Extratos da nossa reunião de 09/08/2015

PALAVRA DO PRESIDENTE
"Leitura: explicitações e implicações"
          
Nosso presidente Prof. Leonardo Prota
junto à Vice-Presidente Leonilda Yvonneti Spina
Convívio e Isolamento constituem os pilares da construção   de plena realização do ser humano; convívio nobre, respeitoso e elevado, proporcionado por um silencioso isolamento, que é alimentado pelo pensamento e a reflexão. Ambiente propício facilitado pela leitura.
Entende-se por leitura a capacidade da pessoa ler um texto, isto é, o que se chama de alfabetizar-se. Lamentavelmente, entre a população adulta sobrevivem analfabetos. De acordo com a UNESCO, na população maior de 15 anos, no mundo, o Brasil possui o oitavo maior número de analfabetos. São cerca de 14 milhões de pessoas.
A par disso, em face dos percalços experimentados  por nosso ensino fundamental, apareceu a figura do analfabeto funcional, isto é, aquele que alfabetizou-se mas não é capaz de desenvolver corretamente o seu raciocínio nem discorrer sobre determinada composição. Revela não ter adquirido  o hábito e a plena capacidade  de leitura, que é, no final de contas, o objetivo do ensino.
Estimativas oficiais indicam que esse contingente equivaleria a 35 milhões entre os adultos. Assim, os dois aglomerados ascenderiam a cerca de 50 milhões, em torno de 40% do eleitorado (aproximadamente 140 milhões). 
Trata-se de um grande desafio, tendo em vista que a circunstância reflete-se no processo de formação de mão de obra e no pleno amadurecimento das instituições democráticas, exigentes de níveis adequados  de participação popular.
Em que pese os aspectos negativos indicados, o país conta com expressivo número de leitores. Seriam cerca de 90 milhões. Pesquisa levada a cabo pelo Instituto Pró-Livro (IPL), realizadas desde 2.000, permitem afirmar que o brasileiro lê em média quatro livros por ano. Confrontados tais resultados ao quadro vigente na Europa e nos Estados Unidos, seriam insatisfatórios. Mas constitui uma base importante para desenvolvimentos futuros. 
A par disso, além de dispor de bibliotecas públicas de merecida nomeada em praticamente todos os estados, tais instituições acham-se bem distribuídas no país. São cerca de seis mil (uma biblioteca para cada 33 mil habitantes).
Costuma-se apontar o preço do livro como elemento inibidor da expansão do mercado editorial. Devo reconhecer que, pessoalmente, não tenho condições de pronunciar-me sobre a consistência de tal  avaliação.
Sem embargo, entendo que corresponde a uma ameaça real –não apenas à sua expansão, mas à própria sobrevivência do mercado de que se trata-, a existência de correntes de opinião surgidas em decorrência do aparecimento do que se convencionou denominar de “sociedade da informação”, isto é do crescente acesso das pessoas  aos recursos colocados ao seu dispor pela informática no que  respeita à comunicação entre as pessoas e ao próprio modo de agir e comportar-se  de grandes contingentes populacionais. 
Como fruto desse desenvolvimento, em nosso tempo estabeleceu-se uma grande celeuma em torno da sobrevivência do livro. Generalizou-se a crença de que, dadas as facilidades criada pela informática no que diz respeito à possibilidade de armazenagem da informação, desapareceria a necessidade de termos acesso direto aos livros. As novas gerações estariam sendo educadas para prescindir totalmente do hábito da leitura. Em seu lugar entraria o telefone celular e a filiação às redes,  onde o principal treinamento consistiria  em acostumar-se a reduzir as formas de comunicação a textos com número limitado de caracteres.
Nos seguintes tópicos discutiremos se efetivamente a espantosa multiplicação dos recursos disponíveis para difusão do conhecimento implicam as indicadas consequências. Hoje abordaremos o primeiro tópico:
O acesso fácil à informação dispensa o hábito de leitura?
O enfrentamento da questão proposta exige que se estabeleça a imprescindível distinção entre a frequência à escola e os outros segmentos da vida.
Naturalmente, o aprendizado não se restringe aos longos anos em que todas as pessoas são obrigadas a frequentar bancos escolares pela simples razão de que, ao contrário dos outros animais, o ser humano não nasce com instintos que prescindiriam da dependência de formas específicas de treinamento. Andar, alimentar-se ou criar hábitos de higiene pessoal – essenciais à sobrevivência – requerem aprendizado específico.
O aprendizado que se dá na escola tem características próprias. 
O essencial nesse tipo de aprendizado consiste  em que deve proporcionar familiaridade com conceitos. Cada disciplina profissional acha-se estruturada com base numa série, sempre mais extensa, de conceitos, isto é, de ideias centrais que a tipificam.
O criador da ciência da administração,  Peter Drucker (1909/2005), ensinou-nos que o cerne dessa disciplina residiria no “estudo de casos”. Mais precisamente: compete a quem se proponha estudar a matéria apropriar-se da experiência de determinada empresa. No fundo, essa experiência estará consubstanciada num conjunto de conceitos.
Quer  isto dizer que, para cursar essa disciplina, com o enfoque indicado, terá que estudar diretamente num dos livros do autor ou num texto que se proponha apresentar o conjunto de suas ideias. Sem dispor do  hábito de estudo, que se resume numa leitura especial e atenta, certamente não dará conta da tarefa. 
Naturalmente, a aproximação a uma obra literária não requer essa forma de estudo. Mas se quisermos que essa  aproximação se traduza numa modalidade de aquisição de cultura geral, não pode resumir-se à leitura do que nos caia nas mãos. É preciso dar-se conta de que as obras consagradas como expressão da cultura ocidental não se limitam a distrair.  Permite que  nos apropriemos da experiência vivida numa determinada época bem como do reconhecimento da diversidade dos tipos humanos. É certo que, em nosso tempo, o escritor consagrado tem sua audiência limitada aos que o apreciam nessa condição. Desapareceu o “intelectual” que se atribuía a função de “profeta”.
No texto seguinte, “A mudança de perfil dos grandes escritores”, Vargas Llosa discute esse aspecto da questão. Essa análise será objeto de nossa próxima reunião.
Prof. Leonardo Prota

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Hora de Poesia
Declamação pela Acadêmica e poetisa Leonilda Yvonneti Spina

"EU TENHO UM BUGRE DENTRO DE MIM"

                Eu tenho um bugre dentro de mim, tenho...
Sinto-o nesta paixão antiga por caçadas,
no prazer infantil de andar no mato,
na profunda afeição pelas coisas agrestes.

Nasci nas matas do rio Doce. 
“Minha bisavó foi pegada a laço”...
Talvez seja por isso que não gosto de arranha-céus,
estes jequitibás mortos, sem folhagens
no carrascal das cidades...
Não gosto de apartamentos onde o ar
só entra pelos conta-gotas das janelas;
não gosto de asfalto, deixa o solo
sem poros, como cicatrizes de queimaduras;
nem de estátuas eu gosto,
lembram cadáveres congelados...

Eu tenho um bugre dentro de mim, 
diluído no meu sangue, tenho...
Sinto que ele que me arrasta 
para a fragrância balsâmica das matas,
para a música das cachoeiras,
para as noites leitosas de luar, 
para a majestade serena dos grandes rios,
para o marulhar cantante dos regatos,
para o verde dos mares,
para o azul dos céus,
para o silêncio repousante dos lagos adormecidos...

Ainda é ele, o bugre, que me impele
para a árvore de junco do teu corpo, 
para os galhos roliços dos teus braços,
para a floresta escura dos teus cabelos,
para as águas dormentes dos teus olhos, 
para o fruto vermelho da tua boca,
para os passarinhos que cantam na tua voz...

Eu tenho um bugre dentro de mim, tenho!
Por que, Senhor! não fiquei só no bugre?...
No bugre livre de selo, 
livre de folhinha,
livre de relógio,
livre de roupa...
No bugre livre! Livre! Livre!                                            

(Demóstenes Cristino)
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DEMOCRACIA E EDUCAÇÃO


Acadêmico e Prof. Sergio Alves Gomes * 

A reunião de nossa Academia foi abrilhantada pelo pronunciamento do Acadêmico, que reproduzimos abaixo:

O Estado Democrático de Direito (Constituição Federal, artigo 1o,caput) exige mudança de
mentalidade e de atitudes porque a democracia é absolutamente incompatível com o uso despótico do poder e da força. Ela limita todas as formas de poder para impedir a escravidão e a servidão humanas. Na democracia, o soberano não é mais o rei irresponsável, caprichoso e tirano dos tempos do absolutismo. Nela, o soberano é o povo (que não se confunde com "massa"), pois dele emana todo o poder, conforme prevê a Constituição Federal (art.1o, parágrafo único). No regime democrático a ninguém é lícito colocar-se acima da Constituição e das leis. A democracia abomina e rejeita o demagogo. A hipocrisia daqueles que se fingem de democratas - objetivando enganar o povo, fazendo promessas apenas para alcançarem o poder - representa a mais sórdida conduta contra a democracia.

Em face dos recentes episódios que mancharam, indelevelmente, a história da relação entre o atual governo do Paraná e os professores, merece séria reflexão a estarrecedora ofensa que vem sofrendo a Educação em todo o País e, de modo especial, no Paraná. Sem educação, ninguém se desenvolve como pessoa, ninguém se capacita para agir como cidadão nem se qualifica para profissão alguma. Logo, sem educação não há democracia nem estado democrático de direito.

Por isso, zelar pela educação exige especial incentivo aos seus protagonistas. Atacar os educadores com cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo, "spray" de pimenta e coisas do gênero - como ocorreu no dia 29 de abril, no Centro Cívico, em Curitiba - é atitude que causa repugnância e indignação em quem preserva básicos sentimentos morais e democráticos. Tais atos revelaram para a história a face perversa do despotismo governamental, jamais exposta durante as recentes campanhas eleitorais. São atos violentos que, por extrapolarem os limites do equilíbrio exigido pelo diálogo democrático, configuram verdadeiro abuso no uso da força. Isso fere, drasticamente, o estado democrático de direito (CF, art.1o, caput) e macula o compromisso republicano jurado no ato da posse de quem exerce o poder governamental. Na democracia, a liberdade de expressão e a de manifestação, por meio de pacíficos protestos, são direitos fundamentais. Cabe a quem exerce o poder e administra a força policial estatal saber lidar, adequadamente, sem ameaça ou violação a direitos, diante de tais situações.

A luta atual do magistério é uma luta pacífica por reconhecimento e respeito à dignidade de quem passa a vida trabalhando na formação de pessoas, de cidadãos, de profissionais para o País e o mundo, mas não se vê condignamente reconhecido e remunerado. E mais: ao se manifestar, é tratado violentamente como "baderneiro".

Lamentavelmente, vive-se uma tragédia nacional. Sofre o Paraná, sofre o Brasil perdas historicamente irreparáveis para a democracia e o desenvolvimento da Nação, com reflexos negativos implacáveis no presente e no futuro do País. Reflexos da estupidez e prepotência de quem não quer valorizar seus educadores. Vê-se que o brado de Ulysses Guimarães, na promulgação da "Constituição cidadã", continua a ecoar: "Muda Brasil!". Mas, sem educação de boa qualidade, sem educadores respeitados e motivados, a mudança só poderá ser para pior. É isso o que queremos?

* SERGIO ALVES GOMES é doutor em Filosofia do Direito e do Estado 
e professor associado da Universidade Estadual de Londrina
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Pré-lançamento de livro

O Acadêmico Julio Ernesto Bahr apresentou, em pré-lançamento, o seu segundo livro de contos "Tia Belinha e a Grande Cartada... e novas histórias de bahr", com 29 histórias.
O livro, assim como ocorreu com o primeiro, foi inteiramente patrocinado  pela Secretaria da Cultura de Londrina, através do PROMIC - Programa Municipal de Incentivo à Cultura e será distribuído gratuitamente, como uma forma de incentivar a leitura.
O autor citou um comentário do cronista e Acadêmico Paulo Briguet, que assim se referiu ao primeiro livro, lançado em 2005: "Bahr é um escritor com a marca do bom publicitário; avesso a adjetivos e inimigo das frases desnecessárias - daquelas que estão ali só para fazer efeito, como dizia Simenon -, Bahr procura ir direto ao ponto, contando histórias bem-humoradas e espirituosas". 
O lançamento oficial está programado para o dia 4 de setembro, na Biblioteca Municipal de Londrina, a partir das 19h30.


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MOMENTO DE ARTE


A artista Adalgisa Lopes da Silva (à esquerda) apresentando seus
trabalhos, junto com a Acadêmica Fátima Mandelli 
e a senhora Marinês Ferreira
Contamos com a presença da artista plástica Adalgisa Lopes da Silva, que apresentou duas telas de sua autoria e nos contou um pouco da sua história: descobriu a arte ainda na infância e solidificou sua carreira ministrando aulas, assim se realizando profissionalmente 
Seu lema "É ensinando que se aprende" mostra sua paixão ao ensinar arte e sente "que é assim mesmo que tem que ser, dividir com os alunos os dons que recebeu de graça, recebendo em troca experiências novas".
Autodidata, trabalhando com as tintas e elementos variados e brincando com as técnicas, sua pintura mostra traços fortes e sutis, alcançando um modo peculiar de traduzir através dos tons e massas o equilíbrio em sua pintura.

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PALESTRA


"AS PÁGINAS QUE MUDARAM MINHA VIDA"


Acadêmico Paulo Briguet *


“Senhor, no dia de hoje, fazei-me dizer só a verdade, criar só a beleza e fazer só o bem.”
Procuro fazer essa oração todas as manhãs, antes de começar a trabalhar. Na verdade, acho que comecei a rezar assim, mesmo sem palavras, desde que vi meu pai lendo um livro na sala, no nosso apartamento da Alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Isso aconteceu há mais de 40 anos, talvez seja a mais remota imagem que eu guardo na mente. De certa maneira, aquela cena definiu a minha vida. Eu seria para sempre um escravo dos livros e das palavras. Tornei-me escritor para agradar meu pai. Para fazer meu pai feliz. Para torná-lo eterno dentro de mim.
Este é o sétimo Dia dos Pais que eu passo sem meu pai. Os senhores, meus queridos confrades e confreiras, devem saber que eu tenho uma particular relação com o número sete. Além de ser o número dos dias da semana, das notas musicais, das cores primárias e tantas outras coisas no céu e na terra – é o número dos leitores de minhas crônicas.
Certo dia meu pai comprou um livro chamado “A Orgia Perpétua”, de Mario Vargas Llosa. Eu tinha sete anos e perguntei a ele: – Pai, o que é perpétua? Ele respondeu: – É algo que dura para sempre. Depois eu perguntei: – Pai, o que é orgia? Ele pensou um pouco e respondeu: – Bem, filho, é uma festa onde as pessoas se divertem muito, cometem muitos excessos. Eu guardei isso na memória. Numa festa de Natal, em que todos se divertiam muito e cometiam excessos na comida e na bebida, eu gritei, para espanto dos parentes: – Nossa, que orgia!
O livro de Mario Vargas Llosa, por incrível que pareça, fala sobre o amor eterno pela literatura. Aqui vão algumas páginas da minha Orgia Perpétua.
Comecemos pela poesia. Os versos que mais mudaram a minha vida foram aqueles que encontrei por acaso, fora dos bancos escolares ou da recomendação dos especialistas.
Carlos Nejar
Por exemplo, os versos do poeta gaúcho Carlos Nejar, que é da Academia Brasileira de Letras:

"Quando nasci
fui posto
no fundo do poço
do calabouço.

Não sei
o comprimento,
a largura,
a expansão
dos movimentos
no fundo
do poço
do calabouço.

Vivia à tontas
e o que colhia
não me atingia
no fundo do poço
do calabouço.

(...)
Alguma luta se trava.
Algum ombro não se entrega.
Quando há um sopro de trégua
a vida ainda se guarda.

Espero.
Não vou render-me
na guerra
do poço do calabouço.
A resistência é de fera.
E feroz, a solidão.

Os olhos de minhas mãos,
os olhos de um outro rosto
sabem que vão transpor
o poço do calabouço.

Mesmo na explosão
ou no maior desconforto."

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Platão
Esse poema me parece uma recriação do mito da caverna, de Platão. Mas como descrever o meu arrebatamento ao ler os versos do poeta português Herberto Helder, há 15 anos, num livro que encontrei por acaso na prateleira:

"Os ombros estremecem-me com a inesperada onda dos meus
vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,
amanhã morrerei.
Devo olhar com uma grande
memória aquilo que acaba na violência triste
do poema.
Estamos nos quartos, há flores nas mesas. De babilônia
partem rios. Por detrás das cortinas,
despeço-me. Amanhã vou morrer.
Vi um dia alguém tomar nas mãos, entre faúlhas
velozes, pedras que pareciam
imortais. Eram casas que se levantavam
sobre o meu coração.
Amanhã morrerei."

*******
Manuel Bandeira
E para ficarmos no terreno da mortalidade, eu me lembro de um poema de Manuel Bandeira que meu pai adorava recitar:

"Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. 
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
– Respire.
– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino."

*******
Herbero Helder
Tanto Herberto Helder quanto Manuel Bandeira escreveram estes poemas jovens e morreram com mais de 80 anos.

Meu pai era um grande leitor dos russos. E talvez aquele livro que ela estava lendo na minha infância fosse de Tolstói, Dostoiévski, Turguêniev ou Tchekhov. Também poderia ser alguma coisa de Nabovok ou Pasternak, russos do século XX. De tudo que eu li na literatura russa até hoje, talvez uma das passagens que mais tocaram o meu espírito sejam as últimas linhas do romance “Pais e Filhos”, de Ivan Turguêniev, quando os pais do médico revolucionário Bazarov vão visitar o túmulo do filho:
“De quando em quando, de um povoado próximo, vem visitar este túmulo um casal de velhos, trôpegos e débeis, marido e mulher. Apoiando-se um ao outro, caminham com passos lentos e arrastados. Aproximam-se da grade de ferro, caem de joelhos e choram muito tempo, examinando atentamente a pedra indiferente da lousa tumular debaixo da qual repousa seu filho. Trocam uma breve palavra, espanam o pó da lousa, endireitam o ramo do abeto e rezam de novo. Não tem coragem de abandonar esse lugar, onde se sentem mais perto do filho, da saudade... Será possível que as suas orações e suas lágrimas sejam inúteis? Será possível que o amor, o amor sagrado, amor dedicação suprema não seja onipotente? Não! Seja qual for o coração apaixonado, pecador e revoltado que se esconda num túmulo, as flores que crescem sobre eles nos fitam tranqüilas, com seus olhos inocentes. Elas não falam apenas da calma eterna, da grande, da infinita calma da natureza “indiferente”: falam também de paz e da vida eternas...”

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E por falar em russos, durante muito tempo, em minha vida, eu tive a mesma ilusão que acabou por tomar conta desse imenso país situado entre a Europa e a Ásia: o nome dessa ilusão é socialismo. Meus autoenganos começaram a ruir quando li os livros de Milan Kundera, Ivan Klíma, Alexander Soljenítsin, Joseph Brodsky -- e principalmente a obra de Olavo de Carvalho. Mas nada me convenceu mais da monstruosidade do socialismo do que as palavras dos próprios escritores revolucionários. Vejam, por exemplo, esta passagem de Victor Serge, grande entusiasta da Revolução Russa:
“Um operário da fábrica de Verkh-Issetsk, Piotr Zakharovitch Ermakov, foi encarregado, com uma equipe de homens confiáveis, de proceder à execução. Na noite de 15 para 16 de julho, por volta da meia-noite, Nicolau II, a czarina, a czarevicht Alexis, as quatro jovens grã-duquesas, o dr. Botkin, a governanta e o preceptor do ex-herdeiro do trono, dez pessoas ao todo, foram chamadas a se reunir em um cômodo do andar térreo. Esperavam que se tratasse de uma nova transferência. Enfileiraram-se diante de homens armados, um dos quais leu para eles, em nome do soviete (conselho) regional, a sentença de morte que nem tiveram tempo suficiente para compreender. ‘Então, não vamos ser transferidos?’, disse Nicolau II, surpreso. Não teve tempo para se recuperar da surpresa. Em poucos instantes, os Romanov não passavam de um monte de cadáveres tombados contra uma parede arrebentada de balas. Um caminhão transportou os despojos, envoltos em cobertores, para uma mina abandonada, a oito verstas (cerca de nove quilômetros) da cidade. Lá, suas roupas foram cuidadosamente revistadas; as das grã-duquesas continham grande número de brilhantes; os cadáveres foram queimados e as cinzas, enterradas em um pântano próximo dali.
(...)
Sverdlov curvando-se sobre Lênin, disse-lhe algumas palavras em voz baixa.
‘O camarada Sverdlov pede a palavra para uma comunicação’, anunciou Lênin.
Sverdlov disse, com sua voz inalterável:
‘Acabo de saber que Nicolau foi fuzilado em Ekaterimburgo, por ordem do soviete regional. Nicolau pretendia fugir. Os tchecoslovacos se aproximavam. O Bureau Pan-Russo dos Sovietes aprova.’
Silêncio.
Lênin disse: ‘Passemos ao exame detalhado do projeto’.”

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Como a Rússia do começo do século XX, nosso país vive hoje uma situação terrível, meus amigos. Vivemos a destruição da moralidade, dos valores da civilização, da cultura como forma de expressar a verdade, a beleza e a justiça. Por isso eu acho que precisamos reler algumas páginas do passado para que possamos enfrentar as guerras do presente. Acho que precisamos ouvir as palavras de Winston Churchill no parlamento inglês, palavras que mudaram não só a minha vida, como a de toda a humanidade:
"Só tenho para oferecer sangue, sofrimento, lágrimas e suor. Temos perante nós uma dura provação. Temos perante nós muitos e longos meses de luta e sofrimento.
Perguntam-me qual é a nossa política? Eu lhes direi; fazer a guerra no mar, na terra e no ar, com todo o nosso poder e com todas as forças que Deus possa dar-nos; fazer guerra a uma monstruosa tirania, que não tem precedente no sombrio e lamentável catálogo dos crimes humanos –; essa a nossa política."
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Sou admirador de Machado de Assis e Lima Barreto, mas considero que a obra mais importante da literatura nacional é “Os Sertões”. A força da linguagem de Euclides da Cunha chega a ser milagrosa. Eu poderia citar várias passagens de sua obra que me impressionaram profundamente e transformaram minha vida, mas ficarei com apenas uma:
"Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados."
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Euclides da Cunha
Quando penso na aniquilação do povoado de Canudos, tão magistralmente narrada por Euclides da Cunha, eu me lembro de uma cena que estaria presente se a minha vida fosse um livro.

Na cidade de Mariana existe uma praça em que duas igrejas antigas se contemplam – irmãs de pedra destinadas a olhar uma para a outra até o final dos tempos. Mas, em julho de 1999, uma das igrejas havia sofrido um incêndio. Estava interditada e as paredes ameaçavam cair. Mesmo assim, espiamos lá dentro para ver
o tamanho do estrago. Desolação absoluta reinava no lugar: o teto viera abaixo; vigas carbonizadas jaziam formando ideogramas de morte; como na Sexta-Feira da Paixão, não havia imagens de santos.
Então eu olhei para a igreja queimada e soube que ali estava a imagem da minha alma. Durante anos, eu cultivara aquele incêndio pernicioso dentro de mim. Não era o fogo purificador; não era o fogo que Eliot une à rosa em seu poema; não era o fogo que ilumina e aquece. Naquele instante, debaixo do céu pálido e dos eflúvios do incêndio, percebi que eu era o demônio de mim mesmo. E pedi perdão, silenciosamente. E peço perdão até hoje, silenciosamente.
Hoje eu sei que aquele foi o momento exato da minha conversão. Talvez por isso as imagens da destruição de Canudos e dos campos de concentração nazistas e comunistas tenham tanto efeito sobre mim.
Essas eram as palavras que eu tinha para dizer-lhes nesta manhã, meus amigos.
Eu poderia prosseguir citando dezenas, centenas de páginas que me marcaram tanto quanto as que citei aqui, mas quero abusar da paciência dos acadêmicos.
Espero ter sido digno daquele homem que lia o poema na sala há 40 anos.
Estamos nos Dias dos Pais, terminemos com um poema de Rudyard Kipling que é bastante adequado à data hoje comemorada.
Um poema em que eu ouço a voz daquele homem que lia o livro na sala, há 40 anos:

"Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
De sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: Persiste!;

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais – tu serás um homem, ó meu filho!"


* Paulo Briguet é jornalista, cronista e escritor

Extratos da reunião de 12/07/2015

PALAVRA DO  PRESIDENTE

O Presidente da Academia Prof. Leonardo Prota em seu pronunciamento,
 ao lado da Vice-Presidente, Acadêmica Leonilda Yvonneti Spina

“Democracia: Construção da Representação” 

Em várias ocasiões tivemos a oportunidade de tratar do tema da Democracia, no Brasil. Temos presente, no momento, nossa reflexão por ocasião da celebração do Dia Internacional da Democracia, quando um grupo de cientistas políticos avaliou  situações variadas do momento vivenciado no mundo a esse respeito. Entre eles, evidenciamos o pensamento de José Álvaro Moises, professor da USP e diretor do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas.
Com relação ao Brasil, assim ele se expressou em 18/09/11 (O Estado de São Paulo): “O Brasil é um país democrático, não há dúvida. Mas penso que a qualidade de sua democracia está em questão, sim. A hipertrofia do Executivo, herdada do período autoritário, limita a autonomia e a independência do Legislativo, comprometendo a representação da sociedade e o poder efetivo dos eleitores. O sistema partidário brasileiro é fragmentado e relativamente instável, com quase trinta partidos nominais e perto de dez efetivos. A corrupção é endêmica, frauda a igualdade da competição eleitoral e desvia para fins privados recursos que deveriam ser investidos  em políticas públicas. O chamado presidencialismo de coalizão, se por um lado garante a governabilidade, por outro estimula a irresponsabilidade com a probidade no uso de recursos públicos. Os escândalos nos Ministérios dos Transportes, da Agricultura, do Turismo e do Trabalho atestam isso”.
Hoje, o panorama político teve uma queda vertiginosa; chegamos ao fundo do poço. O conceito de democracia mudou o seu curso de tentativas de aperfeiçoamento enveredando por trilhas de construção de uma visão completamente contrária ao que sugere o conceito originário de democracia.
Uma visão dessa nova concepção nos é oferecida pelo Presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto; ele afirma que “Democracia é um regime que consiste no exercício solitário de pensar o que é bom para as pessoas”.  Na visão dele, portanto, as redes sociais “atrapalham o curso da democracia”; assim como a oposição, a imprensa livre, a Justiça, o Ministério Público, o Tribunal de Contas da União, a Polícia Federal, o processo de desvendar o esquema de corrupção... Enfim, a democracia seria de uns poucos que acreditam ter o poder de pensar e agir em nome de todos. (Cfr. A Gazeta do Povo. 24/06/2015).
Por outro lado, qual seria o conceito genuíno de Democracia? É o resultado de um longo processo pelo qual os países europeus passaram da monarquia absoluta para um sistema constitucional, que iniciou na Inglaterra no século XVII para que o monarca admitisse o funcionamento do Parlamento, isto é, admitisse que para fazer determinadas coisas (por exemplo, aumentar impostos, declarar guerras etc.) teria que consultar os representantes de determinados grupos sociais. No século XVIII, afinal, esse sistema estava consolidado.
O século XIX caracteriza-se pela tentativa de disseminar aquele regime na Europa. Os Estados Unidos já nascem, em fins do século anterior, dispondo de Parlamento e Constituição. Mas o avanço na Europa foi muito lento. A plena democratização do sistema representativo ocorreria somente após a Segunda Guerra Mundial.  
Em síntese, as instituições do sistema representativo formaram-se como desdobramento do Estado moderno; as tradições nacionais fizeram-nas adquirir feição singular neste ou naquele país. Contudo, o conjunto de atribuições que desempenham são uniformes e permitem caracterizar o que se convencionou denominar” Estado Liberal de Direito”, que repousa na separação e harmonia entre os  Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.
A principal instituição do sistema representativo é o Congresso Nacional, que se compõe  da Câmara dos Deputados e do Senado. A Câmara tem a representação popular e o Senado a representação dos estados.
O número total dos deputados é proporcional à população. Para a sua escolha há dois sistemas básicos chamados, respectivamente, de proporcional e distrital.
No sistema proporcional, cada partido elege número de deputados correspondente à sua votação. Esse processo introduz muitas distorções desde que uma figura popular pode receber número suficiente de votos para eleger outros deputados, às vezes desconhecidos dos eleitores. Além disso, como a base eleitoral é o estado, o representante eleito não se liga diretamente a determinada parcela da sociedade e de modo geral, não se sente obrigado a prestar-lhe contas. E as campanhas eleitorais são muito dispendiosas.
No sistema distrital, o representante é eleito numa circunscrição limitada. No caso brasileiro, corresponderia aproximadamente a 300 mil habitantes e 150 mil eleitores. O deputado seria obrigado a prestar contas aos seus eleitores e os custos das campanhas eleitorais cairiam muito.
Embora não se disponha dessa experiência no Brasil, a julgar pelo que se verifica nos países que o adotam, o voto distrital reduz drasticamente o número de partidos políticos. O sistema proporcional, por sua vez, assegura maior diversidade.
A Constituição Brasileira adota o sistema proporcional, mas há uma grande corrente favorável ao voto distrital; ambos, porém, atendem aos objetivos de alcançar a estabilidade política.
Do que precede verifica-se que efetivamente a democracia não cai do céu nem é dada a todos. Sua consolidação requer o concurso de um grande número de pessoas e não apenas da classe política. Por isso todos os cidadãos precisam ter presente essa situação e saber como contribuir para “construir a representação”.
“Construir a Representação” é o real significado da “Democracia Representativa”. Para tanto, a primeira condição é abandonar a ideia de que o Estado resolve tudo. A crença no Estado como elemento capaz de solucionar os nossos problemas é, presentemente, o maior obstáculo na tentativa de consolidar as instituições do sistema representativo. Devemos nos convencer de que o Estado constitui um problema e não a solução.
Vale a pena fazer referência à excelente exposição que o Acadêmico Dr. Sergio Alves Gomes desenvolve em sua obra “Hermenêutica Constitucional – Um Contributo à Construção do Estado Democrático de Direito”, a respeito da caracterização da Democracia como “participativa”. (Curitiba/ Juruá Editora, 2008).
Aceitando, portanto, que o sistema democrático-representativo é a única alternativa disponível, a tarefa primordial consiste em construir a representação. Essa depende,  em certa medida, do sistema eleitoral. Deve-se construir uma forma de relacionamento permanente com o representante.
É intolerável continuar aceitando passivamente a atuação de um partido político distanciado da representação dos reais interesses da sociedade, bem como de um Deputado que não representa seus eleitores, considerando que a função de um partido político é de “afunilamento” de interesses de um grupo social a serem apresentados e defendidos na Câmara dos Deputados. Da mesma forma, é intolerável continuar dando respaldo às chamadas “coligações eleitorais”, que tem por objetivo receber os generosos recursos do Fundo Partidário, bem como ter acesso gratuito ao rádio e à televisão.
Esse esquema possibilita que o eleitor deposite seu voto no candidato A e acabe elegendo o candidato B. É imprescindível, portanto, evitarmos votar em partido e candidato que não nos representam. É uma tarefa difícil, visto que a maioria dos chamados “Partidos” não apresentam garantia de “representação”; bem como muitos “Deputados” dedicam todo seu tempo a algo bem longe do interesse dos seus eleitores.
A convicção de que o sistema democrático-representativo deve merecer a nossa preferência constitui a mola propulsora para construir adequado relacionamento com a representação política.
É tarefa difícil; contudo, muitas nações conseguiram realizar esse ideal e nós também podemos lográ-lo.

Prof. Leonardo Prota
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Declamação da poetisa e Acadêmica Leonilda Yvonneti Spina


"Sinto Vergonha de Mim"
de Cleide Canton


 Sinto vergonha de mim por ter sido educadora de parte desse povo, por ter batalhado sempre pela justiça, por compactuar com a honestidade, por primar pela verdade e por ver este povo já chamado varonil enveredar pelo caminho da desonra. Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser e ter que entregar aos meus filhos, simples e abominavelmente, a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez no julgamento da verdade, a negligência com a família, célula-mater da sociedade, a demasiada preocupação com o "eu" feliz a qualquer custo, buscando a tal "felicidade" em caminhos eivados de desrespeito para com o seu próximo. Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e vaidade, a tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido, a tantos "floreios" para justificar atos criminosos, a tanta relutância em esquecer a antiga posição de sempre "contestar", voltar atrás e mudar o futuro. Tenho vergonha de mim pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer... Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. Não tenho para onde ir pois amo este meu chão, vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a minha Bandeira para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade. Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro! Poema escrito em 03/09/2006 ---------------------------------------- "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".

Rui Barbosa, (parte de discurso no Senado, em 1914)
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MOMENTO DE ARTE


Convidamos o artista plástico Carlos Ruiz para apresentar algumas das suas pinturas, As telas impressionaram os presentes, pelos seus traços firmes e marcantes, onde a qualidade do desenho, a perspectiva, as cores e o equilíbrio se destacavam. Além de telas grandes, o artista trouxe também quadros menores, pois se dedica atualmente a pintar paisagens, segundo ele, aproveitando certos momentos do dia em que a iluminação favorece e destaca as cores. 
Carlos Ruiz trabalha como Terceiro Sargento, é Bombeiro Militar e autodidata - para ele a pintura é fundamental na sua vida, tendo feito seus primeiros experimentos ainda menino.
Nossas Acadêmicas Saide Maruch e Fátima Mandelli exibindo algumas
das obras do pintor Carlos Ruiz

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PALESTRA
"PARIS DAS LUZES SEGUNDO O MAPA DE ÉTIENNE TURGOT (1739)"
Pelo Acadêmico e Professor Ricardo Vélez Rodriguez *


O Acadêmico e Professor Ricardo Vélez Rodriguez apresentou a palestra "Paris das Luzes Segundo o Mapa de Étienne Turgot (1739) com o brilhantismo que lhe é característico, suscitando enorme interesse dos presentes.
Para tomar conhecimento do trabalho completo do palestrante, acesse o link:
O Pont-Neuf (que une a Île de la Cité às duas
margens do Sena) segundo o Plano Turgot-Bretez.
 É característica deste a perspectiva “a vôo de pássaro”,
que produz, no leitor, a sensação de estar
 voando sobre a cidade.

Les Les Halles et le Pilori segundo o Plano Turgot-Bretez.
   * Ricardo Vélez Rodriguez coordenou um dos primeiros centros de pós-graduação dedicados exclusivamente ao pensamento brasileiro, na Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de obras sobre o patrimonialismo e o Castilhismo, especializou-se em identificar as raízes históricas e culturais das mazelas que assolam a política brasileira.

Extratos da reunião de 14/06/2015

PALAVRA DO PRESIDENTE

O Amor que permanece para sempre
    

     O Dia dos Namorados, recentemente celebrado, sugere-nos uma reflexão sobre o Amor.
    “Será que o nosso amor permanecerá para sempre?”  Essa é a esperança de todo casal de noivos que, com os olhos brilhantes, ao dar-se as mãos, pronuncia, com entusiasmo e sentimento “Eu prometo”.
    É realmente possível casar e então perceber que aquele sentimento intenso de amor fica cada vez melhor? A resposta é sim!
    O primeiro passo para adquirir essa profunda satisfação de um amor a dois que permaneça para toda a vida é aprender a amar a própria vida, em todos os seus aspectos, bons e maus, ásperos e prazerosos. Apaixonar-se pela vida é o grande segredo da vivência de um amor que não morre. A vida é bela!
    O amor pela vida inclui um projeto de vida: a aspiração à sua  realização pessoal. De fato, não nasce já definido, mas constrói-se ao longo de sua existência; e essa construção é fruto de decisões. O ser humano escolhe livremente o caminho de dar sentido à sua própria existência.
      Por outro lado, na vivência do amor a dois, a pessoa que convive a seu lado é igualmente livre de dar sentido à sua vida. O projeto de vida individual, portanto, deverá levar em conta uma certa convergência de aspirações, respeitando a liberdade de cada um. A plena celebração do amor e da caminhada da vida do casal exige uma contínua vigilância para o conhecimento, sempre mais aprimorado, de si mesmo e do outro.
      Daí a necessidade do diálogo; um diálogo baseado na verdade e na sinceridade; a necessidade de sensibilidade; sensibilidade que é própria de um ser humano sumamente altruísta; a necessidade de manifestar, reciprocamente, pensamentos e sentimentos; a necessidade de reconhecer erros, quando houver, e de exteriorizar afeto, quando precisar. Esses momentos são preciosos para o mutuo conhecimento, visto que, individualmente, cada um tem sua peculiar personalidade.
     Falamos em decisões livres, em liberdade.
     Mas, afinal, em que consiste a liberdade? De acordo com Kant, o ser humano livre é aquele que não cede às suas inclinações e escolhe a lei moral. Ceder às próprias inclinações é escravizar-se. Quanto à lei moral, seu núcleo é constituído pelo ideal de pessoa, que  compreende as ideias de perfeição, responsabilidade, amor do próximo e liberdade.
    Esse ideal de pessoa, ou de pessoa ideal, é inserido, naturalmente, no ser humano, como algo divino, a que nos referimos, em nossas decisões - esclarece Kant - como protótipo que nunca será alcançado, mas sempre permanece como inspirador de realizações, como meta de contínuo aperfeiçoamento humano, quando aceito em decisões livres.
     Em termos de amor pela vida, na vivência de amor a dois, esse ideal está continuamente presente  nas decisões que frequentemente exigem resposta: decisões para o amor resultam em aprimoramento da personalidade; decisões para o egoísmo resultam em perda de oportunidade do aprimoramento desejado.
    O aprimoramento desejado leva o casal a uma etapa inesquecível do amor à vida, quando pode constatar  que o importante é ter vida nos anos de idade e não idade nos anos de vida. É um conforto envelhecer juntos, na plenitude de uma vida de amor.
    Em síntese: é possível para um casal vivenciar um sentimento de amor intenso que dure para sempre, quando hoje as estatísticas apontam, em muitos casos, em curta duração?
      Sim, é possível, desde que: 1 - Cada um aprenda a amar a própria vida em todos os aspectos, bons e maus; 2 - O amor pela vida inclui um projeto de vida: a aspiração à sua realização pessoal; 3 - O projeto de vida leve em conta uma certa convergência de aspirações, respeitando a liberdade de cada um; 4 - Para tanto, a necessidade de diálogo baseado na verdade e na sinceridade; 5 - O mútuo conhecimento leva ao respeito e ao reconhecimento da peculiar personalidade de cada um e, portanto, das decisões tomadas em liberdade.
      Realmente, o amor pode ser eterno; se por acaso acaba, não era amor.
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POESIAS
Nossa consagrada declamadora, Acadêmica e poetisa Leonilda Yvonneti Spina, apresentou três obras de sua autoria: "Que Mistério é Esse?", "Teu Abraço" e "Vem..."




QUE MISTÉRIO É ESSE?

- Que mistério é esse,
que a outro ser nos impele,
nos faz identificar
com seu jeito, o cheiro, a pele?

- Que mistério é esse,
que ao vê-lo, um doce arrepio
nos percorre as entranhas
e um súbito calor nos invade e aquece
com força e emoção tamanhas?

- Que mistério é esse,
que nos faz adivinhar carícias,
um delirar de amor sem fim?

- Que mistério é esse,
que acontece, quando
a um mero olhar, num segundo,
sabemos distinguir nosso par,
entre tantas pessoas do mundo?

- Que mistério é esse, enfim,
que o aproxima de mim?

Você surge em meu áspero caminho...
Transforma em flor afiado espinho.
E, de mansinho, entra em minha vida,
que então se torna alegre e florida!

Breves momentos de ternura...
É melhor tê-los,
que nesta vida breve
nunca vivê-los!

Não importa se ela perpassa
apenas num olhar,
passeia entre as palavras
e o coração vem alegrar...

Esses instantes de ternura,
rarefeitos no tempo e espaço,
tornam-se extremamente belos
ao calor de um abraço!


TEU ABRAÇO

Quando se abre teu largo sorriso
assim de repente, num doce improviso,
ouço trinar de aves, planger de sinos,
sussurrar de brisa, sopros divinos...

Quando se abre teu largo sorriso
e todo teu ser se inunda de luz,
fulguram auroras, murmuram cascatas,
teu rosto cativa, encanta, seduz!

Há uma meiguice estampada no olhar,
um carinho que reconforta e aquece...
- A paz que a alma sedenta vem buscar
nesta vida de anseios e dura messe.

E é na prece que consigo me aquietar,
rogando prudência em tudo o que digo e faço,
pois tenho medo de, sem querer, revelar
que adoro sentir o calor de teu abraço!


VEM...

Vem...
Mas não tragas o pó de outras andanças.
Não me despertes mortas esperanças.
Vem desarmado, solto, livre
como pássaro - romântico trovador.
Vem trazer-me tua voz, teu canto, teu calor.

Vem fatigado, descansar em novos prados.
Vem faminto, desprotegido, em busca de afeto.
Mas traze em tua mochila punhados de sonhos,
nos lábios o mel que me adoçará o riso,
nos braços a quentura de muitos sóis,
nos olhos a chama de mil velas.

Vem...
E me olha, me toca, me abraça.
Ansioso me enlaça, faze-me estremecer!

Vem...
E te entrega por inteiro, no fluir das horas.
Não te inquietes, não te preocupes em ir embora.
Vive o agora, o momento que breve passa!...

Ou então... Não venhas!
Que não te quero parte, metade.
Não te quero migalha... 

Quero um amor - de verdade!
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Informática, tecnologia e conhecimentos: 
o mundo passando a jato via internet. 


O Acadêmico, publicitário e blogueiro Julio Ernesto Bahr fez uma breve análise do caminho trilhado pela informática, desde a criação, em 1946, do ENIAC, o primeiro grande computador pesando 30 toneladas e consumindo 200.000 watts de energia e do Altair 8800 criado em 1975, considerado por muitos o pioneiro na era dos computadores pessoais, passando pela sequência das descobertas ocorridas no curso dos anos e que estão ligadas à informática.
Citou a necessidade do armazenamento de dados, desde os extintos disquetes criados nos anos 70, até os últimos Zip Disk, e na sequência os CDs e DVDs que passaram a integrar os computadores; do armazenamento de dados e da eterna busca da miniaturização, como os cartões de memória, o pen-drive, o HD externo e a disponibilização das chamadas “nuvens”, ou provedores com enorme capacidade de armazenamento.
Lembrou que a internet ou World Wide Web, que pode ser
ENIAC, o primeiro computador: 30 toneladas
de peso e consumo de 200.000 W
traduzida por ‘Rede Mundial’ e nos proporciona um sistema de documentos em hipermídia interligados, está completando 20 anos, abrindo espaços para a maior diversificação de produção intelectual, gráfica e artística em todos os quadrantes da Terra de que se tem notícia na História. 

O palestrante citou a grande dúvida, que tem muito a ver com a nossa Academia: para onde caminham as informações? Um mundo que nos desafia a uma breve análise da comunicação – que nada mais é do que a informação sob várias formas de expressão. Os jornais e revistas impressos em papel viram seus índices de leitura despencar. Citou o editor do jornal norte-americano The New York Times, Arthur Sulzberger, Jr., que admitiu durante palestra em um congresso de mídia em Londres que seu jornal deixaria de ser impresso em papel "em algum momento". 
Mencionou os canais de discussão abertos pelos portais, com espaços cada vez maiores para comentários sobre as matérias, inclusive com a participação de semianalfabetos.
Lembrou que com o advento da internet, em meados da década de 1990 surgiram os sites empresariais e blogs individuais, que foram se diversificando e multiplicando por milhares e depois milhões e a contratação pelos  jornais, revistas e outras mídias que mantém sites na rede mundial de profissionais conhecidos pelo público para colaborar com conteúdo.
Mencionou Gordon Smith, presidente da National Association of Broadcasters, que em recente congresso falou do enorme crescimento de websites no mundo: hoje já são mais de 1 bilhão em contrapartida a cinco anos atrás, quando havia em torno de 200 milhões. As pessoas assistem a centenas de milhares de horas de vídeo no Youtube e publicam mais de meio bilhão de Tweets (mensagens) diariamente.  
Citou ainda os seguidores tão aficionados às redes sociais que deixam de ler e acessar qualquer outro canal de informação, atendo-se apenas ao que leem e aos vídeos que assistem nas postagens dos chamados “amigos de Face”. Essa multiplicidade de informações nem sempre verídicas acaba por causar uma distorção no entendimento, na compreensão, na educação e até na linguagem deste tipo de internauta. 
Lembrou a figura do viciado em celular, com o qual esbarramos a cada momento – é fácil de identificá-lo, sentado em bares, restaurantes, bancos de praça, ônibus e até caminhando na rua, sempre teclando no seu celular. Deste vício surgiu a expressão Nomofobia, termo muito recente e que significa uma fobia ou sensação de angústia que aparece quando alguém se sente impossibilitado de se comunicar ou se vê incontatável sem seu aparelho de celular. Hoje existem no Brasil cerca de 30% mais celulares do que o número de habitantes. Finalizou afirmando que não existem gurus nem profetas que possam imaginar como será o mundo da informática dentro de cinco anos. 
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Momento de Arte
Narciso Coppo Filho



O artista e professor Narciso Coppo Filho, convidado para a apresentação no Momento de Arte da Academia, trouxe várias das suas obras e relatou sobre suas experiências com a pintura, desde os estudos das obras de Van Gogh e outros impressionistas, seus trabalhos com esculturas, até as telas que pinta atualmente abordando o tema mar – praias, navios, água. Uma das telas foi preparada com materiais agregados às tintas a óleo, como cascas de árvores, areia e outros elementos. O artista também produz estamparias a serem utilizadas em fashion
design. 
Adota óleo sobre tela e, em suas esculturas, trabalha com sucata. Algumas das telas apresentadas são uma releitura de obras impressionistas. O resultado das suas obras foi bastante elogiado pelos presentes.
    
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Palestra
“Signos, símbolos e representações na literatura de cordel”

Alcides Victor de Carvalho *

O Acadêmico e Professor Alcides Victor de Carvalho nos brindou com a apresentação de palestra focando a literatura de cordel: com projeção de várias imagens, explicou o significado de signos, símbolos e representações na literatura de cordel, criada por pessoas pouco alfabetizadas, mas que obedecem rigidamente à metrificação poética, contando histórias, lendas e mitos.
Explicou aos presentes o porquê do formato praticamente padronizado – os poetas aproveitavam papel de embrulho de pães para executar suas rústicas impressões.
Mostrou-nos vários exemplos de capas dos livretes, criados em xilogravura – os autores se utilizam de instrumentos rústicos para esculpir a madeira – e as irregularidades da tipologia na impressão dos versos, pois são aproveitados tipos de fontes diferentes, obtidos de sobras de velhas tipografias. Falou-nos sobre a origem do nome cordel, quando os livretes eram vendidos em cordas de varais, presos com pregadores de roupa. 
Segundo o professor, a literatura de cordel é provavelmente mais numerosa e mais vendida do que os livros das editoras, pois são tiragens de milhares de exemplares, frutos de uma produção intensa por vários e vários cordelistas.
O palestrante mostrou a imagem de um texto original escrito por Patativa do Assaré no hospital, dias antes de frustrada viagem para a França, a convite, para falar da sua obra. Patativa do Assaré era o nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva e nasceu na cidade de Assaré (Ceará), um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Com uma linguagem simples, porém poética, destacou-se como compositor, improvisador e poeta, além de produzir literatura de cordel.
Para surpresa dos presentes, o Prof. Alcides relatou que o segundo maior acervo de literatura de cordel no mundo está aqui na cidade de Londrina, na Biblioteca da UEL – Universidade Estadual de Londrina, acervo para o qual colaborou com milhares de obras recolhidas em suas viagens pelo Nordeste, para o trabalho de sua tese de doutorado na França. Pouco conhecidos, o Paraná conta também com autores de literatura de cordel. E mais surpreendente ainda foi a revelação de que o maior acervo de literatura de cordel no mundo se encontra no Japão e o terceiro na Universidade de Poitiers, França.

*Atua no Magistério, é Mestre em Literatura Popular, pela Sorbonne, foi Secretário Municipal da Cultura de Londrina, Diretor da Casa da Cultura da UEL e Assessor Cultural da Unesco, entre outros cargos.

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Nosso Acadêmico Trovador premiado!

O Acadêmico e Trovador, Maurício Fernandes Leonardo, declamou Trovas de sua autoria, classificadas em recentes concursos nacionais de Trovas, promovidos pela UBT - União Brasileira de Trovadores, apresentando o troféu e certificados que lhe foram concedidos.