Extratos da nossa reunião de 13/09/2015

PALAVRA DO PRESIDENTE


"A MUDANÇA DE PERFIL DOS GRANDES ESCRITORES"


Em nossa reflexão sobre “Leitura: explicitações e implicações”, encerramos o primeiro tópico (em que evidenciamos que o essencial numa boa leitura é adquirir familiaridade com conceitos), afirmando que, em nosso tempo, o escritor consagrado tem audiência limitada: Desapareceu o “intelectual” que se atribuía a função de “profeta”.
Passamos, hoje, à análise do segundo tópico: “A mudança de perfil dos grandes escritores” em que Vargas Llosa discute o assunto. Ele esclarece com propriedade que não se trata do desaparecimento dos escritores consagrados, em sua totalidade, mas de uma determinada categoria. Escreve: “Em nossos dias não existe uma única daquelas figuras que, no passado, à maneira de um Victor Hugo, irradiavam um prestígio e uma autoridade que transcendiam o círculo de seus leitores e do especificamente artístico e delas fazia uma consciência pública, um arquétipo cujas ideias, tomadas de posição, modos de vida gestos e manias serviam de padrões de conduta para um vasto setor.”
A seu ver, o clima histórico que favoreceu o seu aparecimento  resultou do encaminhamento que teve o racionalismo promovido pelo chamado Século das Luzes, “quando os filósofos deicidas e iconoclastas, depois de mata Deus e os santos, deixaram um vazio que a República teve que encher com heróis laicos.”
Com a expansão do desenvolvimento material, que trouxe como consequência o nivelamento dos cidadãos e o esmaecimento do papel das elites, desaparece esse tipo de intelectual.  Num primeiro momento, considerava que a televisão seria o grande instrumento da democracia.
Entendia, então que “essa dessacralização da pessoa do escritor não  me parece uma desgraça; pelo contrário, põe as coisas no seu lugar, pois a verdade é que não implica que quem assim está dotado para a criação literária goze de clarividência generalizada.”
Mais tarde, em 1994, a posição de Vargas Llosa era a seguinte: “Em vez de se deprimir ou se considerar um ser obsoleto, expulso da modernidade, o escritor de nosso tempo deve, isso sim, sentir-se estimulado pelo formidável desafio que significa criar uma literatura que seja digna daquela,  capaz de chegar a esse  imenso público potencial que o espera, agora que, graças à democracia e ao mercado, existem tantos seres  humanos que sabem ler e podem comprar livros, coisa que jamais aconteceu no passado, quando a literatura era, com efeito,uma religião, e o escritor um pequeno deus ao qual rendiam culto e adoravam “as imensas minorias”. Que a cortina fechou-se para os escritores pontífices e narcisos, não há dúvida. Mas o espetáculo pode ainda continuar se seus sucessores conseguirem que seja menos pretensioso e muito divertido.”
Penso que seja oportuno lembrar que Mario Vargas Llosa, nascido no Peru em 1936, e hoje divide seu tempo entre Londres, Paris, Madri e Lima, é um dos mais importantes escritores da atualidade, autor de uma extensa obra literária, vencedor de prestigiosos prêmios, entre eles o Prêmio Nobel de Literatura.
No livro que ele publicou em 2012, com o título de “A civilização do espetáculo – Uma radiografia do nosso tempo e de nossa cultura”, Vargas Llosa considera que aquilo que os meios de comunicação colocaram em lugar da cultura que erigimos no passado reduz-se progressivamente a alimentar as paixões baixas dos comuns dos mortais.
Vejamos, ainda que resumidamente, em que consiste essa reação.
A civilização do espetáculo não substitui a cultura
No livro indicado, Vargas Llosa demonstra que existe hoje, toda uma linhagem de obras, - majoritariamente de origem francesa -, que preconiza a substituição  dos valores tradicionais  por algo que chega a reconhecer-se como contracultura. Entre vários autores, menciona  Frederic Martel , “Mainstream” . (Paris: Flammarion, 2010).
A corrente principal (mainstream) seria a prevalência do entretenimento. Indica Vargas Llosa : Martel não se preocupa de livros “nem de pintura ou escultura, nem de musica ou dança clássica, nem de filosofia e humanidades em geral, mas exclusivamente de filmes, programas de televisão, videogames, mangás, shows de rock, vídeos e tablets, bem como das “indústrias criativas” que produzem, patrocinam e promovem, ou seja, das diversões do grande público que foram substituindo a cultura do passado e acabarão por liquidá-la.”
Destaca que o autor vê com simpatia essa transformação. Parece-lhe que “arrebatou a vida cultural à pequena minoria que antes a monopolizava e a democratizou, pondo-a ao alcance de todos”. E ainda que os conteúdos dessa nova espécie de cultura estariam em consonância com os avanços científicos e tecnológicos em geral.
No entendimento de Vargas Llosa essa realidade não tem merecido a necessária atenção de parte da sociologia e da filosofia. O certo é que a imensa maioria do gênero humano “não pratica, não consome nem produz outra forma de cultura que não seja aquela que, antes, era considerada pelos setores cultos de maneira depreciativa, mero passatempo popular, sem parentesco com atividades intelectuais, artísticas e literárias que constituíam a cultura”. Na visão de Martel essa já teria morrido, sobrevivendo apenas em pequenos nichos sociais, sem influir de modo algum o que se transformaria no fluxo principal.
Afirma Vargas Llosa: “A diferença essencial entre a cultura do passado e o entretenimento de hoje é que os produtos daquela pretendia transcender o tempo presente, durar, continuar vivos nas gerações futuras, ao passo que os produtos deste são fabricados para serem consumidos no momento e desaparecer, tal como biscoitos ou pipoca. Tolstoi, Thomas Mann e ainda Joyce e Faulkner escreveram livros que pretendiam derrotar a morte, sobreviver a seus autores, continuar atraindo e fascinando os leitores nos tempos futuros. As telenovelas brasileiras e os filmes de Hollywood, ainda com os shows de Shakira, não pretendem durar mais que o tempo da apresentação, desaparecendo pra dar espaço a outros produtos geralmente bem sucedidos e efêmeros. Cultura é diversão e o que não é divertido não é cultura.”
O ponto fraco desse movimento, diríamos nós, consiste em que a vida não se reduz a entreter-se. A sociedade em que vivemos não é a sociedade do entretenimento. O mundo do trabalho é extremamente competitivo. Não basta ter domínio do funcionamento do tablet ou do celular para assegurar-se um emprego, ainda que vinculado ou dependente da informática.  A autêntica formação profissional não pode prescindir do hábito da leitura e do estudo. O conhecimento não irá sustentar-se graças à simples habilidade em acessar informações.
A par disso, há duas outras circunstâncias que atuariam no sentido de contrapor-se ao mencionado movimento.
A primeira delas diz respeito à perspectiva de desenvolvimento do ensino de nível superior, na previsão do conhecido estudioso norte-americano Nathan Harden, que afirma que o grande desenvolvimento a verificar-se diz respeito ao ensino à distância. As grandes universidades norte-americanas e europeias passarão a ter milhões de alunos, em consequência do que desaparecerão em grande parte os Campi.
Na mencionada modalidade de ensino, o primeiro passo há de consistir em instruir o aluno quanto às formas de estudar. O ensino à distância repousa em dois instrumentos simultâneos e imprescindíveis: um texto de excelente qualidade e um sistema tutorial eficaz. De parte do aluno, se não aprende a estudar não saberá tirar proveito do material de qualidade a que terá acesso, notadamente, de um lado, em adquirir a habilidade de apropriar-se do essencial e, ao mesmo tempo, tirar partido  da possibilidade da acesso ao autor.
A segunda consiste em que na Internet não estão acessíveis apenas os textos simplistas e de informação mínima e superficial. Pode-se acessar material de outra índole, facultados por sites e instituições renomadas.
Na própria televisão, em especial na TV a cabo, há filmes culturais de excelente qualidade. Para citar apenas os ingleses, a BBC e a Open University produzem material de valor excepcional.
Quanto à produção cultural, com exceção talvez da arte plástica contemporânea – que parece ter sucumbido de forma irreversível à mediocridade -, os grandes museus mantêm acesso ao notável patrimônio histórico acumulado pela arte do Ocidente. No que respeita ao cinema, Hollywood enveredou pelo caminho da produção em massa, embora abrigue atores de excepcional qualidade, acha-se ao serviço exclusivo do entretenimento vulgar. Contudo, o cinema europeu tem dado provas da capacidade de resistência.
Na preservação e desenvolvimento do nosso patrimônio musical, sobrevivem tanto nos Estados Unidos como na Europa, instituições que continuam impávidas na sua trajetória, a exemplo do Carnegie Hall.
Registre-se, igualmente, que nos Estados Unidos, o Endowment for Humanities, mantido pelo governo federal, realiza um trabalho notável no âmbito da cultura geral.


Prof. Leonardo Prota
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Mestre de Cerimônias

Nossa reunião foi abrilhantada pela presença de Jonas Rodrigues de MatosMestre de Cerimônias que fez a introdução de cada apresentação. Jonas certamente voltará outras vezes para valorizar ainda mais as reuniões de nossa Academia.
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DECLAMAÇÃO: 
"CANÇÃO DO EXPEDICIONÁRIO"
(de Guilherme de Almeida)
Pela Acadêmica Leonilda Yvonneti Spina

Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro, do Engenho,
Das selvas, dos cafezais,
Da boa terra do coco,
Da choupana onde um é pouco,
Dois é bom, três é demais,
Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Dos pampas, do seringal,
Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal.

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

Eu venho da minha terra,
Da casa branca da serra
E do luar do meu sertão;
Venho da minha Maria
Cujo nome principia
Na palma da minha mão,
Braços mornos de Moema,
Lábios de mel de Iracema
Estendidos para mim.
Ó minha terra querida
Da Senhora Aparecida
E do Senhor do Bonfim!

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

Você sabe de onde eu venho?
E de uma Pátria que eu tenho
No bojo do meu violão;
Que de viver em meu peito
Foi até tomando jeito
De um enorme coração.
Deixei lá atrás meu terreiro,
Meu limão, meu limoeiro,
Meu pé de jacarandá,
Minha casa pequenina
Lá no alto da colina,
Onde canta o sabiá.

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

Venho do além desse monte
Que ainda azula o horizonte,
Onde o nosso amor nasceu;
Do rancho que tinha ao lado
Um coqueiro que, coitado,
De saudade já morreu.
Venho do verde mais belo,
Do mais dourado amarelo,
Do azul mais cheio de luz,
Cheio de estrelas prateadas
Que se ajoelham deslumbradas,
Fazendo o sinal da Cruz!

Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil. 
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APRESENTAÇÃO

"NO PRINCÍPIO ERA O VERBO"
Pela Acadêmica Maria Lucia Victor Barbosa *

Disse Zaratustra, o filósofo de Nietzsche: “Novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga; como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Não quer mais meu espírito caminhar com solas gastas”.
Novos rumos sigo nas veredas da palavra, talvez por ter percorrido antes muitos descaminhos nas trilhas do verbo onde tudo principia ou quem sabe, porque a palavra hoje me conduz de forma mais intensa e não eu a ela. Na verdade não apenas conduz como se leva uma criança pela mão, mas arrebata, subjuga, às vezes aniquila, esgota, pois a palavra pode ser turbilhão de amor. Como paixão de minha vida à qual dedico a existência, sei também que ela é traiçoeira. Foge de mim. Só vem quando cisma de aparecer. É como gato arredio, pois só deita no meu colo quando quer.
Com a palavra sou espadachim: corto, luto, firo e recebo de volta estocadas que ferem meu espírito hoje repleto de cicatrizes. Com a palavra posso fazer sombra, exalar perfume, ser buquê de rosas vermelhas, jasmins-do-cabo ao luar, suave trepidação de borboletas azuis ao pôr-do-sol. Com a palavra volto à casa de meu avô para descrever as cortinas brancas das janelas da grande sala de visita que esvoaçavam quais tênues fantasmas ao alvorecer.
Ah, palavra, à qual me escravizo, minha razão de ser, paixão candente, reverberação de dor. Com ela não tenho fronteiras, rompo mundos, alcanço estrelas, penetro em corações sequiosos de boas palavras e neles semeio sementes de flamboyants.
Ainda mais agora com essa a nona maravilha do mundo ao meu alcance, a Internet, potencializo a palavra e às vezes me vingo fazendo dela picadinho. De fato a Internet é meu “fiat lux”. Através dela, como aprendiz de Deus, crio e me comunico com meus semelhantes. É só querer. Basta intuir. Está ao alcance dos dedos. Está dentro da mente ou no avesso do corpo.
Via computador as palavras são puro instrumento transmental, ligações extracorpóreas, comunicação atemporal, contatos de terceiro grau. Considere-se ainda que nesse universo mágico o que se escreve é de alta periculosidade, pois assim como nele se cria e se mantém também se destrói como na trindade dos deuses do hinduísmo: Brahma, Vishnu e Shiva.  Na internet muitos “crimes” são cometidos através da palavra, pois ela confere tanto o poder de exaltar quanto o de aniquilar sentimentos alheios.
Na palavra às vezes me refugio e ela me expulsa. Quando imploro por seu consolo ela me ignora. E se a quero comigo vai embora sem deixar rastro. Trabalhosa e difícil, sobretudo, quando escrita, me engana, me tortura com seus caprichos e se faz de rogada. E só quem a ela se submete para poder existir conhece o desespero de tentar desvendar seus mistérios. Ainda assim, ama a palavra.
Hoje entendo a simbologia de Thot, o deus dos escribas que pertenceu ao panteon egípcio. Para o povo que viveu na maior das civilizações já havidas, ele era o “senhor das palavras divinas” e os sacerdotes ligados à teologia de Heliópolis o qualificavam como “a língua de Aton”. Ao mesmo tempo, era considerado o inventor da palavra falada e escrita, assim como das fórmulas mágicas que conferiam poder aos deuses. Ele era a inteligência divina, o verbo divino. Também era o deus da lua, o guerreiro desse astro abençoado periodicamente por Seth. Elevado à categoria de demiurgo (criatura intermediária entre a natureza divina e a humana), lhe era atribuído o grito que saído de sua boca criou o universo. Ele era ainda o regulador do tempo e aquele que faz reinar a ordem no universo.
Thot era, pois, o grandioso senhor da palavra e a ele submeto simbolicamente meu incessante lavor que nunca se completa, que nunca satisfaz e que, ainda assim, me arrasta e faz de mim escriba que no Egito antigo era tão valorizado, hoje nem tanto.
O que dirão diante deste texto os que porventura lançarem os olhos sobre ele?  Como traduzirão e decodificarão esses hieróglifos de minha alma? Nunca vou saber o que será alcançado, se produzi o tédio, se levei o leitor a abandonar essas poucas linhas, se conquistarei o plano de outras mentes que à minha virão através da palavra aqui lançada.
De todo modo, apresento aos que me lerem minhas escusas por planar sob os cumes altos da expressão onde é permitida a linguagem mais rarefeita dos sentimentos e dos sonhos.
Como rio caudaloso a palavra me arrastou, se impôs, me dominou. E assim, chego cansada ao final de mais essa jornada, ou seja, desse texto, consciente de que mesmo que um dia perca o pouco que tenho, ainda restará o que de mim faz um ser vivente: o verbo na forma escrita.

* Maria Lucia Victor Barbosa é Acadêmica, socióloga por profissão,
professora por missão, escritora por paixão.

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MOMENTO DE ARTE

Nossa reunião contou com a presença da artista Lais Toffoli. Arquiteta formada pela UEL e  autodidata, a jovem londrinense trouxe algumas telas e esculturas bastante expressivas. Contou que desde pequena tem paixão por desenho, paixão que posteriormente foi transportada para as pinturas e esculturas. 
Sua inspiração vem das formas e cores da natureza e tem como ídolo o expressionista Vincent Van Gogh; nota-se em seus trabalhos a influência do lúdico e da pop art. Apresentou telas pintadas em acrílico (segundo ela, pela impaciência em aguardar a secagem das tintas a óleo), sobressaindo-se em todas elas a cor amarela, através da qual pretende transmitir vida e alegria. 
Suas esculturas, com temas variados, eram feitas em argila; hoje Laís trabalha com papel maché. Em uma das esculturas, esculpiu sobre a cabeça da santa (apresentada na foto) uma coroa inspirada em obra do arquiteto catalão Antoni Gaudi.




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PALESTRA
Apresentação pelo Prof. Elve Miguel Cenci*
"Temas atuais da Bioética"




O Prof. Elve Miguel Cenci  abordou aspectos do debate bioético e foi dividida em três momentos: i) Conceitos fundamentais da bioética: eutanásia, distanásia, ortotanásia, mistanásia e criptotanásia. Também foi abordado o tema “suicídio assistido”. ii) O segundo momento da palestra tratou de quatro conceitos centrais da teoria principialista: autonomia, não meleficiência, beneficiência e justiça. iii) Por fim, foram apresentados três casos para discussão. Caso 1 – Liminar autoriza reprodução post mortem. O caso, ocorrido em Curitiba, envolve uma professora que reivindicou o direito de engravidar do sêmen congelado do marido falecido. A legislação brasileira não proíbe nem autoriza a prática, fato que torna o caso ainda mais complexo. Caso 2 – O caso envolve decisão da 10ª Vara Cível de Londrina favorável à paciente A.F.S.T. Um hospital de Londrina havia solicitado,
mediante ajuizamento de medida cautelar inominada, autorização para realizar, caso necessário, transfusão de sangue, inclusive com o uso de força policial, por se tratar de paciente Testemunha de Jeová refratária à transfusão de sangue. A decisão do magistrado foi favorável à paciente, enfatizando sua autonomia. Caso 3 – Que futuro dar a embriões congelados? O caso 3 discute a polêmica em torno dos embriões congelados. Estimativas do começo da nossa década apontam para um contingente de mais de 100 mil embriões congelados. Apenas entre 2008 e 2010 foram congelados 34.851 embriões no Brasil. O que fazer com tantos embriões? Descartá-los? Utilizá-los em pesquisas? Mantê-los congelados? Doá-los para casais inférteis?


* O Prof. Elve Miguel Cenci é graduado em Filosofia e Direito, Mestre em Filosofia pela PUC do Rio Grande do Sul e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Docente desde 1995, atualmente leciona na Graduação em Filosofia e Direito, no Lato Sensu nos cursos de especialização em Filosofia Moderna e Contemporânea e em Filosofia Política e Jurídica. Professor permanente nos Mestrados em Filosofia e Direito Negocial. Advogado, comenta política na Rádio CBN. Pesquisa temas contemporâneos relacionados à Ética, Filosofia Política e Filosofia do Direito, especialmente aqueles relacionados à Bioética.

Extratos da nossa reunião de 09/08/2015

PALAVRA DO PRESIDENTE
"Leitura: explicitações e implicações"
          
Nosso presidente Prof. Leonardo Prota
junto à Vice-Presidente Leonilda Yvonneti Spina
Convívio e Isolamento constituem os pilares da construção   de plena realização do ser humano; convívio nobre, respeitoso e elevado, proporcionado por um silencioso isolamento, que é alimentado pelo pensamento e a reflexão. Ambiente propício facilitado pela leitura.
Entende-se por leitura a capacidade da pessoa ler um texto, isto é, o que se chama de alfabetizar-se. Lamentavelmente, entre a população adulta sobrevivem analfabetos. De acordo com a UNESCO, na população maior de 15 anos, no mundo, o Brasil possui o oitavo maior número de analfabetos. São cerca de 14 milhões de pessoas.
A par disso, em face dos percalços experimentados  por nosso ensino fundamental, apareceu a figura do analfabeto funcional, isto é, aquele que alfabetizou-se mas não é capaz de desenvolver corretamente o seu raciocínio nem discorrer sobre determinada composição. Revela não ter adquirido  o hábito e a plena capacidade  de leitura, que é, no final de contas, o objetivo do ensino.
Estimativas oficiais indicam que esse contingente equivaleria a 35 milhões entre os adultos. Assim, os dois aglomerados ascenderiam a cerca de 50 milhões, em torno de 40% do eleitorado (aproximadamente 140 milhões). 
Trata-se de um grande desafio, tendo em vista que a circunstância reflete-se no processo de formação de mão de obra e no pleno amadurecimento das instituições democráticas, exigentes de níveis adequados  de participação popular.
Em que pese os aspectos negativos indicados, o país conta com expressivo número de leitores. Seriam cerca de 90 milhões. Pesquisa levada a cabo pelo Instituto Pró-Livro (IPL), realizadas desde 2.000, permitem afirmar que o brasileiro lê em média quatro livros por ano. Confrontados tais resultados ao quadro vigente na Europa e nos Estados Unidos, seriam insatisfatórios. Mas constitui uma base importante para desenvolvimentos futuros. 
A par disso, além de dispor de bibliotecas públicas de merecida nomeada em praticamente todos os estados, tais instituições acham-se bem distribuídas no país. São cerca de seis mil (uma biblioteca para cada 33 mil habitantes).
Costuma-se apontar o preço do livro como elemento inibidor da expansão do mercado editorial. Devo reconhecer que, pessoalmente, não tenho condições de pronunciar-me sobre a consistência de tal  avaliação.
Sem embargo, entendo que corresponde a uma ameaça real –não apenas à sua expansão, mas à própria sobrevivência do mercado de que se trata-, a existência de correntes de opinião surgidas em decorrência do aparecimento do que se convencionou denominar de “sociedade da informação”, isto é do crescente acesso das pessoas  aos recursos colocados ao seu dispor pela informática no que  respeita à comunicação entre as pessoas e ao próprio modo de agir e comportar-se  de grandes contingentes populacionais. 
Como fruto desse desenvolvimento, em nosso tempo estabeleceu-se uma grande celeuma em torno da sobrevivência do livro. Generalizou-se a crença de que, dadas as facilidades criada pela informática no que diz respeito à possibilidade de armazenagem da informação, desapareceria a necessidade de termos acesso direto aos livros. As novas gerações estariam sendo educadas para prescindir totalmente do hábito da leitura. Em seu lugar entraria o telefone celular e a filiação às redes,  onde o principal treinamento consistiria  em acostumar-se a reduzir as formas de comunicação a textos com número limitado de caracteres.
Nos seguintes tópicos discutiremos se efetivamente a espantosa multiplicação dos recursos disponíveis para difusão do conhecimento implicam as indicadas consequências. Hoje abordaremos o primeiro tópico:
O acesso fácil à informação dispensa o hábito de leitura?
O enfrentamento da questão proposta exige que se estabeleça a imprescindível distinção entre a frequência à escola e os outros segmentos da vida.
Naturalmente, o aprendizado não se restringe aos longos anos em que todas as pessoas são obrigadas a frequentar bancos escolares pela simples razão de que, ao contrário dos outros animais, o ser humano não nasce com instintos que prescindiriam da dependência de formas específicas de treinamento. Andar, alimentar-se ou criar hábitos de higiene pessoal – essenciais à sobrevivência  requerem aprendizado específico.
O aprendizado que se dá na escola tem características próprias. 
O essencial nesse tipo de aprendizado consiste  em que deve proporcionar familiaridade com conceitos. Cada disciplina profissional acha-se estruturada com base numa série, sempre mais extensa, de conceitos, isto é, de ideias centrais que a tipificam.
O criador da ciência da administração,  Peter Drucker (1909/2005), ensinou-nos que o cerne dessa disciplina residiria no “estudo de casos”. Mais precisamente: compete a quem se proponha estudar a matéria apropriar-se da experiência de determinada empresa. No fundo, essa experiência estará consubstanciada num conjunto de conceitos.
Quer  isto dizer que, para cursar essa disciplina, com o enfoque indicado, terá que estudar diretamente num dos livros do autor ou num texto que se proponha apresentar o conjunto de suas ideias. Sem dispor do  hábito de estudo, que se resume numa leitura especial e atenta, certamente não dará conta da tarefa. 
Naturalmente, a aproximação a uma obra literária não requer essa forma de estudo. Mas se quisermos que essa  aproximação se traduza numa modalidade de aquisição de cultura geral, não pode resumir-se à leitura do que nos caia nas mãos. É preciso dar-se conta de que as obras consagradas como expressão da cultura ocidental não se limitam a distrair.  Permite que  nos apropriemos da experiência vivida numa determinada época bem como do reconhecimento da diversidade dos tipos humanos. É certo que, em nosso tempo, o escritor consagrado tem sua audiência limitada aos que o apreciam nessa condição. Desapareceu o “intelectual” que se atribuía a função de “profeta”.
No texto seguinte, “A mudança de perfil dos grandes escritores”, Vargas Llosa discute esse aspecto da questão. Essa análise será objeto de nossa próxima reunião.
Prof. Leonardo Prota

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Hora de Poesia
Declamação pela Acadêmica e poetisa Leonilda Yvonneti Spina

"EU TENHO UM BUGRE DENTRO DE MIM"

                Eu tenho um bugre dentro de mim, tenho...
Sinto-o nesta paixão antiga por caçadas,
no prazer infantil de andar no mato,
na profunda afeição pelas coisas agrestes.

Nasci nas matas do rio Doce. 
“Minha bisavó foi pegada a laço”...
Talvez seja por isso que não gosto de arranha-céus,
estes jequitibás mortos, sem folhagens
no carrascal das cidades...
Não gosto de apartamentos onde o ar
só entra pelos conta-gotas das janelas;
não gosto de asfalto, deixa o solo
sem poros, como cicatrizes de queimaduras;
nem de estátuas eu gosto,
lembram cadáveres congelados...

Eu tenho um bugre dentro de mim, 
diluído no meu sangue, tenho...
Sinto que ele que me arrasta 
para a fragrância balsâmica das matas,
para a música das cachoeiras,
para as noites leitosas de luar, 
para a majestade serena dos grandes rios,
para o marulhar cantante dos regatos,
para o verde dos mares,
para o azul dos céus,
para o silêncio repousante dos lagos adormecidos...

Ainda é ele, o bugre, que me impele
para a árvore de junco do teu corpo, 
para os galhos roliços dos teus braços,
para a floresta escura dos teus cabelos,
para as águas dormentes dos teus olhos, 
para o fruto vermelho da tua boca,
para os passarinhos que cantam na tua voz...

Eu tenho um bugre dentro de mim, tenho!
Por que, Senhor! não fiquei só no bugre?...
No bugre livre de selo, 
livre de folhinha,
livre de relógio,
livre de roupa...
No bugre livre! Livre! Livre!                                            

(Demóstenes Cristino)
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DEMOCRACIA E EDUCAÇÃO


Acadêmico e Prof. Sergio Alves Gomes * 

A reunião de nossa Academia foi abrilhantada pelo pronunciamento do Acadêmico, que reproduzimos abaixo:

O Estado Democrático de Direito (Constituição Federal, artigo 1o,caput) exige mudança de
mentalidade e de atitudes porque a democracia é absolutamente incompatível com o uso despótico do poder e da força. Ela limita todas as formas de poder para impedir a escravidão e a servidão humanas. Na democracia, o soberano não é mais o rei irresponsável, caprichoso e tirano dos tempos do absolutismo. Nela, o soberano é o povo (que não se confunde com "massa"), pois dele emana todo o poder, conforme prevê a Constituição Federal (art.1o, parágrafo único). No regime democrático a ninguém é lícito colocar-se acima da Constituição e das leis. A democracia abomina e rejeita o demagogo. A hipocrisia daqueles que se fingem de democratas - objetivando enganar o povo, fazendo promessas apenas para alcançarem o poder - representa a mais sórdida conduta contra a democracia.

Em face dos recentes episódios que mancharam, indelevelmente, a história da relação entre o atual governo do Paraná e os professores, merece séria reflexão a estarrecedora ofensa que vem sofrendo a Educação em todo o País e, de modo especial, no Paraná. Sem educação, ninguém se desenvolve como pessoa, ninguém se capacita para agir como cidadão nem se qualifica para profissão alguma. Logo, sem educação não há democracia nem estado democrático de direito.

Por isso, zelar pela educação exige especial incentivo aos seus protagonistas. Atacar os educadores com cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo, "spray" de pimenta e coisas do gênero - como ocorreu no dia 29 de abril, no Centro Cívico, em Curitiba - é atitude que causa repugnância e indignação em quem preserva básicos sentimentos morais e democráticos. Tais atos revelaram para a história a face perversa do despotismo governamental, jamais exposta durante as recentes campanhas eleitorais. São atos violentos que, por extrapolarem os limites do equilíbrio exigido pelo diálogo democrático, configuram verdadeiro abuso no uso da força. Isso fere, drasticamente, o estado democrático de direito (CF, art.1o, caput) e macula o compromisso republicano jurado no ato da posse de quem exerce o poder governamental. Na democracia, a liberdade de expressão e a de manifestação, por meio de pacíficos protestos, são direitos fundamentais. Cabe a quem exerce o poder e administra a força policial estatal saber lidar, adequadamente, sem ameaça ou violação a direitos, diante de tais situações.

A luta atual do magistério é uma luta pacífica por reconhecimento e respeito à dignidade de quem passa a vida trabalhando na formação de pessoas, de cidadãos, de profissionais para o País e o mundo, mas não se vê condignamente reconhecido e remunerado. E mais: ao se manifestar, é tratado violentamente como "baderneiro".

Lamentavelmente, vive-se uma tragédia nacional. Sofre o Paraná, sofre o Brasil perdas historicamente irreparáveis para a democracia e o desenvolvimento da Nação, com reflexos negativos implacáveis no presente e no futuro do País. Reflexos da estupidez e prepotência de quem não quer valorizar seus educadores. Vê-se que o brado de Ulysses Guimarães, na promulgação da "Constituição cidadã", continua a ecoar: "Muda Brasil!". Mas, sem educação de boa qualidade, sem educadores respeitados e motivados, a mudança só poderá ser para pior. É isso o que queremos?

* SERGIO ALVES GOMES é doutor em Filosofia do Direito e do Estado 
e professor associado da Universidade Estadual de Londrina
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Pré-lançamento de livro

O Acadêmico Julio Ernesto Bahr apresentou, em pré-lançamento, o seu segundo livro de contos "Tia Belinha e a Grande Cartada... e novas histórias de bahr", com 29 histórias.
O livro, assim como ocorreu com o primeiro, foi inteiramente patrocinado  pela Secretaria da Cultura de Londrina, através do PROMIC - Programa Municipal de Incentivo à Cultura e será distribuído gratuitamente, como uma forma de incentivar a leitura.
O autor citou um comentário do cronista e Acadêmico Paulo Briguet, que assim se referiu ao primeiro livro, lançado em 2005: "Bahr é um escritor com a marca do bom publicitário; avesso a adjetivos e inimigo das frases desnecessárias - daquelas que estão ali só para fazer efeito, como dizia Simenon -, Bahr procura ir direto ao ponto, contando histórias bem-humoradas e espirituosas". 
O lançamento oficial está programado para o dia 4 de setembro, na Biblioteca Municipal de Londrina, a partir das 19h30.


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MOMENTO DE ARTE


A artista Adalgisa Lopes da Silva (à esquerda) apresentando seus
trabalhos, junto com a Acadêmica Fátima Mandelli 
e a senhora Marinês Ferreira
Contamos com a presença da artista plástica Adalgisa Lopes da Silva, que apresentou duas telas de sua autoria e nos contou um pouco da sua história: descobriu a arte ainda na infância e solidificou sua carreira ministrando aulas, assim se realizando profissionalmente 
Seu lema "É ensinando que se aprende" mostra sua paixão ao ensinar arte e sente "que é assim mesmo que tem que ser, dividir com os alunos os dons que recebeu de graça, recebendo em troca experiências novas".
Autodidata, trabalhando com as tintas e elementos variados e brincando com as técnicas, sua pintura mostra traços fortes e sutis, alcançando um modo peculiar de traduzir através dos tons e massas o equilíbrio em sua pintura.

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PALESTRA


"AS PÁGINAS QUE MUDARAM MINHA VIDA"


Acadêmico Paulo Briguet *


“Senhor, no dia de hoje, fazei-me dizer só a verdade, criar só a beleza e fazer só o bem.”
Procuro fazer essa oração todas as manhãs, antes de começar a trabalhar. Na verdade, acho que comecei a rezar assim, mesmo sem palavras, desde que vi meu pai lendo um livro na sala, no nosso apartamento da Alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Isso aconteceu há mais de 40 anos, talvez seja a mais remota imagem que eu guardo na mente. De certa maneira, aquela cena definiu a minha vida. Eu seria para sempre um escravo dos livros e das palavras. Tornei-me escritor para agradar meu pai. Para fazer meu pai feliz. Para torná-lo eterno dentro de mim.
Este é o sétimo Dia dos Pais que eu passo sem meu pai. Os senhores, meus queridos confrades e confreiras, devem saber que eu tenho uma particular relação com o número sete. Além de ser o número dos dias da semana, das notas musicais, das cores primárias e tantas outras coisas no céu e na terra – é o número dos leitores de minhas crônicas.
Certo dia meu pai comprou um livro chamado “A Orgia Perpétua”, de Mario Vargas Llosa. Eu tinha sete anos e perguntei a ele: – Pai, o que é perpétua? Ele respondeu: – É algo que dura para sempre. Depois eu perguntei: – Pai, o que é orgia? Ele pensou um pouco e respondeu: – Bem, filho, é uma festa onde as pessoas se divertem muito, cometem muitos excessos. Eu guardei isso na memória. Numa festa de Natal, em que todos se divertiam muito e cometiam excessos na comida e na bebida, eu gritei, para espanto dos parentes: – Nossa, que orgia!
O livro de Mario Vargas Llosa, por incrível que pareça, fala sobre o amor eterno pela literatura. Aqui vão algumas páginas da minha Orgia Perpétua.
Comecemos pela poesia. Os versos que mais mudaram a minha vida foram aqueles que encontrei por acaso, fora dos bancos escolares ou da recomendação dos especialistas.
Carlos Nejar
Por exemplo, os versos do poeta gaúcho Carlos Nejar, que é da Academia Brasileira de Letras:

"Quando nasci
fui posto
no fundo do poço
do calabouço.

Não sei
o comprimento,
a largura,
a expansão
dos movimentos
no fundo
do poço
do calabouço.

Vivia à tontas
e o que colhia
não me atingia
no fundo do poço
do calabouço.

(...)
Alguma luta se trava.
Algum ombro não se entrega.
Quando há um sopro de trégua
a vida ainda se guarda.

Espero.
Não vou render-me
na guerra
do poço do calabouço.
A resistência é de fera.
E feroz, a solidão.

Os olhos de minhas mãos,
os olhos de um outro rosto
sabem que vão transpor
o poço do calabouço.

Mesmo na explosão
ou no maior desconforto."

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Platão
Esse poema me parece uma recriação do mito da caverna, de Platão. Mas como descrever o meu arrebatamento ao ler os versos do poeta português Herberto Helder, há 15 anos, num livro que encontrei por acaso na prateleira:

"Os ombros estremecem-me com a inesperada onda dos meus
vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,
amanhã morrerei.
Devo olhar com uma grande
memória aquilo que acaba na violência triste
do poema.
Estamos nos quartos, há flores nas mesas. De babilônia
partem rios. Por detrás das cortinas,
despeço-me. Amanhã vou morrer.
Vi um dia alguém tomar nas mãos, entre faúlhas
velozes, pedras que pareciam
imortais. Eram casas que se levantavam
sobre o meu coração.
Amanhã morrerei."

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Manuel Bandeira
E para ficarmos no terreno da mortalidade, eu me lembro de um poema de Manuel Bandeira que meu pai adorava recitar:

"Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. 
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
– Respire.
– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino."

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Herbero Helder
Tanto Herberto Helder quanto Manuel Bandeira escreveram estes poemas jovens e morreram com mais de 80 anos.

Meu pai era um grande leitor dos russos. E talvez aquele livro que ela estava lendo na minha infância fosse de Tolstói, Dostoiévski, Turguêniev ou Tchekhov. Também poderia ser alguma coisa de Nabovok ou Pasternak, russos do século XX. De tudo que eu li na literatura russa até hoje, talvez uma das passagens que mais tocaram o meu espírito sejam as últimas linhas do romance “Pais e Filhos”, de Ivan Turguêniev, quando os pais do médico revolucionário Bazarov vão visitar o túmulo do filho:
“De quando em quando, de um povoado próximo, vem visitar este túmulo um casal de velhos, trôpegos e débeis, marido e mulher. Apoiando-se um ao outro, caminham com passos lentos e arrastados. Aproximam-se da grade de ferro, caem de joelhos e choram muito tempo, examinando atentamente a pedra indiferente da lousa tumular debaixo da qual repousa seu filho. Trocam uma breve palavra, espanam o pó da lousa, endireitam o ramo do abeto e rezam de novo. Não tem coragem de abandonar esse lugar, onde se sentem mais perto do filho, da saudade... Será possível que as suas orações e suas lágrimas sejam inúteis? Será possível que o amor, o amor sagrado, amor dedicação suprema não seja onipotente? Não! Seja qual for o coração apaixonado, pecador e revoltado que se esconda num túmulo, as flores que crescem sobre eles nos fitam tranqüilas, com seus olhos inocentes. Elas não falam apenas da calma eterna, da grande, da infinita calma da natureza “indiferente”: falam também de paz e da vida eternas...”

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E por falar em russos, durante muito tempo, em minha vida, eu tive a mesma ilusão que acabou por tomar conta desse imenso país situado entre a Europa e a Ásia: o nome dessa ilusão é socialismo. Meus autoenganos começaram a ruir quando li os livros de Milan Kundera, Ivan Klíma, Alexander Soljenítsin, Joseph Brodsky -- e principalmente a obra de Olavo de Carvalho. Mas nada me convenceu mais da monstruosidade do socialismo do que as palavras dos próprios escritores revolucionários. Vejam, por exemplo, esta passagem de Victor Serge, grande entusiasta da Revolução Russa:
“Um operário da fábrica de Verkh-Issetsk, Piotr Zakharovitch Ermakov, foi encarregado, com uma equipe de homens confiáveis, de proceder à execução. Na noite de 15 para 16 de julho, por volta da meia-noite, Nicolau II, a czarina, a czarevicht Alexis, as quatro jovens grã-duquesas, o dr. Botkin, a governanta e o preceptor do ex-herdeiro do trono, dez pessoas ao todo, foram chamadas a se reunir em um cômodo do andar térreo. Esperavam que se tratasse de uma nova transferência. Enfileiraram-se diante de homens armados, um dos quais leu para eles, em nome do soviete (conselho) regional, a sentença de morte que nem tiveram tempo suficiente para compreender. ‘Então, não vamos ser transferidos?’, disse Nicolau II, surpreso. Não teve tempo para se recuperar da surpresa. Em poucos instantes, os Romanov não passavam de um monte de cadáveres tombados contra uma parede arrebentada de balas. Um caminhão transportou os despojos, envoltos em cobertores, para uma mina abandonada, a oito verstas (cerca de nove quilômetros) da cidade. Lá, suas roupas foram cuidadosamente revistadas; as das grã-duquesas continham grande número de brilhantes; os cadáveres foram queimados e as cinzas, enterradas em um pântano próximo dali.
(...)
Sverdlov curvando-se sobre Lênin, disse-lhe algumas palavras em voz baixa.
‘O camarada Sverdlov pede a palavra para uma comunicação’, anunciou Lênin.
Sverdlov disse, com sua voz inalterável:
‘Acabo de saber que Nicolau foi fuzilado em Ekaterimburgo, por ordem do soviete regional. Nicolau pretendia fugir. Os tchecoslovacos se aproximavam. O Bureau Pan-Russo dos Sovietes aprova.’
Silêncio.
Lênin disse: ‘Passemos ao exame detalhado do projeto’.”

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Como a Rússia do começo do século XX, nosso país vive hoje uma situação terrível, meus amigos. Vivemos a destruição da moralidade, dos valores da civilização, da cultura como forma de expressar a verdade, a beleza e a justiça. Por isso eu acho que precisamos reler algumas páginas do passado para que possamos enfrentar as guerras do presente. Acho que precisamos ouvir as palavras de Winston Churchill no parlamento inglês, palavras que mudaram não só a minha vida, como a de toda a humanidade:
"Só tenho para oferecer sangue, sofrimento, lágrimas e suor. Temos perante nós uma dura provação. Temos perante nós muitos e longos meses de luta e sofrimento.
Perguntam-me qual é a nossa política? Eu lhes direi; fazer a guerra no mar, na terra e no ar, com todo o nosso poder e com todas as forças que Deus possa dar-nos; fazer guerra a uma monstruosa tirania, que não tem precedente no sombrio e lamentável catálogo dos crimes humanos –; essa a nossa política."
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Sou admirador de Machado de Assis e Lima Barreto, mas considero que a obra mais importante da literatura nacional é “Os Sertões”. A força da linguagem de Euclides da Cunha chega a ser milagrosa. Eu poderia citar várias passagens de sua obra que me impressionaram profundamente e transformaram minha vida, mas ficarei com apenas uma:
"Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados."
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Euclides da Cunha
Quando penso na aniquilação do povoado de Canudos, tão magistralmente narrada por Euclides da Cunha, eu me lembro de uma cena que estaria presente se a minha vida fosse um livro.

Na cidade de Mariana existe uma praça em que duas igrejas antigas se contemplam – irmãs de pedra destinadas a olhar uma para a outra até o final dos tempos. Mas, em julho de 1999, uma das igrejas havia sofrido um incêndio. Estava interditada e as paredes ameaçavam cair. Mesmo assim, espiamos lá dentro para ver
o tamanho do estrago. Desolação absoluta reinava no lugar: o teto viera abaixo; vigas carbonizadas jaziam formando ideogramas de morte; como na Sexta-Feira da Paixão, não havia imagens de santos.
Então eu olhei para a igreja queimada e soube que ali estava a imagem da minha alma. Durante anos, eu cultivara aquele incêndio pernicioso dentro de mim. Não era o fogo purificador; não era o fogo que Eliot une à rosa em seu poema; não era o fogo que ilumina e aquece. Naquele instante, debaixo do céu pálido e dos eflúvios do incêndio, percebi que eu era o demônio de mim mesmo. E pedi perdão, silenciosamente. E peço perdão até hoje, silenciosamente.
Hoje eu sei que aquele foi o momento exato da minha conversão. Talvez por isso as imagens da destruição de Canudos e dos campos de concentração nazistas e comunistas tenham tanto efeito sobre mim.
Essas eram as palavras que eu tinha para dizer-lhes nesta manhã, meus amigos.
Eu poderia prosseguir citando dezenas, centenas de páginas que me marcaram tanto quanto as que citei aqui, mas quero abusar da paciência dos acadêmicos.
Espero ter sido digno daquele homem que lia o poema na sala há 40 anos.
Estamos nos Dias dos Pais, terminemos com um poema de Rudyard Kipling que é bastante adequado à data hoje comemorada.
Um poema em que eu ouço a voz daquele homem que lia o livro na sala, há 40 anos:

"Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
De sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: Persiste!;

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais – tu serás um homem, ó meu filho!"


* Paulo Briguet é jornalista, cronista e escritor