabelece: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. A Constituição Federal tem sido levada a sério por todos aqueles que, ao assumirem cargos públicos, juraram cumpri-la? Quais são os fatores que concorrem para o evidente atraso educacional do País e que precisam ser superados?  
Sabe-se que só por meio da educação pode-se chegar às Letras, às Ciências, às Artes e a toda forma de expressão cultural que requer conhecimento da linguagem escrita e respeito a básicos princípios de ética.  Só a educação possibilita compreender tais manifestações do espírito humano concretizadas nas miríades de obras e ensinamentos que iluminam os caminhos, por vezes escuros, sombrios, patológicos, mas também sempre esperançosos, do trajeto da humanidade em busca da necessária luz para fazer face aos desafios da existência. Somente por meio da educação forma-se o caráter (13) do ser humano, seu modo de ser, de estar e de se comportar perante a vida, o outro e o mundo. À maioridade, capaz do reconhecimento do que é verdadeiro, belo, bom e justo  só se chega por meio da educação. É a educação que habilita o ser humano ao exercício pleno da liberdade responsável e ao alcance da efetiva maioridade. 
Evidencia-se, portanto, a urgente e desafiadora necessidade de se levar muito mais a sério, no Brasil, a disponibilidade de educação com  qualidade para o  povo brasileiro (titular do poder democrático, conforme art. 1º, § único, da Constituição Federal)(14). O atendimento  desta urgência se faz mais do que necessário a fim de que o País alcance maioridade no concerto das nações contemporâneas e demonstre, assim,  honrar e cumprir, perante si mesmo e o mundo, os compromissos constitucionais republicanos assumidos. Tais compromisso estão positivados na Constituição da República que instituiu, como indubitável conquista civilizatória, o Estado Democrático de Direito (CF, art. 1°, caput) a respeito do qual ainda há muito por realizar. Todavia, tais realizações, conforme já analisado, dependem de mais educação. Educação para uma efetiva e plena maioridade. 
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[1] ROUSSEAU, J.J. EMÍLIO ou Da Educação. São Paulo: Martins Fontes,1999, p.8
[2] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e Práxis Histórica. São Paulo: Ática, 1995.pp. 109/110. Digna de nota é também a advertência do autor em relação à qualidade da educação contemporânea, especialmente na América Latina: “Talvez tenhamos que reconhecer que, no mundo de hoje, especialmente entre nós na América Latina , estamos passando por uma crise muito profunda em relação à educação, que consiste precisamente no fato de que nós só somos capazes de instruir e não de educar, isto é, de fazer emergir um relacionamento com o todo.  Nossas instituições educativas parecem que são hoje instituições de instrução destinadas a preparar os futuros funcionários da sociedade, ou seja, os quadros que nela sistematicamente se devem inserir, sem sermos capazes de educar a pessoa humana enquanto tal.” (op. cit. p.109). 
[3] FLICKINGER, Hans-Georg. Dimensões da maioridade e a educação. REP- Revista Pedagógica, v.12, n.1, Passo Fundo, p.15-28- Jan/jun- 205.
[4] Idem, p.16.
[5] Ibidem, p.18
[6]  Ibidem, p.19.
[7]  Ibidem, p.27.
[8]  KANT, Immanuel. A Paz Perpétua e Outros Opúsculos. Lisboa: Edições 70, 1995, p. 11 a19 (Resposta à Pergunta: Que é o Iluminismo). 
[9]  Idem, p.12
[10] É o que estabelece a Constituição Federal da República Federativa do Brasil, em seu art. 5°, caput: “ Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à seguranção e à propriedade, nos termos seguintes...”
[11]  Sobre o tema da alteridade cf. CAMILLO, Carlos Eduardo Nicoletti. A Teoria da Alteridade Jurídica:em busca do conceito de direito em Emmanuel Lévinas.  São Paulo: Perspectiva, 2016.  Já no prefácio do texto diz o autor: “Nosso ponto de partida é a constatação de que a humanidade experimentou uma de suas piores crises no século XX, cujas atrocidades nos remetem a uma única expressão que poderia sintetizar esse século sangrento e, bem assim, o que poderá ser esperado do século XXI: a desumanização.[...] Daí a necessidade de repensarmos o sistema jurídico a partir de uma releitura que privilegie a alteridade, isto é, para além-do-ser que se mostra egoístico e materialista, para que ele se volte ao Outro, de maneira mais solidária e fraterna” (p.11-12).
[12]  A expressão “maioridade plena” aqui utilizada pelo autor deste artigo corresponde à ideia de “pleno desenvolvimento da pessoa”, conforme previsto no artigo 205, da Constituição Federal, ao estabelecer os objetivos da educação. Diz o texto constitucional: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
[13]  Sobre a influência do caráter  no agir de cada indivíduo,  vale a pena lembrar os ensinamentos do filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso(cerca de 540-470 a.C). No fragmento CXIV de sua obra, lê-se a seguinte afirmação: “O caráter do homem é seu destino (literalmente, seu daimon ou divindade). Ao comentar tal fragmento, CHARLES H. KAHN, respeitável professor de Filosofia na Universidade da Pensilvânia e  pesquisador em teoria política e filosofia grega, ensina que “[...] o sentido mais óbvio do fragmento XCIV é que é o caráter do próprio homem, e não um poder exterior, que responde pela qualidade da sua vida, pela sua fortuna para o bem ou para o mal. A sua parte no destino é determinada pelo tipo de pessoa que ele é, pelo tipo de escolhas que ele faz habitualmente, e pelas consequências psicofísicas que elas acarretam ou às quais vêm a corresponder.” Cf. KAHN, Charles H. A Arte e o Pensamento de Heráclito: Uma Edição dos Fragmentos com Traduções e Comentários. São Paulo: Paulus,2009, p.409 (coleção Philosophica). 
[14]  Diz a vigente Constituição Federal, de 05 de outubro de 1988, em seu artigo 1°, parágrafo único: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos, ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

"Mulheres no samba"
Profa. Juliana dos Santos Barbosa*
O samba é uma cultura gerada na diáspora afro-brasileira. Junto com outras manifestações culturais de matriz africana, foi responsável por reelaborar as identidades dos povos africanos, estrategicamente desconstruídas pela escravidão, sistema que durou mais de 300 anos no Brasil. Enquanto os escravistas separavam e distanciavam as famílias e povos originários, os cultos e os batuques os reuniam em identidades e manifestações culturais reelaboradas em território brasileiro.

Em culturas de diáspora, o pensador Martín-Barbero nos lembra que a mulher exerce papel essencial de aglutinação. No caso do samba carioca, as mulheres negras foram importantes mediadoras. Foi pelas mãos (e pés) de mulheres que migraram da Bahia, no final do século XIX, que os batuques e gingados desembarcaram no Rio de Janeiro. 
As histórias dessas “tias”, madrinhas” e “mães”, contudo, estão numa seara cheia de lacunas, equívocos e silenciamentos propositais. Por isso a pesquisadora Jurema Wernek fala da necessidade de uma releitura sobre o mito de origem do samba que, via de regra, não dá a devida visibilidade à intensa participação das mulheres. 

Ao se referir às tias baianas, a autora lembra da figura de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, um dos nomes mais importantes na história social do samba. Wernek (2018) ressalta que, com sua “capacidade criadora, seu poder de aglutinação e sedução”, Ciata reuniu, em torno de si, figuras de diferentes segmentos da sociedade da época. Por isso se diz que seu quintal é o nascedouro do samba.

Na canção “Onde o Rio é mais baiano”, Caetano Veloso diz que a Bahia expediu “as Ciatas pra trazerem o samba pro Rio”. O uso do plural para se referir à Tia Ciata, é um bom gancho para falarmos sobre os diversos papéis exercidos pela mulher nesta cultura: elas foram muitas. Dando sequência ao movimento das tias baianas que cultivaram o samba urbano carioca, suas “filhas” continuam espalhando e cultivando o samba Brasil adentro. 
Como produtoras culturais, continuam fazendo a gestão de eventos culturais; no campo da música, elas cantam, tocam e compõem; também são importantes articuladoras, conectando as pessoas em torno das rodas; além disso, cozinham, dançam e pesquisam a cultura do samba.

Dona Neuma e Dona Zica são exemplares mediadoras: foram lideranças da Escola de Samba e do morro da Mangueira. Viajaram o Brasil e o mundo como disseminadoras da cultura do samba. Os dotes culinários de Vicentina e Tia Surica, da Portela, são elementos essenciais para fazer a comida que agrega em torno da roda. No Carnaval, as mulheres reverenciam Ciata nas alas das baianas, um dos elementos mais significativos das escolas de samba. As porta-bandeiras são responsáveis por desfilar na avenida com o símbolo maior das agremiações carnavalescas.

Elas são as senhoras da canção. Como Ivone Lara, que começou a compor aos 12 anos de idade, mas até os 40 não podia assinar suas composições, por ser uma mulher.  Em 1965, ela foi a primeira mulher assinar um samba-enredo numa grande escola, o Império Serrano. Depois de 50 anos, Teresa Cristina foi uma das responsáveis pelo renascimento da Lapa carioca como lugar de samba. Também fez o samba da Escola Renascer de Jacarepaguá, sendo a primeira mulher a ganhar o Estandarte de Ouro [prêmio concedido pelo jornal O Globo]. 

Elas são instrumentistas, como as talentosas Nilze Carvalho e Márcia Viegas. E são cantoras, como Alcione que já levou sua voz para mais de 30 países, tem mais de 50 álbuns gravados, ganhou 25 discos de ouro e 07 de platina. A nossa “Marrom” tem mais de 350 troféus e suas canções já foram trilhas em mais de 20 novelas. 
Elas são articuladoras, como Dorina que idealizou, em 2017, o movimento de Mulheres na Roda de Samba, dando visibilidade à força feminina do samba. A cada ano, uma sambista é homenageada no evento que reúne centenas de mulheres de 20 estados brasileiros e de outros países também. 

Elas também são pesquisadoras. Como Helena Theodoro, griô e referência maior para o coletivo Acadêmicas dos Sambas, formado por pesquisadoras negras que estão reescrevendo a história do samba com novos olhares.
Para finalizar, é importante dizer que Londrina ocupa importante papel neste cenário, com mulheres talentosas que cantam, tocam, compõem, produzem, articulam e pesquisam, semeando a cultura do samba, que frutifica em nossa terra roxa.

* Possui graduação em Comunicação Social - Relações Públicas pela Universidade Estadual de Londrina (1996), mestrado em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina (2007) e doutorado em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina (2013). Atualmente é professora da Faculdade Pitágoras de Londrina. Tem experiência na área de Comunicação, atuando principalmente nos seguintes temas: relações públicas, cultura do samba, organização de eventos, crítica genética e publicidade e propaganda.


Hanna e Barbera, dois visionários
Acadêmico Julio Bahr

Quando a nossa Academia de Letras deu início a estas reuniões na modalidade remota, com uma tecnologia que para nós era desconhecida há poucos anos, lembrei-me de uma série de desenhos animados que assistia na velha tevê preto-e-branco na década de 1960, há quase sessenta anos. 
Muitas destas modernas ferramentas tecnológicas que hoje utilizamos no nosso dia-a-dia e consideramos até banais, já haviam sido imaginadas naquela década, não pelos especialistas em informática, nem por engenheiros, mas inacreditavelmente por uma dupla produtora de desenho animado.  
Falo de Willian Hanna e Joseph Barbera, dois cartunistas norte-americanos. Ambos fundaram em 1957 um estúdio de desenho animado e foram os criadores dos personagens “Tom e Jerry”, “Os Flinstones”, “Zé Colméia” e da série “Os Jetsons”, exibida na televisão brasileira originalmente nos anos 1962 e 1963 pela TV Excelsior. Mais tarde esta série foi relançada com novos episódios produzidos entre 1984 e 1987, como parte do programa The Funtastic World of Hanna-Barbera e exibida no Brasil à cores pelo SBT. 


E por que estou tomando a liberdade de catalogar os autores de “Os Jetsons” como visionários?
A série introduziu no imaginário da maioria das pessoas como seria o futuro da Humanidade: carros voadores, cidades suspensas, trabalho automatizado, toda sorte de aparelhos eletrodomésticos e de entretenimento, robôs atuando como criados, esteiras rolantes, viagens rápidas à Lua e tudo mais que poderia se imaginar. Há quase sessenta anos já era retratado um cenário futurista que mexeu com a imaginação de muita gente, crianças e mesmo adultos, com as engenhocas que faziam parte daquela família.
No desenho animado, ‘Os Jetsons’ vivem em 2062 e alcançaram um grande avanço tecnológico. A família reside em Orbit City. Nessa cidade todas as casas são suspensas do chão por colunas ajustáveis.
Logo na abertura do desenho animado, pedestres se locomovendo na calçada rolante apareciam compenetrados em seus aparelhinhos portáteis - um deles até parecia um tablet. George acompanhava as brincadeiras do filho Elroy através de uma câmera. Os jornais eram vistos e lidos em telas.


Havia a empregada-robô, que fazia todo o serviço doméstico da casa dos Jetsons. Mesmo que não tenhamos ainda esse tipo de robô no mercado – apesar de protótipos desenvolvidos por alguns japoneses - atualmente já existem diversas máquinas que ajudam a manter a casa organizada, como os discos-robôs que sozinhos varrem e aspiram a casa sem a necessidade de controle remoto, além de robôs que limpam a piscina.
As calçadas rolantes que aparecem nos desenhos existem hoje, principalmente nos aeroportos, chamadas de esteiras rolantes. 
Câmeras já eram usadas para patrulhar os empregados, que podiam ser demitidos por emitirem opiniões e críticas contrárias aos interesses dos seus empregadores.
Atualmente fazemos conferências por computadores, celulares, notebooks e smart TVs. Tão comuns quanto falar ao telefone, estas reuniões remotas, as reuniões por vídeo entre filiais de empresas no próprio país e no Exterior, ou as conversas entre amigos pelos programas Whatsapp, Zoom e Skype acontecem o tempo todo. 


Por incrível que pareça, esta foi outra projeção futurista no desenho dos Jetsons, que se comunicavam através de televisores e até por relógios. Quem imaginaria essa tecnologia há sessenta anos?
As câmaras de bronzeamento chegaram ao mercado em 1978. Entretanto, no desenho animado, uma década antes, um personagem se bronzeia deitado no conforto de sua cama.

Os Jetsons circulavam com seus carros voadores. Ainda não existe esse produto como ele era apresentado no desenho, mas já há protótipos de aviões com asas retráteis, que além de voar, permitem circular pelas ruas como os automóveis. O mais recente carro voador foi exibido há alguns dias na tevê. As empresas Airbus, Embraer, Uber e Google também trabalham no projeto de carros voadores e talvez um dia veremos esses veículos cruzando os céus por aí. Dificilmente esta locomoção será feita em cápsulas envidraçadas, como mostradas no desenho animado. Mas podemos observar que o design industrial de ônibus e trens, principalmente os trens-bala, se modernizaram em estilo bem parecido ao das cápsulas.
Os Jetsons viajavam frequentemente para a Lua. Hoje estes passeios estão sendo programados por algumas empresas que trabalham seus protótipos. Mesmo sendo previstos custos milionários nestas empreitadas, já existem alguns interessados inscritos.
Mais uma profecia do desenho animado era a locomoção das pessoas por mochilas de propulsão a jato. Em 1984, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, ocorreu um sobrevoo com o chamado jetpack, a mochila voadora, que durou 17 segundos. Em 2001, a escola de samba Grande Rio ofereceu uma demonstração do homem voador, que sobrevoou a Passarela do Samba num jetpack em seu desfile na Sapucaí.
O personagem Elroy utilizava um ‘computador oral’ para resolver seus problemas matemáticos. Ele falava e a máquina respondia com o resultado. A tecnologia hoje está mais avançada: além de vários aplicativos, existem os assistentes de voz como Cortana e Google Now, que respondem às questões do usuário.
Para terminar: quem consegue explicar o dom visionário da dupla Hanna e Barbera, apresentando uma criatividade ímpar quase sessenta anos antes da nossa atual época tecnológica e informatizada?

"América descobre o vinho"
Dr. Luiz Parellada Ruiz *

A história da chegada do vinho e das vinícolas nas Américas foi o tema apresentado pelo palestrante, que nos brindou (literalmente) com farta explanação sobre o cultivo e a produção de um dos produtos mais consumidos em todo o mundo, acompanhamento obrigatório em todas as celebrações e comemorações.













* Médico formado pela Universidade Saragossa – Espanha em 1956 e revalidado na faculdade de Medicina da Universidade do Recife – PE. É natural de Barcelona, veio aos 25 anos morar no Brasil para fugir de uma possível guerra na Europa. Luis Parellada é um bom gourmet, aprecia a boa culinária e em especial os bons vinhos. Membro da Confraria do Vinho de Londrina (Covil) que se reúne uma vez  por mês para apreciar a bebida. 
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Ao final da reunião, os participantes brindaram com votos recíprocos de saúde e a esperança de breve término da pandemia que assola o mundo