REUNIÃO NA MODALIDADE REMOTA EM 09/05/2021




Acadêmica Ludmila Kloczak

Caros acadêmicos, convidados e visitantes à reunião da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina,
Estamos em pleno outono, neste mês de maio em que se comemoram eventos significativos para a história e a cultura. Celebramos o trabalho e os trabalhadores e o ato que determinou a libertação dos escravos africanos no Brasil. Homenageamos e agradecemos às mães a sua contribuição fundamental para a estrutura da sociedade humana. Respeitamos a experiência místico-religiosa de Nossa Senhora de Fátima, vivida em Portugal que fortaleceu o espírito cristão em terras portuguesas e brasileiras.
Recentemente, assisti a um vídeo em que se perguntava às pessoas, caso pudessem realizar, o que escolheriam para fazer que lhes traria felicidade? As respostas variaram entre visitar os pais, ficar mais tempo com os filhos em casa, convidar amigos para uma roda de conversa, viajar, ouvir música em casa, sozinhos. Chamou-me a atenção que não houve qualquer resposta que mencionasse alguma atividade relacionada ao trabalho. O que traz felicidade tem a qualidade de nos afastar o mais distante possível do trabalho. Nossas expectativas nos levam a imaginar oportunidades de relaxar, desligar, libertar-se do trabalho.  O que nos ocupa a maior parte das nossas horas diárias e, se considerarmos que a vida escolar não deixa de ser uma forma de trabalho, no mínimo dois terços das nossas vidas, é dedicada ao trabalho. Esta atividade organizada em todas as sociedades para mantê-las vivas e em funcionamento, não é vista como fonte de felicidade.
É uma constatação que remete ao propósito da vida. O que o ser humano deseja é ser feliz. Ser feliz envolve ausência de sofrimento e de desprazer e a realização de experiências de mais intenso prazer. O que determina o propósito da vida é regido por todos os aspectos que envolvem o princípio do prazer, o qual ocupa e direciona nossas mentes desde o princípio. Entretanto, se a condição para a felicidade depende de atender plenamente ao princípio do prazer, estamos condenados ao insucesso. No sentido mais ponderado do termo, a busca pelo prazer está contida nas respostas dos entrevistados. Esperam obter satisfação de necessidades inibidas, represadas, cujo resultado é efêmero e pontual. Nossa constituição mental reconhece experiências de prazer intenso por contraste com a carência. Aproveitamos pouco das situações de bem-estar prolongadas como fonte de prazer. Acabamos por nos cansar e entediar. 
 Por outro lado, a infelicidade é uma companheira muito mais presente em nossas vidas, seja pela condição do nosso corpo que tende à decadência e à morte anunciada; seja pelo que o mundo externo nos oferece em desafios, derrotas, agressões e destruição; seja pelas frustrações advindas dos nossos relacionamentos com nossos semelhantes. Esta ambivalência que nos constitui, levou a moderar nossas reivindicações de prazer pleno e absoluto e a aceitar a influência das condições do mundo externo que submeteu a meta do princípio do prazer ao princípio da realidade. Na prática, esta transformação salvou o homem de si mesmo. 
Entretanto, não há outra atividade humana tão bem constituída para prender o indivíduo à realidade do que a dedicação dispensada ao trabalho. Este fornece-lhe um lugar seguro e definido na comunidade humana. Mas, a atividade laboral e profissional só se constitui fonte de satisfação prazerosa quando se assenta no uso das inclinações pessoais, das identificações, ou seja, de impulsos constitucionais persistentes e reforçados em direção à natureza do trabalho exercido. É inevitável que nem sempre seja possível escolher livremente a atividade a exercer. E a grande maioria das pessoas só trabalha pressionada pela necessidade. Neste caso, dificilmente, o trabalho tomará o lugar de fonte do princípio do prazer. 
Há de se considerar que é da natureza do trabalho, uma ambiguidade constitucional. Mesmo que ele possa proporcionar satisfações, sua vinculação ao suprimento das necessidades de sobrevivência, ao sofrimento da luta pela vida, transforma-o em objeto do grande acordo psíquico individual e social entre o princípio do prazer e a realidade. Uma parcela bem pequena da população humana faz do trabalho sua fonte de sublimação dos instintos e transformação dos mesmos em prazer criativo. 
Obs: Ensaio inspirado em: Freud, S. (1930) O Mal-Estar na Civilização. Standard Brasileira, v. XXI, pp. 81-171.



Sobre a liberdade: breves considerações reflexivas
Acadêmico Sergio Alves Gomes*

No  momento “Palavra do Orador”, o Acadêmico Sergio Alves Gomes, Orador da ALCAL, após breve saudação aos presentes à reunião, apresentou, sinteticamente, comunicação intitulada “Sobre a Liberdade: breves considerações”. Segue o texto integral em que se baseou sua participação na reunião. 

Em 21 de abril, o Brasil homenageia Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, “Mártir da Independência”, que, em 1792, foi levado ao cadafalso, por participar da “Inconfidência Mineira”. Os integrantes deste movimento se opunham ao pagamento à Coroa Portuguesa da quinta parte do ouro encontrado nas minas em exploração e lutavam pelo fim da submissão a Portugal. “Tiradentes foi enforcado num cenário típico das execuções no Antigo Regime” (1). Uma morte histórica e simbólica, na luta pela liberdade.
No dia 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel, então Princesa Regente, sancionou a Lei Imperial 3353, que extinguiu, a partir daquela data, a escravidão no Brasil. Obviamente, tem-se aí um outro marco histórico em prol da liberdade. No entanto, a história registra que “a abolição da escravatura não eliminou o problema do negro. A opção pelo trabalhador imigrante, nas áreas regionais mais dinâmicas da economia, e as escassas oportunidades abertas ao ex-escravo, em outras áreas, resultaram em uma profunda desigualdade social da população negra. Fruto em parte do preconceito, essa desigualdade acabou por reforçar o próprio preconceito contra o negro. Sobretudo nas regiões de forte imigração, ele foi considerado um ser inferior, perigoso, vadio e propenso ao crime; mas útil quando subserviente” (2)
O tema da aspiração por liberdade se faz presente em múltiplas manifestações artísticas, aqui exemplificadas pela composição musical  “Upa Neguinho”, de EDU LOBO, quando diz: “Upa neguinho na estrada, upa pra lá e prá cá, vixi que coisa mais linda, upa neguinho começando a andar, começando a andar. E já começa a apanhar”[...] Capoeira, posso ensinar. Ziquizira, posso tirar. Valentia, posso emprestar. Mas liberdade só posso esperar.” 
O “Hino da Proclamação da República” faz da liberdade o seu refrão, ao dizer: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!”. Evidencia assim que não haverá verdadeira República onde não houver liberdade garantida para todos. Também não há democracia sem liberdade, por ser esta um dos “valores supremos” do Estado Democrático de Direito e, por isso mesmo, um direito fundamental, conforme preceituam, respectivamente, o preâmbulo e o art. 5º da Constituição Federal. 
Mas o que é liberdade? Quais são as suas dimensões? Qual sua relação com outros valores e direitos como a vida, a igualdade, a segurança, a justiça, a propriedade? Como a liberdade é considerada no âmbito da Democracia? É possível liberdade sem desenvolvimento e sem redução das desigualdades sociais? 
O filósofo ISAIAH BERLIN (3) apresenta dois conceitos de liberdade: liberdade negativa e liberdade positiva. Negativa é a liberdade que responde a seguinte pergunta: “Qual é a área que o sujeito - uma pessoa ou um grupo de pessoas – deve ter ou receber para fazer o que pode fazer, ou ser o que pode ser, sem que outras pessoas interfiram?” Liberdade positiva tem a ver com a aspiração do indivíduo de ser seu próprio senhor. Nas palavras de Berlin: “Quero ser alguém e não ninguém, alguém capaz de fazer - decidindo, sem que decidam por mim, autoconduzido e não sofrendo influências de natureza externa ou de outros homens como se eu fosse uma coisa, um animal, um escravo incapaz de interpretar um papel humano, isto é, de conceber metas e diretrizes inteiramente minhas, e de concretizá-las. Eis aí – exclama, pelo menos parte do que quero expressar quando digo que sou racional e que é minha razão que me distingue, por ser humano, de todo o resto do mundo”. (4)
BENJAMIN CONSTANT, pensador e político franco-suiço, proferiu em 1819, no Ateneu Real de Paris, um célebre discurso intitulado “A liberdade dos antigos comparada à dos modernos” (De la liberté des anciens comparée a celle des modernes”), que, pela sua atualidade, merece ser trazido à reflexão.  Para ele, a liberdade dos modernos “é para cada um o direito de não ser submetido senão às leis, de não poder ser preso, detido, condenado à morte nem maltratado de maneira alguma pela só vontade arbitrária de um ou de vários indivíduos. É para cada um o direito de manifestar sua opinião, de escolher sua profissão e de exercê-la; de dispor de sua propriedade ou mesmo de abusar dela; de ir e vir sem precisar de permissão e sem prestar contas dos seus motivos ou dos seus passos. É para cada um, o direito de reunir-se com outros indivíduos, seja para debater sobre seus interesses, seja para professar o culto preferido por ele por seus companheiros; seja, simplesmente, para preencher seus dias e suas horas da maneira mais conforme às suas inclinações, às suas fantasias. Enfim, é o direito de cada um influir sobre a administração do governo, seja pela nomeação de todos ou de certos funcionários, seja pelas representações, petições e requerimentos que a autoridade é mais ou menos obrigada a levar em consideração.” 
Em seguida, CONSTANT compara a liberdade dos modernos com a dos antigos, mostrando que para estes a liberdade “consistia em exercer coletivamente, mas de forma direta, muitas partes da própria soberania, em deliberar, em praça pública, sobre a guerra e a paz, em celebrar com os estrangeiros tratados de aliança, a votar as leis, em realizar os julgamentos, em examinar as contas, os atos, a gestão dos magistrados, em fazê-los comparecer perante todo o povo, em acusa-los, em condená-los ou em absolvê-los. Mas ao mesmo tempo em que isso era denominado pelos antigos de liberdade, eles admitiam, como compatível com essa liberdade coletiva, a sujeição completa do indivíduo à autoridade do conjunto”[...]. (5)
As lições de ISAIAH BERLIN e  BENJAMIN CONSTANT nos instigam a contemplar a liberdade, na  Constituição do Estado Democrático de Direito, como direito fundamental que se apresenta com múltiplas dimensões -  por ex. liberdade de locomoção, liberdade religiosa e de culto, de consciência, de reunião, de ensino, de imprensa... -  e perguntar sobre quais  aspectos da liberdade  dos antigos e dos modernos são conciliáveis na construção da democracia para os tempos atuais. Talvez algum lampejo sobre isso seja aqui possível.
A Carta Magna de 1988 é fruto da superação de um contexto histórico autoritário em que a liberdade foi violada em vários aspectos. Exatamente para assegurar as múltiplas dimensões da liberdade, alçada à qualidade de direito fundamental, que vários dispositivos constitucionais a asseguram. No entanto, a liberdade não está isolada dos demais direitos, para que possa efetivamente realizar-se.  A Constituição requer interpretação sistemática e teleológica, ou seja, nenhum dispositivo constitucional pode ser interpretado isoladamente e sem conexão com os fins (objetivos) visados pelo texto constitucional. No regime democrático, os direitos são complementares e interdependentes. Por isso, a liberdade, enquanto direito, pressupõe outros direitos também fundamentais: o “direito à vida, à igualdade, à segurança, à propriedade, à saúde, à educação, ao trabalho digno, ao meio-ambiente saudável e, sobretudo, é a liberdade que encontra limites no próprio ordenamento jurídico democrático, a fim de que todos possam gozar de liberdade sem transformá-la em opressão, abuso e domínio do outro e da “coisa pública”. A ausência de limites democraticamente estabelecidos em prol do “bem comum” ou o rompimento destes já não corresponderia nem à liberdade dos antigos, nem a dos modernos, analisadas por Constant. Embora sejam concepções distintas, em ambas há limites considerados por seus defensores como legítimos ao exercício da liberdade.   
É fundamental destacar também a conexão entre liberdade e responsabilidade, tanto nas atividades privadas quanto naquelas exercidas no espaço público. A responsabilidade pressupõe liberdade para escolher, decidir e agir. Por outro lado, a liberdade implica responsabilidade de quem age livremente pelas consequências de seu agir, pois responde não apenas perante sua consciência, mas também deve prestar contas à sociedade, conforme a natureza e a relevância jurídica dos atos praticados, sejam estes lícitos ou ilícitos.     
Assim, os princípios que regem a República e o Estado Democrático de Direito, conforme previsão constitucional, atestam que ninguém tem liberdade garantida por lei para agir irresponsavelmente. Em outras palavras: em termos de liberdade, a Constituição só garante o seu exercício responsável. 
A irresponsabilidade adotada nos regimes monárquicos absolutistas não encontra respaldo no âmbito da democracia, mesmo quando se queira ignorar a evolução da história e das instituições. O Estado absolutista assumia por princípio o lema “The king can do no wrong” ( o rei não erra). Destarte, sustentados pela teoria da origem divina do poder, muitos monarcas entendiam que somente a Deus deviam prestar contas, mas  nunca ao povo. A Constituição do Império do Brasil, de 1824, em seu artigo 99, evidenciando a perigosa e nefasta mistura entre religião e política dizia literalmente: “A pessoa do Imperador é inviolável e sagrada: Ele não está sujeito a responsabilidade alguma”. (6)
Vê-se, assim, que enquanto milhões de seres humanos viviam reduzidos à condição de escravos e sonhavam por liberdade, os monarcas absolutistas, com seus arbítrios sem limites, protegiam-se de qualquer punição, sob o manto da legal e garantida irresponsabilidade. E isso ao longo de séculos, especialmente nos países colonizadores. Todavia, a história não é estática. 
Na Democracia, o exercício responsável da liberdade significa respeito ao “bem comum”. No contexto democrático, todo indivíduo é pessoa dotada de dignidade. E exatamente por ser tal dignidade inerente a todos os humanos, torna-se inadmissível a coisificação do outro, o menosprezo e ataques a princípios e a direitos fundamentais garantidos constitucionalmente. A democracia é construção que se dá no convívio das múltiplas liberdades. As limitações a estas se reduz àquelas expressamente previstas na Constituição e leis com esta consonantes, a fim de que o convívio social seja harmônico, pacífico e o mais justo possível, sem arbitrariedades e abuso de qualquer espécie de Poder, de modo a se garantir, sem qualquer discriminação preconceituosa, o respeito à dignidade, aos direitos humanos e fundamentais em todas as suas dimensões(direitos civis, políticos, econômicos, culturais, ambientais...). Não há liberdade e ausência de opressão sem a criação das condições políticas, econômicas e sociais que possibilitem seu efetivo exercício por todos. Nem há liberdade garantida para menosprezar, lesar ou ameaçar qualquer outro direito fundamental (ex. vida, saúde, educação, meio ambiente saudável...). Em liberdade se vive não apenas no âmbito privado e individual. A livre participação da vida no espaço público dos interesses coletivos é dimensão essencial da cidadania. Mas, para isso, é preciso enfrentar outro grande desafio: propiciar a toda a população benefícios decorrentes não apenas do crescimento  mas do efetivo desenvolvimento (7) sócio-econômico e cultural,  impulsionado pela condição de possibilidade deste: uma bem qualificada EDUCAÇÃO PARA A LIBERDADE.  
Por último, a fim de   motivar o empenho para que tal ocorra, é bom concluir evocando uma vez mais o “Hino da Proclamação da República”
“Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!”

Notas:
(1) FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 1997, p.117.
(2) Idem. Ibidem, p.221.
(3) Apud GARCIA, Maria. Desobediência Civil: Direito Fundamental. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1994, p.22.
(4) Idem. Ibidem, p.22.
(5) CONSTANT, Benjamin. A Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos. São Paulo: Atlas, 2015 (Coleção Clássicos do Direito), p.77-78.
(6) BRASIL. [Constituição (1824)]. Constituições Brasileiras de 1824 a 1988. Organizado por Vanuza Cavalcanti e Antonio Becker. Rio de Janeiro: Letra Legal, 2004, p.16.
(7) AMARTYA SEN, ganhador do Prêmio Nobel em Economia (1988), faz a seguinte relação entre liberdade e desenvolvimento: “ O desenvolvimento requer que se removam as principais fontes de privação de liberdade: pobreza e tirania, carência de oportunidades econômicas e destituição social sistemática, negligência dos serviços públicos e intolerância ou interferência excessiva de Estados repressivos. A despeito de aumentos sem precedentes na opulência global, o mundo atual nega liberdades elementares a um grande número de pessoas – talvez até mesmo à maioria. Às vezes a ausência de liberdades substantivas relaciona-se diretamente com a pobreza econômica, que rouba das pessoas a liberdade de saciar a fome, de obter uma nutrição satisfatória ou remédios para doenças tratáveis, a oportunidade de vestir-se ou morar de modo apropriado, de ter acesso a água tratada ou saneamento básico. Em outros casos, a privação de liberdade vincula-se estreitamente à carência de serviços públicos e assistência social, como por exemplo a ausência de programas epidemiológicos, de um sistema bem planejado de assistência médica e educação ou de instituições eficazes para a manutenção da paz e da ordem locais. Em outros casos, a violação da liberdade resulta diretamente de uma negação de liberdades políticas e civis por regimes autoritários e de restrições impostas à liberdade de participar da vida social, política e econômica da comunidade”. Cf. SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade,3ªreimp. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.18.

* Sergio Alves Gomes é Doutor em Direito: Filosofia do Direito e do Estado, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Professor Associado da Universidade Estadual de Londrina (Departamento de Direito Público), na qual é também Professor colaborador do Programa de Mestrado/Doutorado em Direito Negocial; Magistrado (Juiz de Direito aposentado) e Ocupante da Cadeira 36 (Patrono: Hugo Gutierrez Simas) da Academia de Letras, Ciências e Arte de Londrina.


Wagner Costa*
"O violino no período barroco"

Nosso Momento de Arte contou com o premiado violonista londrinense, Wagner Costa, apresentando as músicas de J. S. Bach (Partita 2 em Ré menor Allemande e Partita 2 em Ré menor Sarabande) e de G. P. Telermann (Fantasia n. 1 em Si bemol). 


* Natural de Belém do Pará, iniciou seus estudos musicais aos seis anos de idade no Conservatório Carlos Gomes, onde integrou a Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz. 
É integrante da Orquestra Sinfônica da Universidade  Estadual de Londrina e da Orquestra de Câmara Solistas de Londrina. 
Graduado em licenciatura em música pela Universidade Estadual de Londrina, foi o único representante do Paraná na Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem que contou com representantes de todos os estados do País.
Participou de alguns dos mais importantes festivais do cenário nacional, dentre eles: FEMUSC (Festival de Música de Santa Catarina), Festival Internacional do Pará, Festival de Música de Londrina, Oficina de Música de Curitiba e Festival de Inverno de Campos do Jordão. 
Em 2019 ganhou uma bolsa de estudos de um mês no Conservatório Cesare Pollini, Pádova – Itália.
Atualmente estuda com Davi Graton, spalla assistente da OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). Teve master classes com importantes professores do cenário nacional e internacional, dentre eles: Evgueni Ratchev (BUL), Eva Székely (EUA), Elisa Fukuda (BRA), Emmanuele Baldini (ITA) , Elio Orio (ITA) , Cármelo de los Santos (BRA) e Carla Rincon (VEN).


CIÊNCIA: A BOA SENHORA QUE NOS ILUMINA E CONDUZ
Acadêmico Marco Antonio Fabiani

Gostemos ou não, somos legítimos descendentes do Iluminismo. Filhos do século XVIII, ou século das luzes, com seu fervilhar de pensamentos inovadores, muitas vezes caóticos, contraditórios, (tão comuns no surgimento de ideias ainda imaturas), que fundou uma nova era. E estamos nela ainda. Vivemos sob a égide do choque de pensamentos que rivalizavam entre si para explicar a máquina do mundo. Foi no século XVIII o encontro e a fusão de conceitos lentamente construídos pela humanidade, sobretudo nos meados do sec. XVI e XVII. Brotaram à época as sementes plantadas na antiguidade clássica, na renascença, na longuíssima idade média. Uma transformação como poucas vezes se viu. 
Se não foi um tempo inventor, foi de florescimento. E nos deu uma de suas flores mais belas, a ciência. Um impacto mental que a tudo desenhou sobre bases novas, sistematizadas, assentada na observação atenta da natureza e na explicação de seus fenômenos a partir da percepção dos sentidos. Vale o que se vê, o que se toca, o que se ouve. A dúvida torna-se soberana ocupando o lugar das certezas petrificadas. Data desse período as inovações que fundaram o progresso técnico que viria a se desenvolver através dos séculos. Num sentido amplo sempre fizemos ciência, mas não com rigor e amplitude que o iluminismo nos deu. Somos devedores a ele.
“Com a grande revolução científica e filosófica do sec. XVII, foi se formando e reforçando um determinado modo de conceber a ciência que, embora atacado de muitos lados e por várias razões, ainda está presente no mundo contemporâneo. Que a ciência seja uma lenta construção, nunca concluída à qual cada um, nos limites de suas forças e suas capacidades, pode trazer a sua contribuição; que a sua colaboração, a cooperação e, portanto, a criação de ‘institutos’ sociais e linguísticos adequados sejam essenciais para o progresso da ciência; que a pesquisa científica tenha o benefício não de uma única pessoa, raça ou grupo, mas de todo o gênero humano.” (Paolo Rossi)1  
O método da ciência se funda no experimento. Na hipótese científica, que se pode confirmar ou não. E a confirmação só pode estar na realidade das coisas. Por isso mesmo, ela, a ciência, habita o país das verdades transitórias e dos diferentes graus de incertezas.  
Vem daí resistências e incompreensões. Podemos compreender que os antigos representantes da fé vissem nesse método uma ameaça a verdades estabelecidas por séculos. Fatos históricos como o embate de Galileu com a igreja católica sobre a centralidade da terra foi o mais famoso e atravessa os séculos. No entanto, até hoje observamos um antagonismo confuso criado entre a ciência e a fé, como se fossem excludentes. O que tem sido um erro grave a semear confusão e aumentar a intolerância que lamentavelmente vem dividindo sociedades. Quando, a bem da verdade, a ciência e a fé tratam de esferas diferentes da infinita condição humana. Têm objetos diferentes e não competem entre si. 
Para a ciência não há o metafísico e foi graças a esse discurso que chegamos ao século XXI com progressos notáveis. Descobrimos o mundo dos átomos (em outras palavras o funcionamento íntimo da matéria), os microrganismos, a estrutura básica da célula e da reprodução da vida. E, como recomenda o autor citado, em benefício de toda a humanidade. Ao longo dos séculos entendemos as doenças, como preveni-las, como trata-las. O que se pode perceber num fato próximo a nós. A erradicação de doenças como a varíola, poliomielite, o controle de moléstia que eram um flagelo como tuberculose. E, o fato maravilhoso de que o Brasil aumentou, em pouco mais de meio século, 20 anos a expectativa média de vida ao nascer. 
Independente do uso que se faça do conhecimento ele é, em si, positivo. Mesmo aqueles como a fissão nuclear, cujo efeito colateral levou a um poder destruidor sem precedentes. Ou o uso distorcido e inaceitável da genética para validar teorias supremacistas. No entanto, ao serem recolocados dentro de balizas éticas, deixaram um legado que superou amplamente os aspectos negativos. Como, por exemplo, tratamentos à base de radioterapias e conhecimento sobre doenças hereditárias.
“Tendo rejeitado o antigo jugo, os homens fixarão suas novas leis e normas com a ajuda de meios puramente humanos – já não há mais lugar, aqui, para a magia nem para a revelação. À certeza da luz descida do alto substituir-se-á a pluralidade de luzes que se difundem de pessoa para pessoa. A primeira autonomia conquistada é a do conhecimento. Este parte do princípio de que nenhuma autoridade, por mais bem estabelecida e prestigiosa que seja, está livre da critica. O conhecimento só tem duas fontes, a razão e a experiência e, ambas são acessíveis a todos.” (Tzvetan Todorov)2.
Mas é fundamental lembrar que a planície ensolarada do saber nunca está livre de sombras e obscuridades. Hoje vivemos a maior tragédia sanitária mundial em mais de cem anos e, no entanto, em contraposição à ciência e suas luzes, cresce o fantasma da negação. Não se trata aqui do compreensível receio que as pessoas comuns possam ter diante do desconhecido, tanto da pandemia como das soluções propostas. Mas, mais profundo e mais grave, uma sistemática e organizada agressão a recomendações cientificamente provadas. A origem desse negacionismo encontra-se em grande medida enraizada no solo fundamentalista, além de partidos político, de várias denominações religiosas. São concepções de fé que não evoluíram e repousam em preceitos arcaicos abandonados pelas principais correntes. Basta lembrar simbolismo do Papa Francisco a orar numa praça de São Pedro vazia e triste no pior momento da pandemia na Itália. Um ritual que serviu de alento e esperança e que não se contrapôs às recomendações científicas.  A autoridade máxima da igreja católica, por sua vez, sempre atendeu e recomendou as proposições da ciência.  
A sombra negacionista minimiza a dimensão da pandemia, duvida das estatísticas e, o que é mais grave, solapa as bases das soluções propostas. Em plena pandemia, por exemplo, vemos crescer, sem qualquer argumento plausível, movimentos antivacinas. Em vários países, e entre eles o Brasil, aumenta a resistência a recomendações simples, mas fundamentais, infinitas vezes utilizadas, como distanciamento social e uso de máscaras. São medidas não farmacológicas eficazes, mas contestadas com argumentos só podem ser classificados como anticientíficos. E, apesar das dificuldades inerentes ao enfrentamento de situações dessa dimensão, os que seguiram as orientações pautadas no conhecimento obtiveram melhores resultados. Vidas poupadas e vem superando, num tempo menor, a catástrofe. Voltemos os olhos, portanto, à ciência e o bom saber. Como lembra o professor Todorov, em seu trabalho sobre as Luzes:
“O princípio de autonomia revoluciona tanto a vida do indivíduo quanto a das sociedades. O combate pela liberdade de consciência, que deixa a cada um a escolha de sua religião, não é novo, mas deve ser perpetuamente recomeçado; ele se prolonga numa demanda de liberdade de opinião, de expressão, de publicação. Aceitar que o ser humano seja fonte de sua lei é também aceitá-lo por inteiro tal como é, e não como deveria ser. Ora, ele é corpo e espírito, paixões e razão, sensualidade e meditação.”(Tzvetan Todorov)3.
 A duras penas vamos aprendendo que a luz do conhecimento é uma flor extremamente frágil, constantemente atacada pelo obscurantismo, pelo autoritarismo, crendices e manipulações de toda a ordem. É necessário constantemente rega-la com a água pura do saber, buscar nos pensadores do passado e do presente o bom adubo. Só assim podemos olhar com iluminada esperança, o futuro.
      1-“Os filósofos e as máquinas.”  Edição Companhia das letras - Paolo Rossi 
      2 e 3-“O espírito das Luzes” Edição Barcarola – Tzvetan Todorov
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De carbono e ferro são feitas as mães
Acadêmico Paulo Briguet

Mãe não entende se você não come tudo que está no prato.
Mãe não aceita desculpas do tipo "Se os outros podem, por que eu não posso?"
Mãe responde: “Os outros não são meus filhos”.
Mãe adora ouvir o barulho da fechadura quando o filho chega.
Mãe tem cheiro de banho, tem cheiro de bolo, tem cheiro de casa limpa.
Mãe fica assustada quando vê o caso daquela modelo que morreu de anorexia: “Eu já falei pra você comer tudo!”
Mãe fica assustada quando lê notícia de assalto. Mãe fica assustada quando lê notícia de acidente.
Mãe fica assustada quando lê notícia de briga. Mãe fica assustada quando lê notícia. Mãe fica assustada.
Mãe não está nem aí para os que os outros pensam.
Mãe foge com o filho para o Egito, montada em burrico.
Mãe tem sonho. Mãe tem pressentimento.
Mãe tem sexto sentido — e sétimo, oitavo, nono. Mãe não faz sentido (para quem não é mãe).
Mãe chora ao pé da cruz. Mãe chora em rebelião. Mãe chora se o filho é Messias ou bandido.
Mãe acredita.
Mãe não pode ser testemunha no tribunal. Mãe é café com leite.
Café com leite, pão com manteiga, biscoito, bolacha de água e sal, banana cozida.
E ainda faz você levar um pedaço de bolo pra casa.
Mãe só tem uma, mas é tudo igual. Mãe espera o telefone tocar. Mãe espera a campainha tocar.
Mãe espera o resultado do vestibular. Mãe espera o carteiro. Mãe espera o telefonema. Mãe espera e-mail. 
Mãe espera. Mãe sempre espera.
Mãe ama. Assim, verbo intransitivo, como queria Mário de Andrade.
Porque, se é mãe, já se sabe o que ela ama.
A culpa é da mãe, dizem os freudianos superficiais.
Os verdadeiros freudianos sabem que, sem mãe, nada feito.
Uma amiga costuma dizer: “Pai é palhaço, mãe é de aço!”.
A frase é interessante, porque o aço é uma liga de ferro e carbono.
Ferro é o símbolo da força; carbono é o elemento presente em todos os organismos vivos.
A mãe constitui a liga entre a fragilidade e a força do indivíduo.
Não há algo mais vulnerável e mais sólido que a maternidade. Mãe é de aço.
Só fica difícil fazer um poema em homenagem a ela. 
Sabe por quê? Mãe só rima com mãe.


Um tributo a Anísio Teixeira
(Patrono da Cadeira 19 da nossa Academia)

Acadêmica Neusi Aparecida Navas Berbel*




Referências utilizadas para a palestra:

ABREU, Jaime et al. Anísio Teixeira: Pensamento e Ação. Col. Retratos do
Brasil 3. ed. Civilização Brasileira,1960.
COUTINHO, Afrânio. Discurso proferido na Academia Brasileira de Letras.
Folha de São Paulo, 3 de abril de 1971. In: Geribello, Wanda Pompeu. Anísio
Teixeira. Análise e sistematização de sua obra. São Paulo, Atlas, 1977. P 37.
GERIBELLO, Wanda Pompeu. Anísio Teixeira. Análise e sistematização de sua
obra. São Paulo, Atlas, 1977.
RIBEIRO, Darcy. Anísio Teixeira, pensador e homem de ação. In: Anísio
Teixeira: Pensamento e Ação. Vários autores. Col. Retratos do Brasil 3. ed.
Civilização Brasileira,1960.
Santos Assunção , Kelli Regina dos. As contribuições do educador Anísio
Teixeira para a formação do pensamento pedagógico da educação brasileira.
Revista Travessias. v. 8, n. 1, 2014.
TEIXEIRA, Anísio Spínola. A educação escolar no Brasil. In: FORACCHI,
Marialice M.; PEREIRA, Luiz. Educação e sociedade: leituras de sociologia da
educação. 12 ed. São Paulo: Editora Nacional, 1985, p. 388-413.
TEIXEIRA, Anísio Spínola. Educação é um direito. São Paulo: Editora
Nacional, 1967. 221 p.
TEIXEIRA, Anísio. Pequena introdução à filosofia da educação: a escola
progressiva ou a transformação da escola. São Paulo: Cia. Editora Nacional,
1968.
VIANA FILHO, Luís. Anísio Teixeira: a polêmica da educação. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1990.


* Pedagoga pela Universidade Estadual de Londrina (1971), Mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense (1982), Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (1992), Pós-doutora em educação pela UNICAMP (2010). Atuação na UEL desde 1972. Aposentada da UEL em abril/2015. Experiência na área de Educação, com temas pedagógicos, com ênfase em: Metodologia da Problematização com o Arco de Maguerez, Avaliação da aprendizagem, Formação de professores e Pesquisa. Cerca de 20 livros publicados, de autoria individual e/ou compartilhada, 22 capítulos de livros e 29 artigos publicados em revistas científicas.
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Agende o dia 9 de maio!


Participe conosco de mais uma reunião na modalidade remota da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina. Um agradável mergulho nas áreas do Conhecimentos e da Cultura.

REUNIÃO NA MODALIDADE REMOTA EM 11/04/2021




Ludmila Kloczak
Bem-vindos nossos confrades, confreiras, convidados e visitantes à Academia!
Sentimo-nos confortáveis em acreditar que vivemos em sociedade. Contamos com instituições que nos abrigam, práticas sociais que procuram prever e atender nossas necessidades individuais e coletivas, três instâncias de poder estruturadas de modo a administrar a nação, o estado e o país nos planos político e jurídico. Uma síntese desidratada da complexidade inerente ao viver em sociedade.
Meu olhar pretende enfocar o personagem que faz tudo isso existir. Vivemos em sociedade! Será? Somos indivíduos que precisamos do outro para cuidar de nós enquanto crescemos e nos capacitamos a viver por conta própria. O maior desafio é conviver com o outro. Desde o berço, um dos trabalhos mais exigidos pela mente é o de estabelecer limites com o outro do qual dependemos. Se considerarmos que a experiência primordial da nossa existência é a de sermos unos com tudo que nos cerca, podemos avaliar o custo que representa para o nosso psiquismo renunciar a essa unidade. Constatar que a nossa sobrevivência depende do reconhecimento da existência e independência do outro. Revela-se aí a ambivalência com que nos relacionamos com o outro: gostaríamos que ele não existisse, não impusesse sua presença a nós; entretanto, precisamos garantir sua existência para a nossa sobrevivência.
Somos ambivalentes. A ambivalência é inerente à constituição do Eu. Os impulsos que nos movem, buscam afirmar a vida, mas, também, antes da vida, o psiquismo busca a descarga dos impulsos. Em algum momento é promovida a ligação com algo que pode ser fonte de prazer. Essa descoberta original pode ser o primeiro passo para a aceitação do outro. Vejam, é o outro como fonte de prazer! O outro que é repelido, passa a ser desejado!
Este é um conflito que nos acompanha até o final da existência: construir e destruir, agrupar e separar, amar e odiar. Nós procuramos nos agrupar em organizações estáveis o suficiente para possibilitar um equilíbrio das forças naturalmente instáveis dentro de nós e, assim, garantir um viver criativo. A paz e o bem-estar social, para bem viver em sociedade, depende de oferecer sentidos à ambivalência. Não nos espantemos com a conduta humana em tempos traumáticos. É o melhor que podemos fazer quando nos desorganizamos e a angústia nos impele a buscar soluções, mesmo que em direção à destruição de si e do outro. 
                                        
SOBRE O SIGNIFICADO E A RELEVÂNCIA DA LEITURA PARA O SER HUMANO 
Acadêmico Sergio Alves Gomes*
No momento da “Palavra do Orador”, o Acadêmico SERGIO ALVES GOMES fez breve saudação à Presidente da Academia, aos demais acadêmicos e convidados presentes e apresentou uma exposição sintética da temática de sua comunicação, focada na palavra LEITURA. Segue o texto completo, objeto de sua comunicação, como Orador da ALCAL, contendo inclusive detalhadas referências bibliográficas que servem de base ao desenvolvimento do texto.   

Leitura significa:  ação ou efeito de ler; ato de apreender o conteúdo de um texto escrito; ato de decifrar qualquer notação; o resultado desse ato; decodificação, obtenção de dados de um dispositivo de memória, de um meio de armazenamento ou de outra fonte. (1)
Ler é verbo que provém do latim “legere”, significando, originariamente, escolher, pegar, colher. 
Para LACORDAIRE, célebre conferencista francês, “três coisas são necessárias para tornar a vida feliz: a bênção de Deus, um amigo e boas leituras”. (2)
A leitura corresponde a uma das cinco atividades filológicas básicas do ser humano que são as seguintes: pensar, falar, ouvir, escrever e ler. (3)
Antes da leitura das letras, ensina Paulo Freire, ocorre, para cada indivíduo, a leitura do mundo. Em suas palavras: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele.” (4)
Ler é “acrescentar às experiências da própria vida as experiências dos outros” (BELLENGER,1979, p.16), é também, segundo o mesmo autor, “armar-se para falar, discutir, negociar, lutar”. (5) E mais: “Ler é compreender com os olhos, desejar, apropriar-se de experiências e de informações.” (6)
É fácil aprender a ler? Será que basta juntar letras e palavras que formam frases e concluir, com ingênua certeza, dizendo para si mesmo: “já sei ler”?
Sobre isso, vale lembrar o que disse o genial poeta JOHANN WOLFGANG VON  GOETHE: “As pessoas não sabem o quanto custa em tempo e esforço aprender a ler. Trabalhei nisso durante 80 anos e ainda não posso dizer que tenha conseguido” (apud Bellenger, 1979 p.105).   
Compreende-se a assertiva  de Goethe pelo alcance e possibilidades de diferentes leituras de textos e contextos, em razão de cada leitor trazer consigo, fruto da leitura prévia do mundo, compreensões prévias ou pré-compreensões (7) que interferem nas suas interpretações tanto dos textos quanto dos contextos em que se situa historicamente como leitor e intérprete, isto é, no tempo e no espaço que condicionam, mediante múltiplas circunstâncias, o aprendizado da leitura e o acesso  aos diversos níveis em que esta pode ser  realizada.  
O tema “leitura” se conecta diretamente com o da educação. Pois esta é o caminho único para o pleno desenvolvimento da pessoa, acesso à cidadania   e à qualificação profissional. (8) Não há possibilidade de leitura textual sem a educação. 
Aprender a ler significa compreender signos e enxergar para além destes. As letras do alfabeto são sinais gráficos que não têm um fim em si mesmos. São mediadoras da comunicação entre os humanos. (9) Comunicação de ideias, experiências, ciências, artes, crenças, valores, conhecimentos de todas as áreas e sentimentos das mais diversas matizes. Consequentemente, sem o aprendizado da leitura, tais sinais gráficos tornam-se inacessíveis à compreensão; a comunicação se vê limitada e o acesso à plena participação no convívio social e nos bens dele decorrentes torna-se quase impossível à pessoa analfabeta. O ato de ler pressupõe o fenômeno da linguagem e a linguagem, consoante lembra a antropóloga e pesquisadora francesa MICHÈLE PETIT, “não pode ser reduzida a um código, a uma ferramenta de comunicação, a um simples veículo de informações. A linguagem nos constitui. Quanto mais somos capazes de dar um nome ao que vivemos, às provas que enfrentamos, mais aptos estaremos para viver e tomar certa distância em relação ao que vivemos, e mais aptos estaremos para nos tornarmos sujeitos de nosso próprio destino. Podem nos quebrar, nos mandar embora, nos insultar com palavras e também com silêncios. Outras palavras, porém, nos dão lugar, nos acolhem, nos permitem voltar às fontes, nos devolvem o sentido de nossa vida.  E encontramos nos livros algumas dessas palavras que nos restauram. Em particular em obras cujos autores tentaram transcrever o mais profundo da experiência humana, desempoeirando a língua.  Ter acesso a elas não é um luxo: é um direito, um direito cultural, como o acesso ao saber. Porque talvez não haja sofrimento pior do que ser privado de palavras para dar sentido ao que vivemos”.(10)
As possibilidades do livre desenvolvimento da leitura têm forte dependência dos regimes políticos. Daí as conexões entre leitura e política, conforme se vê nas palavras do célebre escritor argentino ALBERTO MANGUEL, ao afirmar que “os regimes populares exigem que esqueçamos, e portanto classificam os livros como luxos supérfluos; os regimes totalitários exigem que não pensemos e, portanto, proíbem, ameaçam e censuram; ambos, de um modo geral, exigem que nos tornemos estúpidos e que aceitemos nossa degradação docilmente, e portanto estimulam o consumo de mingau. Nessas circunstâncias, os leitores não podem deixar de ser subversivos.” (11)
Ler é ato de emancipação, de independência e de libertação do jugo da ignorância. Ter acesso à leitura possibilita a interpretação e compreensão de si e do mundo, mediante o diálogo universal que produz e comunica conhecimento; conhecimento este que se multiplica e se renova a cada nova descoberta e diante de novas interpretações, explicações e compreensões dos fenômenos tanto naturais quanto humanos.  
Por isso, todo obstáculo à leitura - seja político, econômico ou de qualquer natureza -   é também obstáculo ao progresso humano, à liberdade de aprender, de ensinar, de escrever, de falar, de pensar... Em síntese, de ser e viver como uma pessoa autônoma.  
A história nos mostra que, ao longo de séculos, “enquanto a Europa continuava a desenvolver técnicas de impressão, tendo em vista o objetivo de atingir um público leitor e consumidor cada vez mais vasto nos diferentes continentes, o Brasil, diante dos interditos estipulados pela metrópole portuguesa, salvo exceções, passava ao largo desse processo. Diferentemente do governo espanhol, que autorizava a abertura de estabelecimentos gráficos em suas colônias na América, a metrópole portuguesa, até a vinda da família real, em 1808, proibiu expressamente qualquer tipo de reprodução impressa em todo o território nacional, por temer uma possível propagação de ideias políticas progressistas e revolucionárias. Assim, durante o período colonial, as pessoas que aqui viviam precisavam importar de Portugal os livros que desejavam, enfrentando, com isso, uma série de trâmites burocráticos, os custos do transporte e a censura lusitana, primeiro concentrada nas mãos da Inquisição, depois comandada pelos funcionários da Real Mesa Censória, criada em 1769. Esse sistema de muitas hierarquias evidentemente afastou a grande maioria da população brasileira de um contato mais próximo e rotineiro com o texto impresso.”(12)  Evidentemente que o saldo de tais obstáculos ao aprendizado e à prática da leitura ao longo de séculos  -  somado ao regime de  escravidão oficialmente vigente até 1888 -  concorreu para o atraso  do acesso à educação pela maior parte da população brasileira, chegando-se ao final do século XX com graves desafios a serem superados mediante a democratização do acesso à educação, hoje considerada direito fundamental, dever do Estado e da família, a ser promovida e incentivada com  a colaboração da sociedade. 
E nem poderia ser diferente diante dos compromissos constitucionais assumidos pelo País com o regime democrático.  Sem educação não há condição de possibilidade para a formação de leitores. (13) Sem leitores, os textos escritos não ganham sentido.  Infelizmente, segundo recentes dados do IBGE, o Brasil ainda conta com 11(onze) milhões de pessoas que não sabem ler.  É verdade que com a chegada da Internet, abre-se um leque imenso de acesso à leitura em plataformas digitais.  Todavia, sem o leitor crítico, bem formado e informado, como fazer bom uso da rede mundial de computadores? Como decidir por escolhas construtivas e criteriosas a respeito do que vale a pena ler, no escasso tempo disponível à vida de cada pessoa? Assim, vê-se que o tema leitura apresenta múltiplas dimensões e se entrelaça com vários outros assuntos vizinhos, tais como:  poder, educação, política, políticas públicas, governo... E, principalmente, com o grau de valorização da carreira do magistério e do professor, pois sem este, obviamente, não se aprende a ler nem a se capacitar para qualquer profissão que exija contato com a escrita.  Ademais, leitura exige criação de espaços públicos que incentivem sua prática para todas as faixas etárias, com ênfase nas crianças e jovens, para que desde tenra idade desenvolvam o amor, a paixão, o gosto pela leitura e pelos livros.  Isso pode ser feito não apenas por meio da sempre valiosa e tradicional biblioteca pública, mas, também, em parques, praças, paradas de ônibus, salas de espera (ex. consultórios, rodoviárias, aeroportos...), locais similares e, inclusive, por meio de bibliotecas itinerantes. Há uma diversidade de ambientes que   podem ser aproveitados para o exercício da leitura, desde que se criem estratégias adequadas para tanto.  Tal empenho é indispensável para estimular a leitura e a formação de novos leitores.  
Para concluir, cabe frisar que ler e bem interpretar para compreender são exigências básicas para a construção de uma sociedade democrática, conforme delineada na   Constituição de 1988. Mas, infelizmente, o texto desta ainda é desconhecido por   milhares de brasileiros. Seja pela incapacidade de leitura por aqueles que não sabem ler (analfabetos ou analfabetos funcionais) ou pela falta de interesse de tantos   que já sabem ler, mas, apesar disso, carecem de uma efetiva formação para o exercício da cidadania que os ajude a compreender o valor da Constituição para a realização da Democracia, no convívio político-social.     Por se tratar da Lei Maior, a Carta Magna do País, além de disciplinar o exercício democrático do Poder estatal, estabelece os direitos e deveres fundamentais de toda pessoa. O acesso ao seu texto, a compreensão do seu significado para o povo brasileiro- seu autor originário e titular do poder (14) - também depende e dependerá sempre de sua leitura. É possibilidade e não realidade ainda para milhões de brasileiros. Todavia, poderá concretizar-se na medida em que houver mais empenho da sociedade e de suas instituições em prol da libertação de todos aqueles que ainda vivem na escravidão do analfabetismo. É o que está posto na Constituição de 1988, ao especificar dentre os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil a “erradicação da pobreza e da marginalização”, bem como a “redução das desigualdades sociais e regionais” (art. 3º, III).  Ora, é óbvio que o analfabetismo concorre não apenas a favor da pobreza, mas é protagonista da miséria. Ademais, cabe perguntar: quem mais do que o analfabeto fica à margem do progresso humano? Portanto, urge que o País supere - com o obrigatório empenho de seus governantes, não apenas porque estão eles sob a égide da Constituição Federal, como todos os cidadãos, à qual juraram observância, ao assumirem os cargos públicos e de toda a sociedade - a vergonhosa estatística que ainda revela a existência de milhões de brasileiros excluídos do acesso à educação de boa qualidade e, consequentemente, marginalizados em relação à leitura.  Se bem compreendido o papel da leitura, pode-se afirmar que ela é como uma porta que se abre a todas as formas de conhecimento. Obter conhecimento é direito de toda pessoa (15) por ser básica necessidade humana.  Por isso, a ninguém é conferido o direito de fechar a porta de acesso ao saber e menos ainda de esconder sua chave. E tal chave de acesso ao conhecimento e à civilização chama-se LEITURA. 
Notas: 
(1) HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 1ª reimp. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
(2) CARNEIRO, Marcelo Motta. O Progresso na Arte de Ler: o método dinâmico. Curitiba: Gráfica Vicentina, 1984, p.9.
(3) Idem, ibidem.
(4) FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler, 30ª ed. São Paulo: Cortez, 1995, p.11.
(5) BELLENGER, Lionel. Os Métodos de Leitura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p.16.
(06) Idem, p.105.
(7) Pré-compreensão é um dos conceitos centrais no âmbito da hermenêutica filosófica desenvolvida pelo filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002), a partir de contribuições de Heidegger (1889-1976) sobre o tema. Cf. a tal respeito: GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método: Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis/RJ: Vozes,1997, p.403-404 e 578.
(8) A Constituição da República Federativa do Brasil assim dispõe a respeito da educação, em seu artigo 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. 
(9) Sobre tal assertiva, cabe lembrar o que diz David K. Berlo (1929-1996), teórico americano das comunicações: “na comunicação humana, a mensagem existe em forma física- a tradução de ideias, objetivos e intenções num código, num conjunto sistemático de símbolos. Cf. BERLO, David K. O Processo da Comunicação: Introdução à Teoria e à Prática. São Paulo: Martins Fontes,1999, p.30.
(10) Cf. PETIT, Michèle. LEITURAS: Do Espaço  Íntimo ao Espaço Público. São Paulo: Editora 34, 2013, p.
(11)Cf. Apud MARIA, Luzia.  O Clube do Livro: ser leitor- que diferença faz? São Paulo: Globo, 2009, p. 39. 
(12) Cf. EL FAR, Alessandra.  O Livro e a Leitura no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge  Zahar, 2006 (col. Descobrindo o Brasil), p. 11/12.
(13) Para aprofundamento no estudo do processo de leitura e a formação de leitores, cf. REZENDE, Lucinea Aparecida de. Leitura e Formação de Leitores: vivências teórico-práticas. Londrina: Eduel,2009.  Ao acentuar a relevância da leitura no processo educacional, ressalta a  autora que “se ela [a leitura], matéria-prima no processo de ensino e aprendizagem, estiver bem, tudo o mais terá maior probabilidade de êxito”. (p.137).
(14) Diz a Constituição da República Federativa do Brasil, em seu artigo 1º, parágrafo único: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos, ou diretamente, nos termos desta Constituição.”
(15) Aristóteles, nas primeiras linhas da obra Metafísica, afirma: “ Todos os homens, por natureza, tendem ao saber”. Cf. Aristóteles. Metafísica, vol II, Livro A (primeiro), 980ª. São Paulo: Loyola, 2002, p.3.

* Sergio Alves Gomes é Doutor em Direito: Filosofia do Direito e do Estado, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Professor Associado da Universidade Estadual de Londrina (Departamento de Direito Público), na qual é também Professor colaborador do Programa de Mestrado/Doutorado em Direito Negocial; Magistrado (Juiz de Direito aposentado) e Ocupante da Cadeira 36 (Patrono: Hugo Gutierrez Simas) da Academia de Letras, Ciências e Arte de Londrina.


Violão Clássico
Natanael Fonseca*
Nossa Academia contou com o privilégio de receber Natanael Fonseca e seu violão, brindando-nos com a belíssima apresentação de "Variações sobre um tema de Mozart", de F. Sor (Fernando Sor), que pode ser apreciada no vídeo a seguir:


* Nascido no estado da Bahia, Natanael Fonseca tem a sua trajetória musical dividida entre o violão erudito e a viola de arco. 
É mestre em violão erudito pela Universidade de Aveiro (Portugal), fez licenciatura e especialização em música pela Universidade Estadual de Londrina, onde também lecionou nos anos de 2006 à 2008 nas disciplinas de percepção musical e violão. 
É violista da OSUEL desde 1991 e da Orquestra de Câmara Solistas de Londrina desde sua fundação, com a qual participou da gravação de seus cinco discos além de diversas turnês, destacando o Festival de Verão de Varna/Bulgária em 2010. 
Apresentou-se em recitais de violão em Portugal e Espanha, e como solista nos concertos para violão e orquestra de Mário Castelnuovo Tedesco, Heitor Villa-Lobos e Anton Garcia Abril com a orquestra Sinfônica da UEL e dos concertos de A. Vivaldi e J. L. Krebs com a Solistas de Londrina.


Morte: a estética da finitude
Acadêmico Clodomiro Bannwart*

Jesus foi o cacho perfeito de nossa humanidade, a boa uva que espremida (morto) produziu o bom vinho, o vinho da longevidade.

Antes de dormir, como de costume, contei uma estória e fiz uma breve e rápida oração para Manuela, minha filha. A estória falava de uma fada que realizava desejos. Então, eu perguntei a ela, caso a fada lhe aparecesse, qual seria o seu pedido. De pronto, Manuela, com seus sete aninhos, respondeu-me: “pediria a ela, pai, que as pessoas não morressem”. Essa resposta, vinda de uma criança, revela o quanto o ser humano gosta e aprecia a vida, algo que Ariano Suassuna insistia em dizer: “somos seres para a vida e não para a morte”.
O filósofo Sócrates, pouco antes de tomar cicuta e despedir-se da vida, disse: “Eis a hora de partir: eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses”. Vida e morte compõem uma relação dialética. Não há morte se não houver vida, pois a vida é a única coisa que a morte pode roubar. A morte só está onde existe vida. Para o filósofo Epicuro, não há razão de preocupar-se com a morte, pois, quando vivemos, a morte não está, e quando ela estiver, nós não existiremos mais. É como se a morte e a vida nunca pudessem encontrar-se. Mesmo que o argumento de Epicuro tenha a pretensão de servir de consolo e de amparo, Sêneca, um filósofo estoico, afirmava que o problema não é a morte em si, pois não é da morte que temos medo, mas de pensar nela. Essa é a questão! Talvez o homem seja o único ser na natureza capaz de pensar na morte. Dráuzio Varella traduziu essa angústia ao inferir que é insuportável ao ser humano pensar que, a partir de um determinado momento, estendido por toda a eternidade, ele nunca mais abrirá os olhos.
A morte é, de fato, trágica. E, segundo Theodore Roosevelt, assim ela deve ser porque, do contrário, provaria ser a vida uma tragédia. É justamente o gosto que nutrimos pela vida que torna a morte trágica. Porém, se há algo de positivo na morte é que ela é pedagógica e ensina, segundo o escritor americano Leo Buscaglia, a transitoriedade de todas as coisas. Um dia, numa aula de filosofia, o professor colocou a seguinte indagação: imagine que a morte não exista e que viveremos para sempre essa vida. Será que nós teríamos a mesma percepção da vida tal como temos na condição de mortais? Provavelmente, não! Até porque ambicionamos mais do que simplesmente viver, desejamos uma vida plena, algo que não alcançamos nessa vida tal como a conhecemos, em razão de nossas limitações e de nossas contingências. É a velha máxima de Confúcio: “Para que preocuparmo-nos com a morte, se a vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro”.
A morte é um mistério que desafia permanentemente o conhecimento que temos do mundo e de nós mesmos. É certo que conhecemos muitas coisas, mas negligenciamos o conhecimento que temos a nosso respeito. A ciência pretende, até 2030, alcançar determinado domínio sobre Marte. A viagem, se viabilizadas as condições para isso, consumirá aproximadamente oito meses. Um percurso de milhões de quilômetros. Ainda assim, temos dificuldade de percorrer a estrada mais curta que marca nossa frágil existência, aquela estradinha íngreme, pouco explorada, que conecta mente e coração. Conquistamos o espaço, exploramos as estrelas, mas nos perdemos com frequência nessa estradinha. E é nessa estradinha que vivemos ou morremos. Não há GPS que nos guie em segurança ou avise, com antecedência, os contratempos do percurso. O medo muitas vezes impede de apreciar a vivacidade da travessia. Pouco sabemos das estrelas que habitam o nosso interior, talvez por receio da penumbra que há dentro de nós. Charles Beard dizia que a escuridão profunda é condição indispensável para ver as estrelas. E que triste seria nosso caminhar – parafraseando Mario Quintana –, não fosse a presença das estrelas que, mesmo brilhando distantes, iluminam nossos passos. Se a morte é associada à escuridão, ainda assim precisamos dela para enxergar a claridade e a vivacidade da vida. A religião e a filosofia sempre contribuíram para que o ser humano pudesse encontrar essa luz.
Na concepção dos filósofos gregos, a natureza é portadora de teleologia. Afirmavam que na natureza nada existe destituído de finalidade. Tudo concorre para um determinado fim, para a realização de um fim (telos). À execução do fim a que cada coisa se destina dá-se o nome de Káiros (tempo oportuno, tempo da plenitude). A plenitude do pé de uva, por exemplo, acontece no momento oportuno de colher a uva boa, aquela que será transmutada em vinho, a bebida perfeita dos deuses e preferida dos homens. Porém, não se faz o bom vinho sem esmagar a uva. Na concepção da teologia cristã, devedora da filosofia grega, Jesus foi o cacho perfeito de nossa humanidade, a boa uva que, espremida (morto), produziu o bom vinho, o vinho da longevidade, o vinho da vida festiva na sua mais alta plenitude.
Jesus, sob o prisma da fé, mostra que, dialeticamente, da morte, colhe-se a vida. Paradoxalmente, o Káiros de Jesus foi a morte, porém, uma morte revestida de plenitude e de graça. Por essa ótica, podemos entender que a vida é perpassada pela morte e que na morte está a vida, e vida em abundância. Eis o mistério, talvez o maior, da fé Cristã. Perceber isso não é pouca coisa. Como bem expressou o escritor Flaubert “talvez a morte tenha mais segredos para nos ensinar que a vida”.

O presente texto faz parte do livro "Entre a vida e a morte. O que colhemos no caminho?", organizado por Clodomiro Bannwart, que será lançado em junho de 2021 pela Editora Engenho das Letras, com prefácio assinado pelo filósofo Mario Sergio Cortella.

* Clodomiro José Bannwart Júnior é Professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina e membro efetivo da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina, desde 2014.


"Kant e ‘Lições de Ética’: um relato do itinerário da tradução de um clássico do pensamento ocidental"
Prof. Charles Feldhaus*

Nessa palestra se pretende elucidar alguns aspectos biográficos do pensamento de Immanuel Kant com ênfase na descrição de todo o processo de tradução da obra Lições de ética, publicada pela Editora da Unesp em 2018, e que chegou a finalista do Prêmio Jabuti na categoria traduções em 2019. Será elucidado a natureza do texto traduzido, uma vez que se trata de um material não escrito pelo próprio pensador, mas sim num conjunto de anotações de aula dos alunos que puderem assistir as próprias aulas de filosofia moral na Universidade em que Kant era professor. Como  os tradutores Charles Feldhaus e Bruno Cunha chegaram à ideia de traduzir a respectiva obra, quanto tempo demorou, algumas dificuldades e desafios do processo de tradução, entre outros aspectos. Há também algumas observações sobre o conteúdo da obra.
Veja o vídeo da palestra:


* Charles Feldhaus é professor Associado da Universidade Estadual de Londrina, Doutor em filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Pósdoutor em filosofia pela Martin Luther Universtitaet Halle Wuttenberg. É autor dos livros Direito e moral. Três estudos sobre a filosofia moral de Kant (2007),Natureza Humana, liberdade e Justiça. Um estudo a respeito da posição de Habermas acerca da biotécnica (2011) e Versos à Lira (2019).
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