Extratos da nossa reunião em modalidade remota de 08/11/2020

Em tempos de pandemia, nossas reuniões estão sendo realizadas na modalidade remota. 
É muito fácil participar: informaremos a cada mês o link para o seu acesso. 
Venha participar conosco!

Nosso Mestre de Cerimônias Jonas Rodrigues de Matos conduziu a reunião

O Credo Acadêmico foi lido pelo Acadêmico Julio Bahr

Acadêmica Ludmila Kloczak

Caros confrades, confreiras e convidados presentes a essa reunião ao modo remoto. Boas-vindas a todos!
Este é o nono mês da pandemia. Nossas vidas foram desorganizadas. Novas soluções foram encontradas. Novas formas de trabalhar foram inventadas ou adaptadas. Vivemos sob o efeito de uma espécie de roleta-russa. Escaparei nesta semana ou neste mês? Ou não. Neste dia ou neste mês o vírus vai me encontrar? E depois, como reagirá meu organismo? Posso contar com sua capacidade de reação? Tenho imunidade suficiente para enfrenta-lo? Ou o que eu acreditava ser boa saúde, revelar-se-á um estado muito passageiro e poderei sucumbir. Cada um à sua maneira convive com a ameaça.  A maioria se cura. Os amigos celebram! Muitos, no entanto, perderam familiares, amigos, conhecidos. 
Novembro é o mês em que celebramos Todos os Santos com a esperança de sermos protegidos em nosso desamparo humano. Neste mês também cultuamos nossos mortos. Reavivamos a memória de sua existência. Reencontramos, de uma forma mais intensa, o que restou dentro de nós daqueles que amamos e perdemos. Despedimo-nos mais uma vez. 
É esta data que nos coloca frente a frente com a questão da finitude. Ao reavivarmos a lembrança daqueles que perdemos, nós nos deparamos com algo que é da natureza do viver. Sabemos que, em algum momento, nossa própria vitalidade escoará. Neste período pandêmico, nossa percepção da transitoriedade ficou exacerbada. Entretanto, essa percepção nos acompanha, pelo simples fato de existirmos. Como Bergson aponta, em sua obra Matéria e Memória, estamos submetidos ao fluxo contínuo do tempo a manifestar-se num processo de mudanças incessantes. Esta é a realidade na qual vivemos. O tempo está sempre a passar. Não podemos detê-lo. 
Dentre as inúmeras manifestações culturais, a sociedade humana cria rituais. Muitas vezes, nós nos desconectamos das razões pelas quais esses rituais existem e persistem. Toda história das civilizações que percorreram a Terra desde sempre, pontuam cerimônias fúnebres e culto aos mortos. Dentre as várias razões, talvez a mais importante, é a que faz os vivos se depararem com sua própria finitude. Nós nos deparamos com o Tempo. O tempo cronológico organiza a experiência humana. Oferece a condição para aproveitar nossa existência do melhor modo possível. Somos objetivos, organizados, produtivos numa escala pré-determinada pelo tempo sequenciado. Mas, também, nos domina. Somos inseridos numa relação de interdependência que dificulta ou, até, impede a expressão de outro movimento temporal inerente e necessário ao viver humano, que é a indeterminação do existir. Nossa vulnerabilidade, nossa subjetividade, nosso gesto criativo são estados emocionais em movimento. Esse movimento reflete nossa busca incessante do instante presente que nos preenche de alegrias. Mais do que isso, nos lança em estado de epifania. 
Chronos e Kairós se encontraram na pandemia de um modo inusitado. Ao se desorganizarem nossos padrões cronológicos, e o encontro com nosso sentimento de impotência e mal-estar, inúmeras manifestações revelaram um movimento de criação de espaços de grande potencial criativo e de solidariedade. A presença da morte quase palpável entre nós, não nos arrasta para o caos. Ao contrário, estimula a busca e a expressão da sensibilidade e da arte. 

Acadêmico Sergio Alves Gomes

Concedida a palavra ao Acadêmico e orador Sergio Alves Gomes, este saudou todos os presentes e agradeceu à Presidência pela oportunidade de poder usar da palavra, acrescentando tratar-se de mais uma reunião de celebração das Letras, das Ciências e das Artes, na qual conta-se com a presença da Literatura, da Música, de lições pedagógicas e reflexões filosóficas que confirmam o teor do credo acadêmico reiterado no início de todas as reuniões. Destacou que cada participante presente, ainda que em silêncio, se faz intérprete dos temas apresentados e que Interpretar é arte feita não apenas de um modo: interpreta-se pensando, falando, observando, lendo, ouvindo, sentindo, vendo, tocando instrumentos, atuando, dialogando... frisou o orador. Em seguida, desenvolveu uma reflexão sobre a tolerância, nos seguintes termos: 
Estamos no mês de novembro, rico de efemérides, pois, além das já mencionadas pela Presidente Ludmila Kloczak, temos também o aniversário da proclamação da República Federativa do Brasil, comemorado no próximo dia 15 e a celebração, no dia 16, do DIA INTERNACIONAL DA TOLERÂNCIA, instituído pela Conferência Geral da UNESCO, em sua 28º reunião de Paris, ocorrida entre 25 de outubro a 16 de novembro de 1995.1 
E por que se instituiu tal celebração? A resposta está no art. 6º da “Declaração de princípios sobre a tolerância”, aprovada na mesma Conferência, que diz: “A fim de mobilizar a opinião pública, de ressaltar os perigos da intolerância e de reafirmar nosso compromisso e nossa determinação de agir em favor do fomento da tolerância e da educação para a tolerância, nós proclamamos solenemente o dia 16 de novembro de cada ano como o Dia Internacional da Tolerância”2  
É oportuno e necessário refletir sobre a tolerância porque tem-se, nos dias atuais, a ocorrência frequente do seu oposto: intolerância. Atos de intolerância3 são noticiados, diariamente, pelo mundo afora. Multiplicam-se as condutas que revelam  racismo4, xenofobia5, fanatismo6, fundamentalismo, incompreensões e atitudes agressivas diante de diferentes crenças religiosas, convicções políticas ou filosóficas, costumes, culturas... São atos de recusa do racional e razoável reconhecimento da igual dignidade do “outro” como pessoa humana que compõem um cenário de alta agressividade dentro e fora de casa, ou seja, tanto no âmbito privado quanto nos espaços público e coletivo. Reiteradamente, a palavra e o diálogo são substituídos por golpes de agressão e pelo cometimento de crimes que, infelizmente, nem sempre são adequadamente punidos.
A predominar a intolerância, como negação do outro, por ser diferente7,  cria-se uma cultura de elogio à truculência e à morte. Por isso, faz-se urgente a construção de uma cultura em prol da vida, que seja biófila e não necrófila, lembrando-se aqui  a distinção entre “biofilia” e necrofilia  feita por Erich Fromm8.  Da cultura em prol da vida faz parte o cultivo da tolerância, tema sobre o qual muito refletiram célebres pensadores, como John Locke (1632-1704)9, Voltaire (1694-1778)10, John Stuart Mill (1806-1873)11 tendo por foco a intolerância então reinante, no âmbito religioso e na esfera política. Eram tempos da inquisição eclesiástica12 e do absolutismo real13. Tais pensadores defenderam a plena liberdade de consciência e de crença sem qualquer interferência coercitiva de quem quer que seja. E tais liberdades estão hoje incorporadas no elenco dos direitos fundamentais das constituições democráticas14. Dizia John Locke – defensor também da separação entre a esfera da política  e da religião, ou seja, entre Estado e Igreja15  – “Nenhum caminho que eu siga contra a minha consciência me conduzirá alguma vez à morada dos bem-aventurados[...]. Logo, é em vão que, sob o pretexto de salvar a alma dos seus súbditos, o magistrado os obriga a aderir à sua própria religião: se nela acreditam, virão espontaneamente; se não acreditam, ainda que venham, não deixarão de se perder”.16  
Mas o que é a tolerância?
Norberto Bobbio, respeitável filósofo do Direito e da Política, vê a tolerância em dois sentidos: um positivo e outro negativo: “Tolerância em sentido positivo se opõe à intolerância (religiosa, política, racial), ou seja, à indevida exclusão do diferente. Tolerância em sentido negativo se opõe à firmeza nos princípios, ou seja, à justa ou devida exclusão de tudo o que pode causar dano ao indivíduo ou à sociedade. Se as sociedades despóticas de todos os tempos e de nosso tempo sofrem de falta de tolerância em sentido positivo, as nossas sociedades democráticas e permissivas sofrem de excesso de tolerância em sentido negativo, de tolerância no sentido de deixar as coisas como estão, de não interferir, de não se escandalizar nem se indignar com mais nada”.17 
A mesma questão “O que é tolerância?” é claramente respondida pela “Declaração de princípios sobre a tolerância”, da UNESCO, em seu primeiro artigo: “Art. 1º, 1.1. A tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão e de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos. É fomentada pelo conhecimento, a abertura de espírito, a comunicação e a liberdade de pensamento, de consciência e de crença. A tolerância é a harmonia na diferença. Não só é um dever de ordem ética; é igualmente uma necessidade política e jurídica. A tolerância é uma virtude que torna a paz possível e contribui para substituir uma cultura de guerra por uma cultura de paz. 1.2. A tolerância não é concessão, condescendência, indulgência. A tolerância é, antes de tudo, uma atitude ativa fundada no reconhecimento dos direitos universais da pessoa humana e das liberdades fundamentais do outro. Em nenhum caso a tolerância poderia ser invocada para justificar lesões a esses valores fundamentais. A tolerância deve ser praticada pelos indivíduos, pelos grupos e pelo Estado.1.3. A tolerância é o sustentáculo dos direitos humanos, do pluralismo (inclusive o pluralismo cultural), da democracia e do Estado de Direito. Implica a rejeição do dogmatismo e do absolutismo e fortalece as normas enunciadas nos instrumentos internacionais relativos aos direitos humanos. 1.4.[...] praticar a tolerância não significa tolerar a injustiça social, nem renunciar às próprias convicções, nem fazer concessões a respeito. A prática da tolerância significa que toda pessoa tem a livre escolha de suas convicções e aceita que o outro desfrute da mesma liberdade. Significa aceitar o fato de que os seres humanos, que se caracterizam naturalmente pela diversidade de seu aspecto físico, de sua situação, de seu modo de expressar-se, de seus comportamentos e de seus valores, têm o direito de viver em paz e de ser tais como são.  Significa também que ninguém deve impor suas opiniões a outrem.”18    
O mesmo documento (art. 2º) estabelece os deveres do Estado na promoção da tolerância. Consta do texto (aqui parcialmente citado): “2.1. No âmbito do Estado a tolerância exige justiça e imparcialidade na legislação, na aplicação da lei e no exercício dos poderes judiciários e administrativo. Exige também que todos possam desfrutar de oportunidades econômicas e sociais sem nenhuma discriminação. A exclusão e a marginalização podem conduzir à frustração, à hostilidade e ao fanatismo. 2.3.[...] Sem a tolerância não pode haver paz e sem paz não pode haver nem desenvolvimento nem democracia”.19  
A importante declaração (art.4º, aqui parcialmente citada) apregoa a educação como meio indispensável para a superação da intolerância, ao dispor: “4.1. A Educação é o meio mais eficaz de prevenir a intolerância. A primeira etapa da educação para a tolerância consiste em ensinar aos indivíduos quais são os seus direitos e suas liberdades a fim de assegurar seu respeito e de incentivar a vontade de proteger os direitos e liberdades dos outros. 4.2. [...]As políticas e programas de educação devem contribuir para o desenvolvimento da compreensão, da solidariedade e da tolerância entre os indivíduos, entre os grupos étnicos, sociais, culturais, linguísticos e as nações.”20  
Diante de tais esclarecimentos, propostas e desafios nascem perguntas a exigirem reflexão: tendo-se em conta que o pluralismo religioso, filosófico e ideológico é realidade inconteste da complexa sociedade contemporânea e merece respeito e proteção no âmbito da Democracia, do Estado Democrático de Direito, conforme estabelecido na Constituição da República, como vai, no Brasil, o exercício da tolerância, na família, na escola, na empresa, na política, nas relações entre diferentes religiões, diferentes “visões de mundo”? Sabendo-se, conforme ensina o filósofo Foucault,21  que o poder permeia as diversas relações sociais, cabe perguntar: como estão, nestes mesmos ambientes e esferas, as relações entre poder e tolerância? O que se deve e o que se pode fazer em prol de mais tolerância positiva - como caminho para o entendimento e a paz no convívio com os outros e suas diferenças - e menos tolerância negativa para com a impunidade, a corrupção, o “jeitinho”22 que menospreza o princípio constitucional da igualdade de todos perante a lei, deixando-se transparecer, às vezes, a ousadia de alguns indivíduos pretenderem até mesmo a “privatização” do poder político? A República e a Democracia veem a tolerância positiva entre os diferentes como uma virtude indispensável à paz e ao bem comum. Todavia, tanto a República quanto a Democracia, em razão de seus princípios fundamentais (arts. 1º a 4º da CF), não podem e não devem tolerar ações ofensivas às suas instituições republicanas e democráticas, isso porque por meio da Constituição estabelecem a origem popular do poder   tal poder só se legitima quando a serviço do “bem de todos” (CF, art.3º, IV) e não do bem de apenas alguns. “Todos” significa inclusão de todas as pessoas, independentemente de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Sem o respeito a tais princípios nada haveria a comemorar nos dias 15 e 16 de novembro. E aí se revela o momento e a razão de ser do Direito e de suas “fontes formais” (Constituição, pactos internacionais, leis infraconstitucionais) serem aplicados para frear os abusos e mau uso da própria tolerância que, em seu sentido positivo, jamais se confunde com aquele negativo manifestado pela indiferença, pelo preconceito que leva à omissão de deveres e condescendência com atos que ferem valores fundamentais ao convívio digno, pacífico e democrático.  
Somente quando bem compreendidos - e tal compreensão depende de educação que a possibilite - os significados e a importância da tolerância e da República é que as datas comemorativas que se aproximam (15 e 16 de novembro) ganham sentido e passam a merecer autêntica celebração. Um brinde à tolerância e à República Federativa do Brasil! Tim, tim! 


[1]  UNESCO. Declaração de Princípios sobre a tolerância. In: CARDOSO, Clodoaldo Meneguello. Tolerância e seus limites. São Paulo: Unesp, 2003 (Anexos, p.189 a 197).
[2] Idem, p.196.
[3] Cf. Foro Internacional sobre Intolerância (1997:Paris, França). A Intolerância. Academia Universal das Culturas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. Trata-se de obra que reúne 35 textos dos participantes do Fórum Internacional sobre a Intolerância, realizado na Sorbonne, em março de 1997.
[4] Cf. BITHENCOURT. Francisco. Racismos: Das Cruzadas ao Século XX. Para o referido autor, “a violência diária entre etnias continua a ser visível em diferentes partes do mundo”. E acrescenta que “é preciso ainda percorrer um longo caminho para cumprir o sonho da dignidade humana e da real implementação dos direitos humanos. (p.509). Cf. também WIEVIORKA, Michel. O Racismo, uma Introdução. São Paulo: Perspectiva, 2007.
[5] Cf. sobre tal tema ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. Xenofobia: Medo e Rejeição ao Estrangeiro. São Paulo: Cortez, 2016.
[6] Cf. PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi (orgs.). Faces do Fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. A obra reúne textos de historiadores e pesquisadores de outras áreas sobre o fenômeno do fanatismo (fanatismo religioso, fanatismo racista, fanatismo político e fanatismo esportivo, segundo as quatro modalidades analisadas pelos autores).     
[7] Para o filósofo  MICHAEL WALZER, “a tolerância torna a diferença possível; a diferença torna a tolerância necessária”. Cf. Walzer. Michael. Da Tolerância. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. XII.
[8] Cf. FROMM, Erich. O Coração do Homem: seu gênio para o Bem e para o Mal, 6ªed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. (pg.39 e seguintes).
[9] Cf. LOCKE, John.  Carta Sobre A Tolerância. Lisboa: Edições 70, 1997. 
[10] Cf. VOLTAIRE. Tratado sobre a Tolerância. São Paulo: Edipro,2017.
[11] Cf. MILL, John Stuart. Sobre a Liberdade. Petrópolis/RJ: Vozes, 1991.
[12] Cf. BETHENCOURT. Francisco. História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália- séculos XV-XIX.
[13] Cf.ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Brasiliense, 2004.  LOPES, Marcos Antônio. O Absolutismo: política e sociedade na Europa Moderna. São Paulo: Brasiliense, 1996.
[14] A Constituição da República Federativa do Brasil estabelece no art. 5º, VI: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.
[15] Sobre tal temática cf. JACOBINA, Paulo Vasconcelos. Estado Laico, Povo Religioso: reflexões sobre liberdade religiosa e laicidade estatal. São Paulo: LTR, 2015. SOLER, Marcos. A Igreja e o Direito Brasileiro. São Paulo: LTR, 2010. CIFUENTES, Rafael  LLano.  Relações entre a Igreja e o Estado, 2ªed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989. MILANI, Daniela Jorge. Igreja e Estado: relações, secularização, laicidade e o lugar da religião no espaço público. Curitiba: Juruá, 2015.
[16] LOCKE, John. Op. cit.  p. 105.
[17] BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Campus,1992. (p.211). 
[18] Unesco. Declaração de Princípios sobre a Tolerância.
[19] Idem.
[20] Unesco. Declaração de Princípio sobre a tolerância.
[21] Cf. FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder, 8ªed. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
[22]Sobre este tema cf. ROSEN, Keith S. O Jeito na Cultura Jurídica Brasileira. Rio de Janeiro: Renovar, 1998, p. 12 e 13.  Diz o autor: “Vários autores têm observado que a diferença entre o direito escrito e o aplicado na prática é notoriamente grande na América Latina. A peculiaridade no Brasil é que essa prática de desvio das normas legais para alcançar o fim desejado elevou-se de um modo tal, que resultou na criação de uma instituição paralegal altamente cotada conhecida como “o jeito”. O jeito se tornou parte integrante da cultura jurídica do Brasil. Em muitas áreas do direito, o jeito é a regra; a norma jurídica formal, a exceção”. Espera-se que, mediante o esforço indispensável  de  fortalecimento das instituições democráticas,  tais constatações fiquem no passado e deixem de corresponder à triste realidade descrita pela referida obra.

"Sandra Delallo e os Clássicos do Piano"

Professora e exímia pianista, a convidada nos brindou com a interpretação de duas músicas de repertório clássico: "De Gradus ad Parnassum", de Claude Debussy e "Improviso Op. 66", de Chopin.
Ouça e veja a audição no vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=cK3lMM8Wjf0&feature=emb_logo

* Sandra Secco Delallo é natural de Astorga PR.
Concluiu o curso de piano no Conservatório Musical Santa Cecília de Arapongas e manteve formação continuada com vários professores particulares.
Licenciada em Educação Artística pela UFPr.
Licenciada em Música pela UEL.
Pós graduada em performance do Piano pela UEL, apresentando-se como solista em repertório individual e concerto com orquestra.
Atua como professora de música desde 1974, nos vários níveis, tendo orientado alunos que se tornaram músicos e professores de música.
Organiza desde então apresentações musicais atuando como professora e intérprete.
Atualmente é professora na Escola Cantata e no Conservatório Musical de Londrina.

"A Difícil Arte do Desapego"
Acadêmica Neusi Berbel

Uma reflexão num contexto entre o Ter e o Ser numa sociedade tecnológica
Vivemos numa época de grandes mudanças, entre elas as tecnológicas. Tivemos que ir aprendendo a conviver com essas mudanças, para sobreviver e também buscar viver. Falo de minha vivência em geral e também a partir da minha profissão no magistério.
Não tenho a pretensão de tratar amplamente do tema aqui, tal como é desenvolvido em várias áreas, como na religião, na sociologia, na área médica e principalmente na psicologia, com a psicanálise, em que se pode até mesmo encontrar a Teoria do Apego e seu contrário. Vou, neste espaço, dar apenas um destaque para o tema! Ele poderá ser ampliado por especialistas no futuro!  
A minha geração, já no trabalho, viu a máquina de escrever substituída pelo computador, o mimeógrafo substituído pela impressora, os diapositivos ou pequenos slaides substituídos pelas transparências e depois pelos slaides como um programa de computador etc.   Tudo isso, primeiro incorporado pelas instituições, depois entrando em nossas casas. 
Ao mesmo tempo, a aquisição de livros, antes pela biblioteca, foi sendo incorporada pelos professores, que foram se deparando com mais e mais alternativas de abordagens para seus conteúdos e mais elementos explicativos pelas ciências complementares ou mesmo fundantes de sua área. Compramos livros e mais livros para nossa biblioteca particular ! Passamos a ter cada vez mais livros e outros materiais pensando que assim poderíamos vir a ser cada vez melhores professores.
Nessa mesma linha de pensamento, passamos a ter também cada vez mais títulos (de especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado) e ao mesmo tempo produzir e publicar cada vez mais livros, capítulos, artigos etc., para sermos reconhecidos como bons profissionais em nossa área!  E nos apegamos a isso!  
Muita coisa funcionou!!!  Crescemos em conhecimentos e elaborações numa subárea cada vez mais reduzida. Desenvolvemo-nos em algum sentido e contribuímos para o desenvolvimento de nossos alunos, também em algum sentido!!!
Aos poucos, o avanço da tecnologia foi-nos apresentando produtos maravilhosos e o telefone e a máquina fotográfica foram sendo substituídos pelo celular, cada vez menor e mais potente.  A comunicação ao celular foi facilitada (por áudio, por escrito ou por vídeo) e foi sendo acrescida ou substituída por mensagens e vídeos elaborados por outros!  De tão maravilhados com essas criações, as fomos acumulando em nossos aparelhos, que também foram sendo substituídos por outros com mais memória e recursos, mesmo que não soubéssemos como bem explorá-los!!!!
Fomos adquirindo!  Pela crença de que era o certo a fazer!  A influência do meio foi decisiva sobre nossas crenças, desejos e ações! O trecho do poema de Caetano Veloso (1) na música Dom de iludir, que diz “...Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, afirmação com a qual eu sempre concordei, foi sendo substituída por mim por “Cada um sabe a dor e a delícia de ter o que tem”, pois a sociedade para o consumo nos atingia/atinge de muitas maneiras e vamos nos apegando ao que consumimos!
No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (3)  encontramos, entre outros sentidos, que apegar significa “fazer aderir a,  colar, agarrar-se”. Para o termo apego, encontramos: “uma ligação afetuosa, afeição, estima. Dedicação constante ou excessiva a algo” (p.249). 
Ao buscarmos o termo desapego, encontramos no mesmo dicionário: “1- qualidade ou estado de quem revela desamor por alguém; 2- qualidade ou estado de quem demonstra indiferença, desinteresse, desprendimento pelas coisas ou certa coisa em particular, despego” (p.955).
Osho, conhecido Guru indiano, buscava explicar que nos agarramos a algo porque temos  medo de perdê-lo, de que amanhã não possamos mais ter aquilo que hoje temos.  E afirmava que “o amor é a única libertação do apego. Quando você ama tudo, não está preso a nada” (2).
Para Osho, o apego é a sede, o desejo ardente de possuir. É essa uma razão de grande parte de nossos sofrimentos e nossas frustrações.  Apegamo-nos aos seres humanos, aos seres viventes, aos bens (riqueza, posse, o ter, o saber),  a ideias, ideais, opiniões, crenças, concepções, ideologia, entre outros objetos. 
Dizia ainda o Guru: “Todas as nossas misérias e sofrimentos não são nada mais do que apego. Toda a nossa ignorância e escuridão é uma estranha combinação de mil e um apegos”. Se começarmos a desapegar-nos, uma tremenda libertação de energia acontecerá dentro de nós.
Eis que, de alguma maneira, vamos tendo que aprender a nos desapegar de nossos bens de todas as naturezas!  Não sem sofrimento, mas, porque, segundo Osho, “o desapego é certamente a essência do caminho”.
Não por desprezá-los, mas para viver de modo mais leve,  já que  naturalmente, ao chegarmos numa idade mais madura, precisamos cada vez mais de mais energia para poder carregar cada vez menos. 
Na grande maioria dos casos, fomos trocando casas mais espaçosas por apartamentos mais práticos e neles não há espaço para tantos livros que não usamos, principalmente após nos aposentarmos!
Mesmo distribuindo pelas bibliotecas que aceitam livros físicos - estes estão sendo substituídos pelos livros virtuais!!! Eu mesma já tenho dois deles!!! - deixando em sebos ou doando para outras instituições, o acúmulo de livros que nos são caros precisa ter destinação. Isso nos causa um novo conflito entre o ter e o ser!
Bom quando encontramos pessoas que possam aproveitar! Se tiverem condições de ler e se apropriarem do que leem!!! Tenho doado alguns  a estudantes matriculadas num curso de Pedagogia a distância, com a duração de 1 ano!!!
Não tem como não me preocupar com essa formação para o magistério, tendo em mente que o meu curso de Pedagogia foi de 4 anos presenciais, com complemento de um ano e meio,  que teve o acréscimo depois de uma especialização, depois mestrado, doutorado e pós-doutorado... Tudo isso sem a garantia e a convicção de conduzir com excelência salas de aula de formação de professores, que demandam permanente atualização, já que a sociedade está em constante mudança, e nela, as escolas e os alunos também,  dia a dia!!!!
Na hora de separar o que doar e o que guardar ainda por um tempo, o apego aparece, e forte !!!  Como me desfazer dos livros que escrevi ou no qual atuei com a minha organização, com capítulos, com prefácio etc.? Como me desprender das revistas em que tenho artigos publicados?  Tudo já foi publicizado, pois foi para isso escrito e publicado, mas tenho que ter uma cópia!!!
Quanto tempo empenhado! Quanta leitura! Quanta busca de respostas! Quantas escolhas de modo de vida por um modo de ser profissional? O quanto deixamos nossa casa, nossa vida pessoal e nossos filhos para essas elaborações e conquistas?
Pagamos caro o preço para ter o que temos, iludidos de que nos levam a ser o que queremos ser!
Então, o desapego, mesmo conscientemente reconhecido como necessário, é doloroso!  
Em alguns setores, mais difícil ainda, como no meu caso! Meu apego às minhas Aquarelas ainda é muito grande! Me apeguei a cada uma ao ponto de gostar de ad-mirá-las, mesmo em sua simplicidade!
O meu apego se mostra, neste momento, também em outro setor:  o das fotos e vídeos no meu celular! Entre as duas formas, contavam mais de sete mil !  Fotos e vídeos recebidos com muito carinho de amigos e familiares!  Guardados para recorrer a eles de vez em quando, por um tema, por uma saudade, por uma beleza contida, para um compartilhar oportuno!
E o pior!  O celular, objeto que deveria ser inanimado, não é!  Ele me dá um ultimato!  Não tem mais espaço para armazenagem! Não insista !  Como se dissesse: Ou eles ou eu não funciono mais!!!  E o que faço com isso? 
Vamos lá! Vamos aprender! Vamos buscar algumas fotos para guardar no computador e alguns vídeos mais expressivos!  Puro apego!  Curiosamente, o pensamento de OSHO, se aplica aqui com muita clareza! Se eu começar a desprender-me das fotos e vídeos, uma tremenda liberação de energia (espaço de armazenagem, no caso do  celular !) acontecerá!  
Então...  é inevitável exercitar o desapego, cortando na pele !  É cruel ! 
Mais uma vez: “Cada um sabe a dor e a delícia de ter o que tem” e será que ter, o faz ser o que é?
Uma coisa é certa: o desapego requer esforço!  É preciso tempo! É preciso também um critério para as escolhas!  A beleza da fotografia/ das imagens?  O texto/o roteiro? As cores? O remetente? Os autores? Os sons ...     Qual? 
Seja lá qual ou quais critérios, a escolha será inevitável! Por isso, mesmo nesses campos aqui exemplificados, de ordem material, é muito difícil exercer a Arte do desapego! 
Podemos então imaginar em outros, quando o foco de apego sejam ideais, crenças ou seres humanos!
Vamos refletir!  
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(1) Veloso, Caetano. Música Dom de Iludir. Capturado em https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/44719/, em 08/10/2020.
(2) http://portaldobudismo.com/2014/05/30/osho-o desapego/ Capturado em 3/10/20 de https://medium.com/@patycalazans/o-desapego-lindo-texto-do-mestre-osho-a41d16e33842
(3) Houhaiss, Antonio (1915-1999) e Villar, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.  Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

"Maura Lopes Cançado - Literatura e Loucura"
Celia Musilli *

No fim da década de 1950, Maura Lopes Cançado, internada num hospício, escreve um diário. Durante cinco meses, de outubro de 1959 a março de 1960, dedica-se a relatar tudo o que acontece ao seu redor, misturando a dor da sua condição psicótica a descrições do ambiente lúgubre em que vivia: “O hospício é árido e atentamente acordado, em cada canto, olhos cor-de-rosa e frios, espiam sem piscar.”

A referência aos olhos é uma alusão ao ambiente vigiado do Hospital Gustavo Riedel, no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, onde os portões eram trancados, os muros altos, todos cumpriam uma rotina rígida e as internas eram controladas por tratamentos que incluíam os eletrochoques, além de doses maciças de medicamentos. O diário, publicado pela primeira vez em 1965, pela José Olympio, recebeu um título curioso: Hospício é Deus. Ao escrevê-lo, Maura saltou o muro do manicômio e ganhou reconhecimento como autora.
A imagem dos olhos – ou do olhar – trespassa o livro como símbolo da vigilância institucional e também do testemunho da autora. Ver e contar torna-se neste período sua principal atividade; ela transforma a escrita num estímulo cotidiano e, ao mesmo tempo, num instrumento de denúncia. A situação de ser vista e vigiada, assim como de olhar e relatar, articula-se com o título do seu segundo livro: O Sofredor do Ver, publicado em 1968, também pela José Olympio, e que só teve uma segunda publicação em 2011, pela Confraria dos Bibliófilos do Brasil, reunindo doze contos, sendo que alguns remetem a situações e personagens do manicômio.
Hospício é Deus, seu livro mais conhecido, mostra a intensidade da sua escrita, aliando a angústia a um grande potencial literário. Trata-se da força expressiva de quem faz outra leitura do mundo, plasmada por uma percepção dilatada das coisas mas sem perder a lucidez, embora no diário faça uma auto-representação da louca, dando voz a si mesma e a suas companheiras de hospício. O livro é um documento de época que mostra o tratamento dispensado à loucura, uma situação trágica tendo em vista os tratamentos dolorosos e até desumanos. A autora faz uma crítica feroz ao sistema psiquiátrico em vigor no período de seus internamentos que foram muitos, já que passou a vida entrando e saindo de manicômios até falecer em 1993, aos 63 anos.
O interessante na sua obra é que não se trata apenas de “escrita de denúncia,” abordada em muitas pesquisas, mas da expressão de  ideias num plano simbólico que se articula como uma espécie de “inconsciente da obra.” Maura utiliza muitas imagens e metáforas, recursos ainda mais presentes em seu livro de contos O Sofredor do Ver, que considero sua grande obra, com uma linguagem que se distancia dos lugares comuns. Não à toa o crítico Assis Brasil, um dos poucos - senão o único crítico renomado a analisar com mais profundidade seu livro de contos - a considerava uma revelação literária dos anos 50/60. No prefácio ao livro A Nova Literatura – O conto III, ele elenca uma série de autores que considerava importantes, Maura está entre eles. Ainda assim, é pouco conhecida, pouco estudada, o número de teses e dissertações sobre sua obra é pequeno e a crítica praticamente a ignora.
Comparo seus livros a caleidoscópios, repletos de imagens literárias que descobrimos girando de um lado a outro, sendo possível muitas leituras. Para fazer esta abordagem, o surrealismo torna-se um parâmetro interessante, não para classificar Maura como “autora surrealista”, mas para perceber em sua escrita traços surrealistas que em algumas pesquisas são identificados apenas de passagem, sem o aprofundamento ou uma explicação capaz de distinguir essa característica. Na sua obra encontrei o encantamento da linguagem surreal, aquela que tira faíscas das palavras, iluminando novos sentidos por aproximações inusitadas como nos títulos de seus livros: Hospício é Deus e O Sofredor do Ver. Trata-se de literatura sofisticada, às vezes complexa ou quase inescrutável a ser lida com todos os sentidos, buscando na recepção uma pulsação que acompanhe sua criação. 
Maura às vezes é de tirar o fôlego. Um caminho é tomar sua escrita pela ótica da eficácia estética, porque não basta ser louco, como muitos apontam como sua característica relevante, tem que escrever bem, fazer literatura, e isso ela fez magistralmente. Sua obra às vezes requer um cruzamento com seus dados biográficos, onde se encontram alguns de seus motes de criação: ela transformava colegas de manicômio em personagens de contos, ficcionalizava suas histórias. Não dá para ignorar este aspecto de imbricamento, alguns de seus contos são melhor compreendidos a partir de seu diário porque há uma transposição de situações de uma obra realista para sua obra ficcional. No entanto, embora o estigma da loucura pese muito sobre Maura, sua obra ainda requer interpretações não sob um ponto de vista psicopatológico, mas literário. Há muito a se descobrir e dizer sobre ela.

UMA AUTORA VERSÁTIL 
Maura Lopes Cançado escreveu em diversos gêneros, é autora de poemas, contos e também do diário que se caracteriza como “escrita de si.” Dividiu espaço com intelectuais como José Louzeiro, Carlos Heitor Cony, Assis Brasil e Ferreira Gullar ao publicar alguns de seus contos noSuplemento Dominical do Jornal do Brasil – SDJB – considerado um caderno literário de vanguarda entre os anos 50 e 60. Até por isso, em alguns momentos seu diário apresenta traços jornalísticos como a criação de manchetes para dar conta do cotidiano do hospício. Ela escreve em letras garrafais: “EXTRA! EXTRA!  O CRIME DA GRAVATA NOVA!”, mostrando não só verve de repórter como uma boa dose de humor. Apesar do sofrimento, encontra-se em seus textos uma versão de humor negro, caro a alguns surrealistas. Ela também se valia da ligação que tinha com o Jornal do Brasil – onde publicava contos, mesmo estando internada – e da amizade com jornalistas como condição que lhe conferia prestígio, como autora era vista de outro modo no manicômio, gozava de um status e isso, às vezes, transparece como motivo de orgulho em seus textos. Foi através da condição de autora que adquiriu uma nova identidade, não sendo “apenas um prefixo no peito do uniforme” como descreve em Hospício é Deus os internos que formavam a massa da loucura.  A literatura a colocava em outro plano, remetendo ao conceito de arte como “organização da experiência”, valorizado por críticos como o norte-americano I.A. Irving e  Antonio Cândido.
Em matéria de gêneros Maura é eclética, escreveu como quem mexe no dial de um rádio. Os amigos jornalistas frequentemente são citados no seu diário para formular críticas ou como motivo de orgulho por contar com pessoas consideradas influentes, dependendo do momento ou da circunstância, da cumplicidade ou da decepção. Quando a situação ficava difícil, ela chamava Reynaldo Jardim – editor do Suplemento Dominical e um dos primeiros a valorizar sua obra – ou queria falar com Ferreira Gullar, Alice Barroso e outros conhecidos para quem telefonava.
Já o livro de contos que se encontra esgotado, pode ser considerado uma raridade que revela muito sobre Maura. Um dos seus contos mais conhecidos, “No quadrado de Joana”, traz uma personagem catatônica, cuja obsessão é andar em linha reta no pátio do hospício. Outro conto, “Introdução a Alda”, é dedicado a uma colega do manicômio cujo verdadeiro nome era Auda. Este conto parece uma espécie de “bula” que os médicos deveriam conhecer para  desvendar as emoções  delicadas de uma psicótica, coisa difícil de acontecer no hospital em que Maura vivia. Já “Espiral Ascendente” traz uma experiência real: a autora ao encenar uma peça de teatro  no papel de Ofélia – a personagem de Shakespeare - numa apresentação ao ar livre, tirou a roupa, postou-se no alto de uma pedra, ameaçando jogar-se de uma cachoeira, situação que bem lembra o Teatro da Crueldade de Antonin Artaud que pretendia implodir os limites entre o real e o simbólico em busca de encenações autênticas  e sem fronteiras que aproximassem arte e vida. Maura se deu a este “luxo” cênico, num momento tão complexo quanto arriscado que acabou transportando para a  literatura.

A INCLUSÃO DA LOUCURA  
Na História da Loucura, Michel Foucault mostra que o estigma da doença tornou a insanidade um campo fechado que, ao longo dos séculos, fascinou e amedrontou muita gente. A loucura seria uma experiência próxima da morte, capaz de oferecer uma peculiar liberdade que também nos instiga, nos espreita e nos faz livres, justamente por transpor os limites da compreensão racional. Maura é um dos tantos exemplos de escritores, filósofos e poetas que tiveram suas obras atravessadas pela "noite da loucura". Mas há estruturas e imagens nos seus textos que nos colocam diretamente diante dessa experiência, uma construção artística que oscila entre a racionalidade e seu transbordamento. Uma relação importante que se pode fazer a partir do título de seu diário Hospício é Deus é interpretá-lo, em seu teor provocativo, como um título que reúne dois grandes temas filosóficos: Deus e a loucura que nos proporcionam, à primeira vista, uma ideia de incompreensão e complexidade, um abismo que se abre diante da grandiosidade. Uma imensidão que não é só seu enigma como sua explicação.
A simbologia na obra de Maura é muito forte, assim como o atrito das palavras,  combustão que pode nos levar a uma abordagem surrealista. Fora isso há o aspecto da vigilância porque Maura era vigiada e, de certa forma, também vigiava o hospício, fazendo dele um tema constante. Comparo sua escrita à linguagem cinematográfica, sua experiência a um reality show, como se Maura ligasse no hospício uma câmera 24 horas, vendo e relatando tudo. Ela mesma diz muitas vezes que está inserida num contexto, num ambiente “que só o cinema seria capaz de mostrar”. Isso revela muito da sua obsessão pela linguagem perfeita, que capte a realidade em detalhes. Além disso, revela nos contos uma forma de olhar bastante original, o verbo “ver” permeia toda sua obra, tanto que escreveu um livro e um conto homônimo intitulados “O Sofredor do Ver”.
Num trecho de Hospício é Deus, ela descreve a loucura fundida com a condição feminina: "Nós, mulheres despojadas, sem ontem nem amanhã, tão livres que nos despimos quando queremos. Ou rasgamos os vestidos (o que dá ainda um certo prazer). Ou mordemos. Ou cantamos, alto e reto, quando tudo parece tragado, perdido. [...] Nós, mulheres soltas, que rimos doidas por trás das grades - em excesso de liberdade".  Nos seus escritos, o "ser mulher" está próximo de uma região de loucura, onde é possível rir plenamente, existir sem tempo, ir em frente apesar da flagrante contradição de ser prisioneira, resistir livre, no prazer e na sensualidade, ainda que esteja apartada do mundo. Acredito que para Maura, a literatura é realmente a representação desta liberdade, o leitmotiv que a fez manter-se viva.
No diário, ela também cita o Dr. A, um psiquiatra negro que foi seu grande amor no  hospício, assim como fala do pai – com quem manteve uma relação meio edipiana – do ex-marido, do ex-sogro, do filho Cesarion, mas os homens figuram mais como dados biográficos, pois ela mantém sua atenção sobre personagens femininas. Como mulher, se expressa de forma muito sensual no diário, era vaidosa, narcisista, maquiava-se bem, exibia as pernas, gostava de ser vista e admirada, colocando-se de “forma artística” no manicômio, a ponto de dançar no telhado. Mas a condição feminina estava introjetada nela sem que isso se relacione a uma busca de emancipação, era naturalmente independente e rebelde. Numa entrevista ao jornalista João da Penha, da revista Escrita,  nos anos 70, Maura fala dos gêneros sem fazer diferença entre homens e mulheres, sem arroubos feministas. O que não deixa de ser um feminismo exemplar, uma igualdade já assimilada que nem sequer observa as diferenças. Nesta entrevista, ela diz que não se expressa como mulher, mas como ser humano.
É importante ressaltar que Maura, além de autora, foi uma pessoa criativa que deu margem também a muita ficção em torno da sua vida, como no caso de um episódio comentado pelo jornalista e escritor José Louzeiro num artigo que relaciona a loucura de Maura a um incidente com um avião na juventude. Maura, quando jovem, fez curso para tirar o brevê e ganhou da mãe um avião Paulistinha, um luxo do qual podia usufruir porque era filha de um fazendeiro muito rico de Minas. Este incidente – o avião teve que fazer um pouso de emergência e causou alguns estragos numa cidadezinha do interior – chegou a ser visto como sintoma de loucura, de um surto, mas a própria Maura diz no diário que quem pilotava o avião naquele dia era um amigo, não ela, que era apenas passageira.  Não é possível defender nenhuma versão sobre fatos de sua vida como verdade absoluta, porque a vida de Maura foi bastante fragmentada e há muitas informações desencontradas sobre ela. Mas é possível observar que é frequente alimentarem-se fantasias em torno da vida dos loucos, a lenda é sempre mais fascinante que a realidade, mas tendo em vista seu próprio relato sobre o incidente com o avião, creio que se deva levar em conta também o que ela diz  e não só o que dizem sobre ela, embora a Maura “escritora e louca” seja uma personagem e tanto. Também pesava sobre ela um homicídio: matou uma colega de quarto em uma clínica psiquiátrica. No julgamento foi considerada inimputável por causa da doença, por haver cometido o crime durante um surto.
Acredito que a primeira obrigação de quem analisa a obra de um louco seja lhe devolver a palavra, o direito de se expressar com legitimidade. No caso de Maura há um documento que pode ajudar a fazer prevalecer sua palavra: o diário Hospício é Deus, considerado um relato lúcido. Devolver-lhe a palavra é o que venho tentando desde que encontrei o primeiro artigo sobre ela em 2009 e o desdobrei numa pesquisa que não abarca tudo o que se pode ainda dizer sobre sua obra. A loucura como a literatura são territórios sem fim.

* Jornalista, cronista, poeta, autora dos livros "Londrina Puxa o Fio da Memória" (editora Letra d'Água/ 2004) de memórias de Londrina; "Sensível  Desafio", poesia ( Editora Atrito Art/ 2006) e "Todas as Mulheres  em Mim", poesia ( Coleção  Tríade/ editoras Atrito Art e Kan/ 2010). 
Tem textos  publicados  em coletâneas, jornais  e revistas literárias  do Brasil  e Portugal.  
Atualmente  é editora de Cultura  da Folha de Londrina. 

Extratos da reunião em modalidade remota de 11/10/2020

 


Alguns dos participantes, antes do início da reunião

Nosso Mestre de Cerimônias, Jonas Rodrigues de Matos, conduziu a reunião

O Credo Acadêmico da Academia foi lido pela Acadêmica Fátima Mandelli

Acadêmica Ludmila Kloczak

Caros acadêmicos, convidados e visitantes! Bem-vindos a esta reunião virtual da nossa Academia!
Em outubro, nossa cidade, Londrina, nos brinda com o amarelo ouro da florada das sibipirunas. O verde respingado de amarelo destas árvores frondosas e os cachos amarelo-brilhantes das acácias reais, enfeitam o mês para várias celebrações.
Para quê o Dia da Criança? Pela obrigação de presenteá-la e alegrá-la? Para aliviar a consciência de não brincar o suficiente durante o ano? E o que é brincar o suficiente?
A existência da criança atende, em primeiro lugar, à conservação da espécie, depois, à continuidade da família e, só então, ao desejo dos indivíduos em serem pais. Ao desejo de oferecer a um novo ser a oportunidade de constituir sua própria existência a partir de uma rede afetiva propiciada pela relação paterno-materna. É a oportunidade para meditar sobre a criança que está dentro de nós, buliçosa, curiosa, frágil, criativa. À medida que este ser se torna adulto, a criança não desaparece, incorpora-se, participa da adultez. É a fonte da leveza, da fantasia, da criatividade com a qual o adulto poderá conduzir sua vida. Meditar sobre o destino da criança em nós quando desprezamos esta fonte, e nos tornamos adultos  insípidos, agressivos, frios, oportunistas, incapazes de fruir a vida.
Neste mês são lembrados os professores. Pela sua vocação em educar, ou seja, extrair de dentro da criança, do jovem e do adulto, a sua potência transformadora, é uma profissão apreciada pela sua abnegação, pelo seu caráter de sacerdócio. Há algo de sagrado no ato de abrir aos alunos a potência da revelação oferecida pelo conhecimento. Gratidão aos professores!
Outubro, há muitos anos, também é rosa. Cor vibrante que lembra o feminino através do qual flui a vida. Os seios que amamentam, podem se transformar em patologia grave. Os mesmos hormônios que estimulam a produção do leite materno, vital para o sustento das crianças, podem facilitar o surgimento de células cancerígenas. Rosa para alertar que, além da estética, a mulher deve a si mesma atenção com a sua saúde.
Este é o mês designado à celebração da Padroeira do Brasil. Para representar o mistério e a sabedoria espiritual, nós, brasileiros, encontramos na pequena imagem de Nossa Senhora negra, delicadamente adornada, a força do Sagrado e o sentido milagroso das nossas lutas cotidianas, dos nossos sonhos, a nossa fé e confiança na proteção divina. Aos que creem e aos que não creem, Nossa Senhora Aparecida rogai por nós!
Muito obrigada!

Acadêmico Sergio Alves Gomes

Ao fazer uso da palavra, o Orador destacou a riqueza e a variedade das temáticas presentes na pauta da reunião, com espaço para reflexões filosóficas, poesia e arte musical a serem  vistas como expressões  de potencialidades e realizações  criativas, no mundo da  cultura, no qual se situa a Academia de Letras, Ciências e Artes. Em seguida, introduziu o termo  “Poder”, como tema para breves considerações reflexivas, relacionando-o com a noção de “bem comum”. Transcreve-se abaixo o inteiro teor do texto exposto, sinteticamente, durante a “Palavra do Orador”. 

O PODER E SEUS EFEITOS NO BEM COMUM

1. Alguns Conceitos de Poder 

Para o sociólogo MAX WEBER (1864-1920), “poder significa toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade”1  
A filósofa HANNAH ARENDT (1906-1975) não vê o poder como “imposição da própria vontade”, mas sim como “habilidade humana não apenas para agir, mas para agir em concerto. O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e permanece em existência apenas na medida em que o grupo conserva-se unido. Quando dizemos que alguém está “no poder”, na realidade nos referimos ao fato de que ele foi empossado por um certo número de pessoas para agir em seu nome. A partir do momento em que o grupo, do qual se origina o poder desde o começo (potestas in populo, sem um povo ou grupo não há poder), desaparece, “seu poder” também se esvanece.”2 
Segundo o pensador MICHEL FOUCAULT (1926-1984), conforme observa o Prof. ROBERTO MACHADO, da UFRJ, “os poderes não estão localizados em nenhum ponto específico da estrutura social. Funcionam como uma rede de dispositivos ou mecanismos a que nada ou ninguém escapa, a que não existe exterior possível, limites ou fronteiras. Daí a importante e polêmica ideia de que o poder não é algo que se detém como uma coisa, como uma propriedade, que se possui ou não. Não existe de um lado os que têm poder e de outro aqueles que se encontram dele alijados. Rigorosamente falando o poder não existe; existem sim práticas ou relações de poder. O que significa dizer que o poder é algo que se exerce, que se efetua, que funciona. E que funciona como uma maquinaria, como uma máquina social que não está situada em um lugar privilegiado ou exclusivo, mas se dissemina por toda a estrutura social. Não é um objeto, uma coisa, mas uma relação (negritamos).3 

2. O Poder e o Bem Comum: exigências éticas e jurídicas em tal relação  

Com base nos conceitos mencionados, resta claro que a manifestação do poder sempre ocorre no âmbito das relações sociais. Sejam estas de natureza política, econômica, jurídica, religiosa, educacional ou outras similares. 
Tecem-se, nesta reflexão, apenas breves considerações sobre alguns dos efeitos - benéficos e maléficos - do poder político e econômico em relação ao “bem comum”.  
O Papa João XXIII, com muita clareza, conceituou “bem comum”, ao dizer que este " consiste no conjunto de todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana".4
A presença ou ausência do “bem comum” na sociedade depende de como se dão as relações de poder. Quando o poder presente em tais relações é exercido de forma equilibrada, sem opressão, tal poder, orientado pelos limites do Direito, compromissado com a promoção do que é justo e razoável, produzirá efeitos benéficos para todos os partícipes das relações em foco. Ao contrário disso, quando o poder trata algum dos partícipes da relação social em foco como uma coisa, um objeto descartável, de consumo, ao invés de considerá-lo como “pessoa”, então tal exercício se torna autoritário, e até mesmo despótico, tirânico e totalitário. Isso ocorre porque no exercício desequilibrado do poder, tem-se a presença da desproporção, da desmedida e até da violência, ou seja, daquilo que os pensadores gregos denominavam “HYBRIS”. Heráclito de Éfeso (aprox. 540-474 a.C) envia um alerta à humanidade que continua a fazer sentido nos tempos atuais, com os seguintes fragmentos: “mais do que o incêndio é necessário apagar a “hybris”. E, em outro trecho proclama: “o povo deve lutar pela lei como pelos muros da cidade”.5
Todas as formas de totalitarismo, autoritarismo, ditadura, enriquecimento ilícito e corrupção expressam exercício do Poder contrário ao “bem comum”, isto é, o “bem de todos”. A Constituição Federal de 05 de outubro de 1988 é fruto da percepção ética, política e jurídica sobre o correto e benéfico exercício do poder em prol do bem comum e sobre os malefícios dos regimes políticos e sistemas econômicos sem freios de qualquer natureza, onde o homem escraviza o homem, abusa do poder, pisa sobre o mais fraco, transforma a relação de poder em opressão. Tal percepção enseja a bandeira da democracia e a instituição do Estado Democrático de Direito, onde a tripartição dos poderes defendida por MONTESQUIEU é adotada exatamente para impedir a opressão e a dominação. É norma constitucional, em forma de “cláusula pétrea”, isto é, mandamento jurídico que não pode ser abolido pelo Congresso Nacional nem mesmo mediante emenda à Constituição. E por que? A resposta está nas palavras do próprio Montesquieu: «Para que não se possa abusar do poder é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder». E mais adiante complementa o célebre pensador, em sua magna obra «Do Espírito das Leis”, publicada em 1748: “Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo, exercesse esses três poderes: o de fazer as leis, o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as divergências dos indivíduos”.6

3. A Ambiguidade do Poder 

Por que tudo estaria perdido? Porque o poder é ambíguo, conforme bem aponta o magistrado português José Maria Rodrigues da Silva, em sua excelente   obra “O Homem e o Poder”. Diz o autor: “o poder é como Jano, o deus de duas caras, essencialmente ambíguo”.7 E tal ambiguidade fica bem caracterizada quando SILVA exemplifica com a presença do poder em duas situações distintas e em atitudes opostas, frisando: “os cidadãos da velha e experimentada democracia britânica veem o Poder à imagem dos seus fortes e simpáticos polícias, os bobbies, que ajudam as crianças e os velhos a atravessar as ruas.  Mas os desgraçados judeus que o Estado nazi internara em Auschwitz e que aguardavam sem esperança que soasse a hora de morrerem nas câmaras de gás, não podiam ver nos seus verdugos os representantes de uma ordem legítima. Para eles, o Poder era a negação do homem; não o seu complemento”.8 Há, pois, poder legítimo e poder ilegítimo. Poder legítimo é exercido por “autoridade” competente e como tal reconhecida e aprovada pelo Direito e pela população. Poder ilegítimo se traduz no exercício violento da força e contraria os fundamentos éticos do Direito.9 É poder destruidor das condições sociais necessárias ao bem comum.  
Nas relações econômicas e, de modo especial naquelas em que capital e trabalho se encontram, o poder também pode libertar ou escravizar. Especialmente se o poder econômico se alia ao poder político. Atualmente, os freios aos seus abusos para a não escravização são estabelecidos pelo Direito, mediante normas constitucionais, pactos internacionais, legislação infraconstitucional e a jurisprudência comprometida com o reconhecimento efetivo dos direitos humanos e fundamentais, especialmente aqueles conectados com a ordem econômica e financeira. Tal ordem, segundo a Constituição Federal (art. 170), está “fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa” e “tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social”. São estímulos e freios. Estímulos à construção de uma convivência equilibrada entre o capital e o trabalho orientada por princípios de justiça que levam em conta a necessidade de proteção dos economicamente mais frágeis. Isto porque, nesta seara, vale lembrar célebre frase de LARCORDAIRE: “Entre o fraco e o forte, a lei liberta e a liberdade escraviza”. Por exemplo, a desregulação ou ausência de normas protetoras  e o afastamento da tutela jurídica ao trabalhador, no âmbito das relações de trabalho,  resultam, frequentemente, em abuso do poder econômico, mascarado mediante a má utilização do conceito de “trabalhador autônomo” para, em verdade, se negarem direitos sociais inerentes à relação trabalhista cujo vínculo entre patrão e empregado  se quer ocultar. 

4.Conclusão 

Conscientes de que o poder “se manifesta em todas as dimensões da vida humana”10 e que, com frequência, usa máscaras11 para impedir a transparência, despi-lo de suas máscaras é um grande desafio à democracia. Esta exige a transparência, respeito à cidadania, solidariedade, cooperação, mútuo respeito, participação e reconhecimento à dignidade inerente a todo ser humano, pelo simples fato de ser ele uma PESSOA e não uma coisa.  
Quando um povo se educa para a convivência democrática, ele, mediante suas leis, retira as máscaras do poder, estabelece freios necessários a evitar abusos  e exige sua atuação  em prol da concretização do bem comum.  Quando isso não ocorre, têm-se a tragédia da perversão do Poder.  A história traz múltiplos exemplos em ambos os sentidos.  Por isso, urge que se preste atenção - antes e na hora de se fazerem as escolhas dos futuros governantes - se o candidato apresenta ou não qualificação moral ilibada e nível educacional compatível com a relevância do cargo.    
Para tanto, é aconselhável colocar-se diante da seguinte cena  imaginária, mas profícua: vê-se do alto de seu eterno púlpito, a PRUDÊNCIA, como virtude indispensável   à realização da  EQUIDADE e da  JUSTIÇA entre os humanos, a conclamar e a aconselhar em alto e bom som a seu auditório universal: cidadãos e cidadãs de todos os quadrantes, prestai muita atenção na hora de concederdes poderes políticos e jurídicos por meio do voto, pois ele, o voto, é a autorização expressa para o exercício do poder político. E tal exercício poderá produzir o “bem comum” ou, em lugar deste, a miséria e insegurança em vosso meio. A escolha está em vossas mãos. Prestai atenção! Prestai muita atenção! Sois responsáveis por vossas escolhas!
Além de se dar ouvido aos conselhos da prudência, é preciso ressaltar que a presença do poder em todos os espaços da sociedade não retira dos seres humanos a possibilidade de se verem como irmãos em um único e mesmo barco da vida , cujo destino pode ser o alcance do “bem comum” ou o naufrágio de toda a humanidade.  Ainda resta esperança de que tal naufrágio possa ser evitado se as relações de poder presentes em tal convívio forem exercidas com sabedoria, senso de justiça e fraternidade, levando-se em conta inclusive as gerações futuras. E é isso que se espera quanto ao exercício do poder, ao se defender sua colocação ao estrito serviço em prol da humanidade e do bem comum. 
1  WEBER, Max. Economia e Sociedade, 4ªed. Brasília,DF: Universidade de Brasília. São Paulo: Imprensa Oficial, 1990, p.33.   
2  ARENDT, Hannah. Sobre a Violência.Rio de Janeiro:Relume-Dumará, 1994, p.36. 
3  MACHADO, Roberto. Introdução. In:FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder, 8ªed. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p.XIV.
4  Papa João XXIII, Pacem in Terris  (Eincíclica, I,58). 
5  CHARLES H. KAHN assim comenta sobre os dois fragmentos heraclitianos citados: “Da mesma forma que um ataque inimigo contra os muros da cidade ameaça todos os seus habitantes, uma casa em chamas ameaça toda a vizinhança de destruição. E assim como a defesa da lei cívica é vista [...]como algo tão vital quanto a defesa dos muros, aqui a supressão da ybris – supressão daquela violência que desconsidera a lei e  ameaça a comunidade – é vista como algo mais urgente do que apagar um fogo em vias de fugir ao controle.”Cf. KAHN, Charles H. A Arte e o Pensamento de Heráclito. São Paulo: Paulus,  2009 (Col. Philosophica), p.375. 
6  MONTESQUIEU, Charles Louis de Secondat, baron de de la Brède et de. Do Espírito das Leis, 2ªed. São Paulo:Abril Cultural, 1979 (col. Os Pensadores), p.148  e 149.
7  SILVA, José Maria Rodrigues da. O Homem e o Poder. Lisboa: Bertrand Editora, 1988, p.36.
8  Idem, p.35.
9  Vicente de Paulo Barretto também nota “a existência de duas faces do poder: uma que se expressa pelo poder nu e que se exerce pela violência; outra que caracteriza a forma de poder qualificada pela autoridade. A distinção entre os dois tipos de poder, o poder dotado de autoridade e o poder ilegítimo, reside no fato de o primeiro expressar um valor moral, do qual se origina. Assim sendo, o exercício do poder em todas as instâncias das relações humanas, no âmbito público, que encontra a sua forma mais elaborada no poder estatal ou no âmbito das relações privadas, tem na autoridade a pedra de toque da sua legitimação. Por conseguinte, a legitimação atestada na autoridade em que se investe de todas as formas de poder é condição para que as suas determinações sejam aceitas e sancionadas, quer no espaço público, quer no espaço privado . Cf. BARRETTO, Vicente de Paulo. As Máscaras do Poder. São Leopoldo, RS: Unisinos, 2012 (coleção Aldus,37), p.77. 
10  BARRETTO, Vicente de Paulo. Op. Cit. p.19.
11  BARRETTO assevera  que “o poder veste muitas máscaras e, assim, encobre a sua verdadeira face. Como as máscaras usadas pelos atores no teatro da Roma clássica, chamadas personas, o poder aparece encoberto por disfarces diversos. Essas máscaras escondem o fato de que o poder veste e procura legitimar a força, que, quando deixada em estado puro, converte as pessoas em coisas, em cadáveres, em pó, como lemos na Bíblia. Entendemos então por que, na longa história da humanidade, processou-se a luta constante entre a força, que se manifesta na sua forma extrema pela violência, e o poder, que procura controlar e regular as suas manifestações. O poder surge, portanto, como uma rede de relações sociais que tem a função principal de impedir que a força, latente na condição humana, se torne instrumento da sua própria autodestruição”. Op. Cit. p.15.


Elimar Plínio Machado e Flautistas
Tetracorde 2020*
Nosso Momento de Arte contou com a apresentação da "Viola da Gamba", com três números musicais. 

TETRACORDE 
1- Tedescha et Saltarello do Il Primo libro de Balli, 1578 - Giorgio Mainerio (~1530/40 - 3 ou 4 de maio/1582) 

2- Recercada Quarta para viola da gamba baixo solo do Tratado de Glosas, 1553 - Diego Ortiz (1510 - ~1576)

TETRACORDE 
3-Ballo Anglese et Saltarello – G. Mainerio.
Giorgio Mainerio nasceu em Parma, Itália, entre 1530 e 40. Acredita-se que seu pai era de origem escocesa, chamada Mayner. Estudou Música e em 1560 como presbítero, procurou trabalho como capelão e altarista na igreja de Santa Maria Annunziata em Udine. Permaneceu 10 anos em Udine e graças a seus conhecimentos musicais anteriores e aulas com os contrapontistas Gabriele Martinengo [Maestro de Capela (1562-67) e Ippolito Chamaterò [Maestro de Capela (1567-70) iniciou sua carreira musical. Após 3 anos em Udine, interessou-se por ocultismo (astrologia, mágica e necromancia) e havia muitos rumores que juntamente com algumas mulheres realizava ritos noturnos. A Inquisição em Aquileia iniciou uma investigação mas o caso foi encerrado por ausência de evidências. Após o episódio, Mainerio teve mais problemas com seus colegas por aspirar uma posição na Basílica Patriarcal de Aquileia, deixou parcialmente o trabalho em Udine, motivando sua decisão por “razões impelentes, mas honestas”. Foi aceito em Aquileia e se mudou para lá vivendo no quieto e isolado patriarcado. Tornou-se, em 1578, Maestro di cappella na S. Chiesa d’Aquilegia. Teve problemas de saúde em seus últimos anos de vida e frequentemente deixava a igreja para viajar a Veneza, Ancona e outros lugares com águas termais. Faleceu em 4 de Maio de 1582.
Escreveu obras de música sacra, embora tenha publicado uma coleção de canções e danças populares – Il primo libro de’ balli – Veneza, 1578
Seu Magnificat octo tonorum ... cum quatuor vocibus contendo um Regina Coeli foi publicado em Veneza, alguns anos antes, 1574.
Mais tarde publica outros 10 Magnificats sob o título de Sacra Cantica Beatrissimae M. Virg. Omnitonum Sex Vocum Parium Canenda, integrando um moteto (a 6 partes) conhecido como O Sacrum Convivium, impressos em Veneza no ano de 1580.
Mainerio serve de inspiração até os dias de hoje seja como compositor ou personagem de uma estória de um popular livro de quadrinhos de terror “DAMPYR”. A estória intitulada “Il musicista stregato” [“O músico enfeitiçado”] publicada no no. 107 da série de 2009, foi escrita por Mauro Boselli em um enredo de Mario Faggella e desenhada por Mario Rossi. Ele reinterpreta aspectos reais da vidad de Mainerio (particularmente seu interesse por ocultismo e magia) em um tom fantástico, combinando-os com alguns mitos do folclore Friulano como Agane, demônios aquáticos femininos semelhantes às Bean-nighes escocesas (mensageiras da morte e do além – personificadas como lavadeiras que lavavam as roupas nos riachos daqueles que estavam prestes a morrer).

GRUPO TETRACORDE - 2020 

Criado através da Monitoria de Flauta Doce, orientada pelo Prof. Hélcio Müller, no ano de 2000, com a experiência de alunos do curso de Lic. em Música coordenando e colaborando com suas respectivas classes. Foi um trabalho de grande repercussão formando assim um quinteto de flautistas da matéria Flauta Doce. Ao final do ano (2000) o grupo sentiu-se motivado a continuar as atividades na forma de quarteto. Em Fevereiro de 2001 iniciam-se os ensaios do grupo que recebeu o nome de TETRACORDE. O conjunto teve atividades ininterruptas até o ano de 2008. Por questões diversas foram interrompidas as atividades e volta neste ano de 2020 com a seguinte formação: 

Gabriel Schmidt – Flautas Doces Soprano e Contralto; Luciana Nishi – Flautas Doces  Contralto e Soprano; Luciana Schmidt - Flautas Doces Baixo e Tenor e Plínio Machado Flautas Doces Tenor, Baixo e Direção Geral.

Plínio Machado – Londrinense, iniciou seus estudos musicais através do piano com Heloiza Branco e através dos Festivais de Música de Londrina teve seus primeiros contatos com a Música Historicamente Informada – conhecida na época como Música Antiga. Foi fundador do Grupo Arabesco e com este conjunto mudou-se a Basiléia – Suíça para estudar o Fagote Barroco, Viola da Gamba e Fiedel, na Schola Cantorum Basiliensis. Retornou ao Brasil e desenvolve na UEL a proposta da Música Histórica desde 1995, que neste ano completa 25 anos de atividades. Apresentou-se em várias cidades da Europa e América do Sul. Estudou Viola da Gamba em Buenos Aires com Juan Manuel Quintana, Ricardo Massun e Hernán Cuadrado, sendo o primeiro aluno a graduar-se no instrumento na única escola de nível superior da América Latina. Participou de várias gravações com música Medieval, Renascentista e Barroca com a Camerata Antiqua de Curitiba - PR, ATEMPO – RJ, Julián Polito y los Lírios del Campo – Argentina, além de concertos de lançamento dos referidos registros. Retornando de seus estudos ampliou as atividades da MHI com os grupos Orquestra Barroca Capriccio Stravagante e o Coro de Ópera Barroca Color Rhetoricus. Além das atividades com os grupos NEUMA (medieval), Tetracorde, desenvolve atividades de consultoria e assessoria especializada na Interpretação e Performance no Brasil, Argentina entre outros países. É membro-fundador da Associação Brasileira de Viola da Gamba criada em 2017.

"Vida" 
Acadêmico Clodomiro Bannwart

Falar a respeito da vida não é assunto dos mais fáceis. Talvez eu tenha de render-me à Clarice Lispector, que afirmava: “Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Oscar Wilde nos ajuda do ponto de vista conceitual quando diz que “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”.
Santo Agostinho, importante teólogo e filósofo do século IV d.C., trabalhava com a hipótese de haver uma hierarquia na natureza. Uma pedra, dizia ele, apenas existe. Um animal e uma planta, além de existirem, possuem vida. O Ser humano, além de existir e de viver, possui a singularidade do pensamento. O pensamento é o que nos fornece a consciência de que existimos e de que vivemos. Por meio do pensamento, temos ciência de que não basta existir como uma pedra ou simplesmente viver como uma planta. O pensamento nos projeta ao bem viver, a uma vida com propósito, sentido e valor. E nisso consiste a nossa riqueza: o pensamento nos leva além do que somos, além de nossas limitações. Leva-nos, segundo Agostinho, a Deus. Há um propósito no existir e no viver.
Para um alpinista, as montanhas não existem apenas para alcançar o topo, mas para curtir a adrenalina da conquista e, sobretudo, para aprender o valor da escalada. Da mesma forma que um chef confere sabor a um prato, também nós, cada qual a seu modo, somos convidados a temperar nossas existências, dando sabor à vida. A questão, no entanto, é que não há receitas e tampouco ingredientes predefinidos a azeitar o sabor que desejamos imprimir às nossas biografias.  
Faz certo tempo que eu espalhei no chão de casa uma porção de peças de lego e fiquei observando a forma curiosa com que minha filha, na época com pouco mais de um ano, olhava para cada pecinha colorida. De imediato, ela começou a tocá-las e prontamente percebeu que as minúsculas peças podiam ajustar-se mutuamente. Então eu comecei a encaixá-las, uma a uma, até formar uma figura que a deixou ainda mais surpresa. O contentamento expresso em seu sorriso aberto, dócil e ingênuo, demonstrava encantamento.
A vida, a cada novo amanhecer, revela um encantamento indescritível. Cercada de experiências e de ensinamentos, de alegrias e de sofrimentos, de esperanças e de desânimos, de amigos e de momentos de reclusão, a vida é semelhante a um lego. Várias são as ocasiões em que, ao depararmo-nos com fatos e acontecimentos corriqueiros do dia a dia, parece que estamos diante de uma peça que tende a encaixar-se com outra. Fica a impressão de que os fatos e as experiências grafados em nossas histórias pessoais concorrem para arquitetar o sentido mais amplo e completo de nossas existências.
A minha filha, tão rápido se encantou com a figura, também a desmontou e chateou-se por não conseguir restituir o sentido que eu, pai, havia lhe conferido. Ela chorou e veio ao meu encontro murmurando com suas palavrinhas embargadas de lágrimas: “Papai faz.... papai faz....”. Ela sabia que eu era capaz de restituir o sentido da imagem que havia tocado seus sentimentos e cativado seus olhinhos brilhantes. 
Assim também parece acontecer na vida. Suplicamos, em oração, o auxílio do Pai na tentativa de compreender melhor os encaixes das peças da vida. Há peças traiçoeiras que parecem desconectadas e sem o menor sentido para nós. Muitas vezes ficamos atônitos, sem saber qual peça nos falta. Em momentos assim, rendemo-nos como crianças que suplicam e imploramos Àquele a quem acreditamos conhecer a configuração plena das peças a ajudar-nos a assimilar, ainda que parcialmente, a imagem desse grande quebra-cabeça, de infinitas peças, que é a vida. E oramos, sim, como crianças. “Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, pois delas é o Reino dos Céus” (Mateus, 19:14).
Parece que na percepção dos encaixes das peças da vida está o pressuposto da fé. Elas tendem a realizar algo maior do que podemos ver ou compreender no momento. As peças minúsculas do dia a dia, ao serem encaixadas com o auxílio das pessoas que cultivamos, ajudam-nos a potencializar a maturidade de uma fé que é construída e sustentada coletivamente.
E quando observamos que somos também as peças desse grande quebra-cabeça, compreendemos que todo o esforço que empreendemos a encaixar o sentido coletivo de cada peça (cada pessoa), estamos, na verdade, contribuindo para a realização do sentido e da plenitude de nós mesmos. É no desdobramento da temporalidade, no correr do tempo que asseguramos sentido à vida e ao que somos. O que aflige em tudo isso é a finitude da vida. A esse respeito, Rubem Alves fixou a seguinte questão: “Resta quanto tempo?” Sua resposta: “Não sei. O relógio da vida não tem ponteiros. Só se ouve o tique-taque. Só posso dizer ‘Carpe Diem’ – colha o dia como um morango vermelho que cresce à beira do abismo. É o que tento fazer”.

“俳諧
HAICAI - Três linhas de Poesia
Lucrecia Welter Ribeiro*

A Acadêmica Lucrecia Welter Ribeiro, presidente da Academia de Letras de Toledo e da Associação das Academias de Letras, Ciências e Artes do Paraná, apresentou sua palestra com o tema “俳諧 HAICAI – TRÊS LINHAS DE POESIA” abordando os seguintes itens:
1) definição do termo Haicai; 2) sua origem e chegada ao Brasil; 3) Quem foi Matsuo Bashô; 4) Características e Regras Clássicas do Haicai; 5) Conselhos práticos.
Definição
Haicai é uma forma poética de origem japonesa, que valoriza a concisão e a objetividade. Em português, é escrito haicai devido à influência francesa, mas encontramos nos modos: haiku, haikai, hai-kai, aicai. 
Haicai é a emoção concentrada na observação da natureza, convertida em poema de três linhas, com dezessete sons, e grande carga poética. Haicai é uma sugestão poética. O haicai não diz tudo o que se quer dizer, mas continua dizendo nas linhas não escritas.
"Haijin ou haicaísta" é o nome que se dá a quem escreve haicais.
O formato tem suas raízes no Tanka (5-7-5 7-7) e no Renga, importante manifestação literária da cultura japonesa que remonta ao século XIII. Os versos eram escritos por vários autores, que respondiam a uma forma de “desafio elegante” entre si ao escrever.
Imigração Japonesa
Em 18 de junho de 1908, o navio Kasato Maru chegou ao Porto de Santos, trazendo a bordo 781 japoneses. O encarregado dos imigrantes, poeta Shûhei Uetsuka “Pai da Imigração Japonesa”, promovia desafios elegantes entre os tripulantes durante os 52 dias de viagem. Ao chegar ao Porto de Santos, vendo a Serra do Mar, escreveu este haicai: 
Karetaki o miagete tsukinu iminsen 
a nau imigrante / chegando: Vê-se lá no alto / a cascata seca
Masuda Goga, em entrevista concedida a Epaminondas Alves, publicada no Jornal do Nikkey (São Paulo) de 06/06/1998 afirma:
Existem mais ou menos três tipos de haicai: 1) O haicai com título, com rima e 17 sílabas rigorosas. 2) O haicai com 17 sílabas, sem rima, sem título, sem kigo.  3) O haicai com 17 sílabas, sem rima, sem título, com kigo, (haicai clássico), que a palestrante segue e divulga nas escolas.
Os grandes mestres haicaístas que da escola clássica: Matsuo Basho (1644-1694), Kyoshi Takahama (1874–1959), Nenpuku Sato (1898-1979), Goga Masuda (1911-2008) e Teruko Oda (1945).
Alguns haicaístas, autores de haicais livres: Helena Kolody, Guilherme Almeida, Paulo Leminski, Millor Fernandes, Mário Quintana, Alice Ruiz.
Foi apresentada uma síntese das características e regras do haicai clássico e os cuidados para com sua composição: 
• Teikei (forma) é composta de 17 sílabas poéticas ou pés métricos (5-7-5). 
• Kire (corte) que o divide em duas partes, com o uso da pontuação ou não. 
• Kigo (palavra da estação, termo de estação ou termo sazonal). Kidai (tema da estação). O kigo/kidai reside na descoberta do transitório e dá profundidade ao haicai. É o eixo do haicai, a sua sustentação.
HAIMI - Aquela sensação poética que nos eleva, o algo mais que se lê entre as linhas, isso é o haimi, a essência da poesia. 
O haicai é uma arte que mostra um caminho de elevação espiritual, um distanciamento contemplativo. Nesse estado zen se revela o haimi (perfume de haikai... ou toque de poesia). No ideograma kanji, haimi significa literalmente: sabor + haicai. 
MAKOTO - Consiste em pôr em nossas ações a máxima da verdade interior, despertando uma conexão entre o ato, o espírito e o universo. Literalmente seria colocarmos nossa “ALMA” naquilo que fazemos.
Finalizou falando das quatro edições do Concurso de Haicai de Toledo – Kenzo Takemori, da fundação do Grêmio Haicai Sakura (fixação da placa do Grêmio com o nome de seus fundadores e plantio de três árvores de Cerejeira do Japão – sakura na Pracinha do Japão em Toledo). Falou também das fontes de consulta do tema abordado.

*Nasceu em Toledo-PR, formação superior na área de Ciências Exatas; Presidente da Associação das Academias de Letras, Ciências e Artes do Paraná; Presidente da Academia de Letras de Toledo-PR; membro do Clube da Poesia de Toledo-PR; coordenadora e fundadora do Grêmio Haicai Sakura de Toledo-PR; Delegada da UBT – União Brasileira de Trovadores em Toledo-PR; Coordenadora Geral da Revista Philos; poeta multipremiada em concursos literários. Tem livros publicados.